Pois não

Esta história seria sobre um sujeito que não aguentava mais o próprio trabalho, ter de acordar com aquela obrigação arrastando-o pelos cabelos até o banho frio de bom dia no elevador do térreo ao décimo terceiro em meio àquela gente falando a todas aquelas outras tantas que nem sequer desligar, esperar 5 segundos e religar o modem são capazes para resolver um simples probleminha que nem é de configuração, compreende? Mas quando ele sentou-se decidido a escrever, percebeu que aquela história não tinha relevância alguma, pouco distinta que era da dos colegas todos e. Num acesso repentino de gozo, dirigiu-se ao banheiro – no fundo do corredor, dobrando a esquerda, último sanitário privado – com a cabeça entre as pernas tapando a boca com as duas mãos dando risada e não se contendo e dando risada não se contendo. Antes de, enfim, crispar a testa, derrubar os olhos e lamentar a volta àquela vida sem graça da cabine número 13, fila 7A, próxima à janela que, se está calor, deixam aberta e entra um ventinho chato que espalha o cabelo ou, se está frio, fecham-na, mas não a persiana e então a claridade reflete parte de sua expressão torta e a nuca do 26 da fila 7B. E assim por diante.

Ampulheta

Levam-no embora sem você brigar, levantar a voz, falar em resposta… Só lhe resta, então, conceder as partes de sua vida que vão sendo tiradas enquanto você morre. A resignação é a sua maior conquista, aqui, e todo dia de amanhã é uma rotina, por não se poder fazer nada por ele. Esse nó, essa dorzinha que lhe incomoda a garganta, saiba disso, trata-se apenas das lágrimas misturadas às poucas esperanças, à espera que estão de romperem sutilmente seu corpo, quando você fechar os olhos e dormir no silêncio dos que se conformam.

Vazio

Se torna tão dolorido sentir, que o sentimento é aprisionado em uma garrafa e lançado ao mar para que, quem sabe, um dia se possa encontrá-lo com melhor destino. Mas, quando lançamos nós nessa garrafa… Que pessoas são essas, à deriva nesse meio de caminho, que não é nenhum lugar?

Estupidez coincidência

Entre a Conselheiro Laurindo e a Treze de Maio, um motoqueiro foi encurralado contra a lateral de um ônibus, quando tentava ultrapassar um veículo da marca Fiesta. A motorista desceu exasperada, com as mãos na cabeça dizendo “não pode ser, Deus do céu! não pode ser!” – até parecia o desespero de um particular, na certa que seria demitido. O motoqueiro não resistiu e morreu ali mesmo. No Hospital Evangélico, teve que dar a notícia à própria vizinha. “Glória, não sei como pode um negócio desses!, tantos motoqueiros no mundo e bem o Roberto!”. Glória não era idiota, há meses mal dormia desconfiada que estava da vizinha com o Roberto, afinal, saíam sempre no mesmo horário e ele não deitava mais tão perto quanto antigamente. “É hora de trabalho de todo mundo, amor”. “Eu chego cansado, benhê”. Nunca deu ouvidos e estava pra contratar algum tipo de detetive, se juntasse um dinheirinho. Nem foi preciso, e teve a certeza, na hora! “Essa maldita desgraçou a mim, a meus filhos e ao meu marido”. Mas não ligou pro ódio, nem riu da incrível coincidência ou estupidez do casal de amantes. Glória respirou enfim aliviada, pois agora podia, “Deus do céu”, dormir em paz.

A droga? Que é inevitável

Levava a vida em miúdos, o velho, dava até pra contar nos dedos. Um dia de cada vez. Mas quando os dedos acabaram e, no meio da noite, qual dia era? Desesperou-se. E a madrugada, você sabe, um demônio olhando pela janela. Ao bater à porta, insistente, tapou os ouvidos e clamou a Deus até quase amanhecer. Com o horizonte riscando, discou 1 para emergências. Encontro com a vida, bom dia? Não, Sr., nós fazemos plantão. Fique calmo, Sr., já vamos estar enviando. À porta, um jaleco enorme espremido num corpinho de gente. São eles! O enfermeiro já sabia da história a metade, só de olhar. Cuidado com a cabeça, Sr., vamos pôr este cinto para a sua proteção. Através da janela, um acidente no viaduto. Que vidas levam esses homens, carregando estropiados. Ao chegar, pode se deitar aqui, disseram. Tão logo a primeira foi aplicada, cobriu-se com o manto medicinal. Abençoado agora seja. Pois, nove meses antes, fora achado babando na casa de praia do filho mais velho. O neto tinha ido surfar com a namorada, Lia, encontrando-o por acaso. Morreria ali sozinho, será? Não faria diferença. O neto ainda deu umazinha, antes de voltar à cidade. Quis aproveitar, já que também iria cair. Fugir dali, largá-lo lá? Resolveu foi esfregar na cara do hipócrita. O pai (de Lia) a proibiu de visitar o drogado. O neto e o velho foram pra reabilitação. Acontece nas melhores famílias. Mas só o velho “sobreviveu” ao “tratamento”. O jovem era rebelde, um espírito arredio encarcerado. O corpo é frágil, você sabe, não o conteve. Hoje, a recaída não foi a que o enfermeiro viu na pupila cediça. Disse, antes de levar a picada, ter recebido a visita do neto o atormentando com aquela droga. Os médicos se entreolharam e a conclusão levou-o à ala contígua, dos sem juízo. Foi tarde. Devia é morrer de uma vez!, pensou alto socando a parede do banheiro. Mas pensaria assim, dois meses depois, vendo o velho num caixão e culpando Helena pela educação do único filho, aquela maldita desgraçada? Sem um, nem o outro, a perderia também, uma semana após o enterro. Mas, nesse caso, não por morte. A morte ainda estava por vir. Afinal, um dia de cada vez.

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