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	<title>nada pessoal &#187; txt</title>
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		<title>Trecho de uma carta</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jun 2010 02:25:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[(&#8230;) É impressionante mesmo como a mão que acaricia também machuca, o mesmo corpo que nos inspira também repulsa, e não fossem tão cegos os desejos, descobriríamos que a eternidade que eles sugerem é indelével no rastro que depois em nós deixam. A ruína é o caminho que eles traçam e a dor com que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(&#8230;) É impressionante mesmo como a mão que  acaricia também machuca, o mesmo corpo que nos inspira também repulsa, e  não fossem tão cegos os desejos, descobriríamos que a eternidade que  eles sugerem é indelével no rastro que depois em nós deixam. A ruína é o  caminho que eles traçam e a dor com que nos presenteiam é um percurso  que esconde o caminho de volta, pois não há para onde voltar, apenas  entregar-se a esse céu em queda. Sei que essas palavras não irão  estancar meu sangramento, mas desejo que você me veja sangrar para que  se reconheça como autora desses meus lamentos (&#8230;) Ps.: Escrito em 2004 e encontrado, dia desses, numa maleta em que guardo cartas não enviadas.</p>
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		<title>Cessão</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Jun 2010 21:02:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos últimos dias eu acordava com uma dor em meus ombros. Percebi que eles estavam saindo do lugar, um pouco a cada manhã. Hoje, acordei e eles tinham caído de mim. Pude ver quando meu corpo se levantou, abriu a porta e foi embora do quarto.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nos últimos dias eu acordava com uma dor em meus ombros. Percebi que eles estavam saindo do lugar, um pouco a cada manhã. Hoje, acordei e eles tinham caído de mim. Pude ver quando meu corpo se levantou, abriu a porta e foi embora do quarto.</p>
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		<title>Estranhos passantes</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Apr 2010 19:50:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A vida abriu uma ferida em mim, por onde agora percorre esse corpo. Lembro do sol mal dobrando as esquinas, a idade dos sulcos na calçada e o adocicado de final de tarde. Ruas, praças e parques, públicos, sentando nós dois a alimentar os pássaros, que são pombos, e ainda são vários. Meus pais apareciam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A vida abriu uma ferida em mim, por onde agora percorre esse corpo. Lembro do sol mal dobrando as esquinas, a idade dos sulcos na calçada e o adocicado de final de tarde. Ruas, praças e parques, públicos, sentando nós dois a alimentar os pássaros, que são pombos, e ainda são vários. Meus pais apareciam pra se despedir, fosse cedo e fosse tarde. Os familiares levando-me no sobrenome, com aceno à distância. Estranhos passantes, se por acaso nas ruas, praças e parques. Éramos, talvez, todos felizes na indiferença, e por que não? Mas passar ileso é ilusão pouca, não se engane tanto. A vida cobra de você – quem dizia algo parecido era minha avó. É como a idade, esgotando-se o tempo e tornando míseras possibilidades grandes esperanças. Mísero é tanto quando o possível acaba. Por isso nunca entendia essa relação com a vida, aquele eterno enquanto dure. Eu, você e qualquer um que leia sabemos que não damos importância, até que cobra da gente. Ah, era minha responsabilidade? É tarde, abra as cortinas, que o sol não amanhã. O destino lhe apontará ao final que a culpa é toda sua. E o peso da injustiça cairá sobre seus ombros. Agora, carregue durante o quanto lhe resta, como um castigo, a punição e também maldade. Pois há sim certo prazer da vida em lhe vitimar no percurso. Ainda não entendi bem o propósito, mas acredito que ela esteja nos pregando algum ensinamento. Vai saber. Pois se tudo isso é assim, sem sentido, explicação, nem nada, então me dá adeus, que já vamos tarde. Abraços partidos pela amizade, alguns amores desperdiçados e sorrisos em festas de aniversário. Passo. A vida é um fado, mas há quem tire proveito e até de memórias enriqueça. Eu desperdicei minha passagem, olhei pela janela e achei bonita a paisagem. Não desci. Crianças sorrindo em balanços, senhores alimentando os pássaros. Ruas, praças e parques públicos. Nós dois morrendo juntos, afinal – que mais importou? Última saudade, que o leito esfria e a ferida arde.</p>
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		<title>Descendentes</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 19:17:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A um corpo de distância jaz o inevitável. Do lado de lá, o correto a se estar. Daqui, já sou culpado. Não importa o motivo, nem qual é o fato. Veste-se no corpo a personagem errada. Tanto pela esposa quanto pela amante, imagina então o resto do povo. Que não entende, não, eles não entendem: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A um corpo de distância jaz o inevitável. Do lado de lá, o correto a se estar. Daqui, já sou culpado. Não importa o motivo, nem qual é o fato. Veste-se no corpo a personagem errada. Tanto pela esposa quanto pela amante, imagina então o resto do povo. Que não entende, não, eles não entendem: o vício da carne, a doença da alma, ferida mal curada cicatrizando o macho alfa. Mas, aí, extirpar o espinho atravessando a pele? Canalha por parte de traição, só. Veja você: faz sol e os pássaros cantam, só que lá fora. A voz estridente dilacera a paciência dele, tapa na cara pra começar a brincadeira e então o esbravejar da velha. Silêncio a soco é pouco, chuta a cara. Porta trancada, mas pé em cheio. Será o fim. Horas depois, o marido acusa, a família protesta, mas meu ombro desdenha. E o bebê? A complacência da lei e a inépcia da polícia (queira Deus nunca precisar deles) criam bichos soltos. Mas a prisão nesse caso será inevitável, porque a tv atiça e a opinião é pública. Fato tanto quanto o certo e o errado equivocados. Até que esse mundo tem salvação, conclui a apresentadora do programa matinal, com a mão sobre o ombro do marido. Aplausos das donas, seguras em casa. Justiça seja feita, então, doa em quem melhor satisfizer. Foi inevitável, o grito da sociedade ardeu na consciência do Estado. Até aquele ministro da amante se pronunciou. Esse mundo realmente tem salvação, não? Perpétua é pouco, queremos pena de morte. Junte-se ao coro, vai lá. Que seja feita a vossa vontade: chave de fenda abrindo o estômago e o resto da refeição enlameando o pátio. Agora, julguem isso! Outros dizem pobre coitado, mas agora é tarde. Do alto, a justiça grita: que alguém venha limpar essa merda! Já a Igreja protesta, mas Deus tem chegado atrasado. O noticiário explora, minha mãe em lágrimas. E o bebê? O bebê ele chora. No leito de morte, o céu é infinito. Há muito mais que certo, errado e equivocado. Porém, quem admite e de que lado?</p>
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		<title>Ex</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Mar 2010 22:59:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Essa doença dos sem atitude, a melancolia. Engoliu a seco. Ventinho das seis eriçando a pele, o sol deflagrando nuvens. Ela chegou primeiro, vestiu avental, touca, pessoas em cinco minutos a água fervendo, até o final da tarde. E foi embora. Mas não, não pense você que à casa do ex-marido. Desta vez, nem pensar. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Essa doença dos sem atitude, a melancolia. Engoliu a seco. Ventinho das seis eriçando a pele, o sol deflagrando nuvens. Ela chegou primeiro, vestiu avental, touca, pessoas em cinco minutos a água fervendo, até o final da tarde. E foi embora. Mas não, não pense você que à casa do ex-marido. Desta vez, nem pensar. Mulher que ainda dá para ex aceita a solidão, nem pensar. Ele sempre fora o covardão, manja o tipo? Palito no canto da boca, havaiana pregada a rebite, mão pesada nas costas da empregadinha dele. Um frouxo. Na obra, salário em bebida ou motelzinho barato. Ela também sempre fora uma covarde, que não se faça de vítima. Só que hoje chegou a casa sem o suor do dia, da foda doída e a palma marcada, do nem sequer um banho depois, aquele gosto de pele suja escorrendo à garganta, o prazer dele grudando nas costas e a dor no estômago de fome. Tomou um banho, preparou o jantarzinho modesto e alimentou o corpo coitado. Rasgou o jornal à altura dos classificados, pois amanhã também não volta para a lanchonete. Vida nova.</p>
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		<title>Quarta-feira de cinzas</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 14:44:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Começa com um homem e o nome dele é Juarez. Ele está Levando um tapa na cara por roubar da vendinha. Surpreendido pelo dono Edevaldo, foi ainda maltratado pelos filhos do cara. Cabra safado, gritavam. Juarez nem fez para tanto, uma frutinha no bolso, o toucinho na manga. Mas os caboclos eram do mal e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Começa com um homem e o nome dele é Juarez. Ele está Levando um tapa na cara por roubar da vendinha. Surpreendido pelo dono Edevaldo, foi ainda maltratado pelos filhos do cara. Cabra safado, gritavam. Juarez nem fez para tanto, uma frutinha no bolso, o toucinho na manga. Mas os caboclos eram do mal e queriam problema. No final de semana, no boteco do Joaquim ali pertinho, Juarez tirou a peixeira e gritou com toda força. Decepou um pedaço da orelha e lascou o couro cabeludo do Aldo, filho mais velho do seu Edevaldo. Os homens seguraram os dois, um com peixeira em punho, outro com garrafa quebrada à mão. O pedaço da orelha foi salvo. Edevaldo deu tempo ao tempo, continuo vendendinho, como se nada. Aldo levou dois meses para ficar bom e buscar vingança. Quando Juarez seria surpreendido na volta para casa, com pai e filho pulando no pescoço do peixeiro e esganando-o até sufocar, eles não imaginavam: o cabra tinha sido jurado numa outra batalha e morria incendiado, estalando junto à pilha de pneus perto da entrada da própria casa. A polícia investigou e não achou nada que apontasse para os pneus, o combustível ou o fogo, só as marcas das sandálias de Aldo filho e de Edevaldo pai, que na ânsia por reconhecerem o corpo queimando deram voltas em torno dele, vazando dali sem perceberem que, no chão de terra batida daquela parada restaram apenas os vazios dos pés de ambos sobre as cinzas do infeliz. Um caso claro de vingança.</p>
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		<title>O advento do sujeito</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Feb 2010 14:10:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O homem tentará explicar que não há como viver sem amar alguém e que esse sentimento possui um peso. Não, não irão entendê-lo, porque o sentimento até pode possuir o peso que for, sim, mas quem mede isso? Ninguém mede isso, você perdeu completamente esse seu juízo? E amar alguém, ora, não se vive sem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O homem tentará explicar que não há como viver sem amar alguém e que esse sentimento possui um peso. Não, não irão entendê-lo, porque o sentimento até pode possuir o peso que for, sim, mas quem mede isso? Ninguém mede isso, você perdeu completamente esse seu juízo? E amar alguém, ora, não se vive sem amar alguém, somos seres humanos, você enlouqueceu? Mas será bem isso que o incomodará: ser humano. Isso que significa ter um corpo, um cérebro viscoso comandando e dizendo tudo, vendo tudo, sentindo tudo, principalmente sentindo tudo, não é o coração. Então ele sentirá um aperto no cérebro e tentará ainda explicar que não, não é literalmente “viver sem amar”, nem o “sentimento”, mas “esse”, ou melhor, “este” sentimento. Sem sucesso, pois lhe dirão que está louco, que perdeu o compromisso com a vida e que, mais dia menos dia, ninguém, nem sequer uma alma abandonada, irá querer dialogar ou se envolver com ele, por ter perdido o senso, ter virado um desses lunáticos que profanam túmulos ou discursam em praça pública. Uma doença da modernidade, concluirão. Modernidade, ele pensará. É isso. Dane-se a vida moderna, parei com ela! Simples assim, o homem deixará de falar e querer representar, o homem apenas viverá o que tem à disposição, aguardando o momento em que tudo isso acabará. E você pode crer que acabará, sim, pois um dia este sentimento, esta dor, este peso e aperto no cérebro irão cessar, mas não sem deixá-lo provar do sentimento de amar alguém e carregar este peso sem contar com as condolências ou o vaticínio da modernidade. A vida moderna que se dane, dirá mais uma vez, e mais seguro, eu sou o meu próprio sentimento e me alimento de sua existência, deixe-me morrer se isto for uma doença, pois que se dane a vida moderna, que se danem os medicamentos, que se danem você e o que você pensa.</p>
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		<title>Lágrima na pista</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 02:58:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foram sessenta e três anos de cumplicidade. Do alvorecer de suas juventudes, e aquela complacência heróica a cada idiossincrasia adulta, até o decrépito tilintar dos ossos a qualquer atrevimento físico. Sorriram mais do que se entristeceram, porém hoje ambos cobriram os olhos e não há sentimento. Do ônibus a caminho de Blumenau, em Santa Catarina, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Foram sessenta e três anos de cumplicidade. Do alvorecer de suas juventudes, e aquela complacência heróica a cada idiossincrasia adulta, até o decrépito tilintar dos ossos a qualquer atrevimento físico. Sorriram mais do que se entristeceram, porém hoje ambos cobriram os olhos e não há sentimento. Do ônibus a caminho de Blumenau, em Santa Catarina, sobreviveram o neto e dois turistas argentinos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Zona da mata</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jan 2010 14:06:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O sopro quente lambe o suor da nuca dele. O rastro sinuoso do esforço escorrendo seu dorso nu. Nas mãos, a história da própria estirpe é contada pelos calos que se agarram à enxada. Um olho espreita o horizonte e outro atenta à plantação. O espanto dos pássaros sinaliza o inevitável e o latido da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O sopro quente lambe o suor da nuca dele. O rastro sinuoso do esforço escorrendo seu dorso nu. Nas mãos, a história da própria estirpe é contada pelos calos que se agarram à enxada. Um olho espreita o horizonte e outro atenta à plantação. O espanto dos pássaros sinaliza o inevitável e o latido da fera prenuncia o embate. O objeto da labuta não servirá de proteção e o corpo de Irineu da Cunha será atirado ao solo. A alguns dias de sua morte, ele escrevera a carta com o punho ainda trêmulo. Endereçada ao filho restante, que meses antes se refugiara no centro do Brasil, só foi aberta quando o jovem desconfiou da própria sombra. Com o diabo no encalço, não se brinca com o destino. Seu paradeiro descoberto não era novidade, o velho farejava o filho nos álbuns de família. A notícia da morte do pai havia sido antecipada, mas a covardia do filho selou o que segredavam aquelas palavras. Agora, era tarde e a carta trazia junto o algoz daquela linhagem.</p>
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		<title>Coordenadas</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Jan 2010 01:09:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Escrevo em cadernos de brochura. São aliados fiéis munidos de abscissas em branco, todas às minhas ordens. Subservientes aos lápis ansiosos, as linhas germinam idéias ao se auferirem de suas palavras os pensamentos. À margem esquerda, as ordenadas possuem apenas direção, de avesso feminino, intitulada y. É a grande incógnita, que interrompe a caligrafia alertando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escrevo em cadernos de brochura. São aliados fiéis munidos de abscissas em branco, todas às minhas ordens. Subservientes aos lápis ansiosos, as linhas germinam idéias ao se auferirem de suas palavras os pensamentos. À margem esquerda, as ordenadas possuem apenas direção, de avesso feminino, intitulada y. É a grande incógnita, que interrompe a caligrafia alertando sobre a existência de limite: para cada meio de caminho há sempre uma origem. Não há margem à direita, pois o final é um passo em falso antes da queda. Mas ali outros se encaixam e se dá asas ao que venha. Assim, cada caderno se soma a outro e sua multiplicação constrói essa Babel particular, que parece ser  de autoria, mas não se domina. Ainda, e o mais importante, há um plano que se prolonga ao infinito, em todas as direções imagináveis: perpendicular, atravessa cada um desses cadernos, no eixo das que eternizam, as abismais.</p>
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