Pouco antes da meia-noite, recebi uma ligação. Estranhei o telefone tocar, mas atendi convicto de ser um engano. Do outro lado da linha, uma breve pausa aliada ao “Feliz…” e o silêncio. Ouvi alguns fogos ecoarem fora de época e notei aquela movimentação típica. Eu preparava-me para dormir e não soube o que dizer. Já a outra pessoa, muito provavelmente, precisava apenas falar com alguém que fosse antes que se sentassem à mesa.
24/12
Natal
19/12
Traição é assim
A mulher vai estar desprevenida. A outra perceber sua surpresa. A primeira tentará fingir que não, enquanto a segunda que está claro. Alguma coisa aí tem. À noite, uma dormirá com o ouvido à espreita, já a outra com os olhos abertos. Nada disso servirá, pois a terceira mulher, ela terá a coragem ou o descaro de bater à porta. Dizendo eu te amo, com os olhos embebidos em lágrimas e chamas, verá um punho nublar seu desejo e o corpo desfalecer no chão. A mulher traída juntará suas coisas e partirá sem sequer pensar para onde. A que traiu, no fundo, no fundo, sentirá um alívio de finalmente. Traição é assim, concluiremos. De que adianta ser hipócrita, se a vida não faz ameaças?
17/12
Diafragma
Vou fingir tudo bem. Guardar mãos nos bolsos acenando ok. Vou derrubar olhos aos joelhos e sentir planta pés remoendo. Subirei degraus resoluto e complacente. Lá em cima, à beirada. Sopro angústia peito arfando e gravidade-me céu abaixo. Sussurros do vento. Escurecendo os olhos, sonharei que não vejo, não sinto, nem me arrependo. Com drama, eles levantarão o corpo pelos pés e braços. Na maca, ele terá o peito preto de sangue. Tendo-o afogado, enfim liberto.
02/12
Paixão
Se você esperar de mim alguma providência, está fodido. Fo-di-do (batendo a porta)! Olhou pelo quadradinho de vidro reforçado, pra garantir, e sugeriu atravessar as grades da janela de ferro ou pendurar-se pelo pescoço em lençol de plástico. Ela pensou firme, até esboçou o movimento, deu todos aqueles indícios, mas borrou-se em lágrimas e os outros esticaram os lábios preguiçosos. Quem se importa? Se o sol deflora a Terra todo santo dia, nenhuma louca vai alterar a ordem das coisas. Mas ele… Ele voltaria. Porque sim, eu adianto. Porque dela, a tal diria. 6:15, nenhum sinal. 7:23, outro confessor. E assim por diante, pois as férias. Então tremeu toda batendo a cabeça uma duas três descabelou-se e descabelada gritou nas madrugadas até selada até sedada suou sangue suou extirpando o espinho da chaga. Já de volta às ruas, descobriu que estar sã era só fachada e tão logo voltou. Porque o diabo, o diabo veste-se de anjo. No fundo, é do que ela gosta, a maligna. Cadê ele, quando ele volta?
05/11
Auxiliar de enfermagem
Um dia, levantei com disposição. Não era urgência, nem ansiedade, eu estava era determinado. No hospital, me cumprimentavam pelo primeiro nome e o café tinha gosto de dádiva. São pacientes terminais, com as cabeças e sobrancelhas desnudas. Quer saber? Ao se deparar com o precipício das horas, você tende a valorizar a existência do tempo. Isso significa que há esperança. Os parentes lamentam, eles carregam o peso nos olhos, engasgam o medo na garganta. É triste de ver. Mas depois, no cantinho da tarde, ouço o desejo dos pacientes, por mais um dia, um diazinho que seja. Nessa hora, não parece triste, pois eles clamam com sorrisos, agradecidos por mais um pouco de vida. Quando volto para casa, em um dia desses, sinto-me revigorado; e eu sei o quanto isso é irônico. Mas o que me incomoda é implorar a Deus, antes de me deitar, que na manhã seguinte essa mesma disposição me desperte; um diazinho mais que seja.
13/08
À sombra do vulcão
O velho desamarrou seu cavalo preso à árvore e disse vai, vai-se embora. Chegou até ali, você sabe que a essa altura já não há mais o que temer. Estamos em meados de 60. Acima, há o morro, do qual vem a corredeira. Aqui, ele disse, enquanto o rio desafia o tempo, eu completo mais um ciclo dessa vida. O cavalo não se vai, essa árvore também será testemunha e à minha alma, de tantas memórias cansadas… Sentou-se ao lado da cruz de Anísia, minha avó por parte de mãe, e esperou pela sombra do vulcão. Ele apontou no horizonte cobrindo o dia e sem pressa os olhos se dobraram. O procuraram por dias. Quando lá estive, não encontrei seu corpo, nem a cruz, mas a carcaça do animal havia ficado. Não foi por isso que eu havia ido, queria era ver o tão famoso rio e presenciar aquela história de vulcão. A única coisa que eu posso dizer agora é que me fui antes de escurecer.
27/07
Santa ceia
Apontou no horizonte como se descesse do céu. De súbito, o instinto deles eriçou a fome, enquanto o stilleto vinha acariciando a calçada. As canelas anunciavam a grandiosidade daquelas coxas, que cegavam à altura do sexo, estampado por um vermelho maduro. Já o vestido, soprado pelo vento, provocava as feras na arena. Não apenas os olhares ficaram petrificados. No ar, também os braços ostentavam rígidos suas refeições. Os olhos famintos mal tinham chegado aos seios, porque não é com pressa que saciam a cobiça. E os lábios provocantes esboçaram um risinho safado, culpa daquele vermelho malicioso. Com o nariz esculpido à altura de Deus – que, definitivamente, não é dali de cima que zela pelos seus –, ela os manteve famintos e religiosamente rendidos. A comida por fim esfriou, enquanto às costas desciam os olhares estanques, no chão. Ao soar do sinal, e então à labuta, voltaram ferozes.
16/07
A insustentável leveza do ser
Vi que meus pais iam sair, pois estavam arrumados diferente. Foi aquela vizinha quem ficou me cuidando, desta vez. Aí, logo que eles saíram, eu não entendi bem, só que ela entristeceu depois. Chorou e falava alguma coisa. Ela olhava pra mim, mas eu ainda não podia entender. Eu ri, pra ver se animava ela um pouquinho. Aí me pegou no colo e o rosto ficou grandão, tive um pouco de medo. Quando ela me cobriu todo na minha mantinha, ficou quentinho e não tive mais medo não. Deu até sono, pois balançava um pouco. A única coisa é que daí não enxergava nada e o vento foi apagando a luz. Senti um frio, inclusive na barriga depois, quando ela tinha me deixado. Sabe como? Foi legal a sensação, até que divertido. Mas acho que peguei no sono, enquanto ela brincava comigo; acho que sim. É que depois aí já não lembro mais nada, nem de quando meus pais voltaram ou de quando acordei.
10/07
A grande obra ou “ora bolas?”
Minha melhor história foi escrita quando, como se diz? Eu estava no auge, aquele momento em que o jovem escritor encontra o velho calejando, pois a vida, meu amigo. E antes de se sentar supõe-se ter os pés firmes. Por isso eu nunca me casei, sabe como é: boêmio e tal. Tive alguns filhos, é verdade; faz parte. Mas sem o peso do compromisso, me restavam as letras. Ora, a vida que eu sempre desejei. Pois bem, aquele momento em que se alcança a sabedoria enquanto ainda resta vigor, percebe? Como se natural, veio em consequência, não sei explicar como essas coisas acontecem. É assim, de repente você é um adulto e já está ficando velho. Bom, havia chegado o momento contingente de se produzir a grande obra. E ela foi engavetada, enquanto eu visitava as editoras. Não só, some um incêndio causado pela vela derretendo sobre a escrivaninha, segundo o laudo. Como eles identificam essas coisas, entre as cinzas? Não sei mesmo. A minha sorte foi estar de viagem, lá com as editoras. Passado tudo eu agora, eu podia, enfim, viver do aconchego, finalmente havia chegado o meu momento. De lá pra cá, a paz tem sido companheira e já penso em casar e tudo mais, sabe como é.
01/06
Protected: Sem palavras
| 






