(…) O prazer da carne está no gosto de sangue que pela pele ela escorre. Gosto vermelho de sexo. Sua cor e cheiro. A carne cortada é agressiva, te devolve a dor em gritos ou te estapeia o corpo quando reage. A faca enfiada com força na carne alimenta o desejo sedento, não o corpo carente. O corpo sofre as dores do sexo gritando os prazeres da carne. Quanto mais se ouve, menos razão se dá ao bom senso. Viciou-se. O instinto corrompe o entendimento; o homem agora possui um rosto selvagem. Os dentes mordem a vontade no corpo e a boca sente o gosto do prazer dentro da alma. O momento se torna eterno naquele instante. E nenhuma frustração futura apagará a lembrança de um deleite passado. Há banquetes espalhados pela cidade dos corpos. Cada reduto explorado é uma surpresa sagrada, ninguém sabe qual é o mistério que há entre dois corpos que se alimentam no escuro dos becos. Do que é feita esta saciedade? Não é de caras, bocas e trejeitos, é de tapas, gritos e orgasmos. O homem também é um animal irascível. Ele se difere dos outros pela compulsão. Vicia fácil nos prazeres da carne e multiplica o sexo sem a necessidade dos cios. A compulsão o difere, e diferindo o transforma. Agora o homem é o animal que pensa, projeta no futuro o que prevê no presente, e com o pouco uso da razão explora os caminhos do desejo carente. A evolução é só uma casual distração, ele torna-se mutante a cada deleite de prazer que esgota. Se corrompe. E corrompido espalha o mal pela cidade dos corpos. E de nada adianta domesticar este animal faminto. Soltá-lo na selva à procura do seu destino é mais conveniente. Assim é como o homem se alimenta de uma busca que ao mesmo tempo o vitima. Pois o homem não mede o esforço que destruirá sua vontade. Uma fome animal corre pelas veias do corpo, contaminando-o com desejos que sorrateiramente o enfraquecem. Sob efeito da droga do sexo o homem invade corpos alheios em combustões espontâneas. E ele morre a cada orgasmo que o deixa prostrado no chão, sem forças, debilitado pela doença dos desejos que fortificam sua alma desgastando seu corpo. (…)
Conto em 6 atos, com título ainda indefinido.
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27/03
Um trecho: Ato 4 – Corned beef X salad tablets
(…) Na esquina, ela pára e observa. As unhas estão pintadas com a cor da sombra que adorna os olhos. Os lábios se estiram e deslizam pela boca, atraídos aos cantos por um sorriso sarcástico que se esboça. Sai dessa mesma boca o aroma mais doce do corpo, com o cabelo jogado nas partes em que a roupa falta. Sua postura agride com o olhar o que ela está à procura. Há fome nos olhos em busca. E a uma esquina de distância, um homem de joelhos planta no quintal de sua casa um imenso jardim de espécies verdes. Ela se aproxima dele em silêncio, pisando as plantas que há tempos ele atenciosamente cuida. Ao percebê-la destruindo seu belo jardim, pisando todo o esforço dele ali plantado, como nunca um sentimento de muita raiva dele de repente se apossa. Dos tornozelos nus à mostra das pernas, ao dirigir os olhos para cima, o homem a enxerga por baixo de uma saia curta. É vermelha a cor que se aproxima de um intervalo de pernas, no contorno da luz que as delineando se apaga, atirando os olhos contra o escuro dos desejos que brotam de tão pouca distância. Esquecendo do seu jardim de plantas, o homem ferozmente se atira contra ela e com toda sua fúria a ataca. (…)
Conto em 6 atos, com título ainda indefinido.
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14/03
Não olhe para trás
O passado vem lhe dando de dedo na cara. E sua única reação a isso é expressar um ok, prometo ser mais cuidadoso, na próxima vez. Com ele continuando a lhe agredir quase sem motivo mais, atirando contra sua cara essas reminiscências todas e, como quem só quer lhe fazer mal, procurando inclusive as reincidências mais espúrias. Se assim você deixar, ele contamina o seu futuro, por isso há que se dar logo um basta! Não vacile, nem tema, pois quem for mais forte é que seguirá em frente. Cada um no seu lugar de destino, é como deve ser, não olhe para trás. Entre vocês, a vida não pede passagem, ela simplesmente vai.
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12/03
Finais indiferentes
Fim de relacionamento é uma espécie de morte. E há que se sacar quanto tempo ficar velando por ele, eu sei. Mas não é fácil suportar esse vazio dentro da gente, essa constrição no peito a cada vez que a maldita memória assedia o coração.
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29/01
Truque
Tem vezes que as saudades são apenas um truque que a memória aplica no coração.
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19/01
Velho Ken, ex da Barbie
Que menininhas safadas são essas e o que é isso que elas fazem? Ficam aí rebolando a juventude vestindo a mini-saia da pouca idade. Quero lhes dar um tapa bem dado nessa vaidade e pôr ali de castigo e de costas esse orgulho mesquinho. Onde já se viu, fazer de um velho como eu, brinquedo desse jogo infantil!
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29/12
Má notícia
Após receber a notícia, o homem se levantou pondo nos bolsos a calma cerrada. Um segundo, e no reflexo da porta o semblante dela. Não se deixou enganar, acaso estivesse ali, diria vem aqui, meu amor. Meu amor, ela diria. Ele o amor dela. Já na esquina, com a vista desbotando, concluía que o mundo pesa, mas quando a alma flutua dentro do corpo, a gravidade abranda e mal algum mais aflige. Há que se ter a cabeça no lugar, nessas horas, pois a vontade que dá de se jogar na frente daquele ônibus vindo…
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24/12
Natal
Pouco antes da meia-noite, recebi uma ligação. Estranhei o telefone tocar, mas atendi convicto de ser um engano. Do outro lado da linha, uma breve pausa aliada ao “Feliz…” Ouvi alguns fogos ecoarem fora de época e notei aquela movimentação típica. Eu preparava-me para dormir e não soube o que dizer. Já a outra pessoa, muito provavelmente, precisava apenas falar com alguém que fosse antes que se sentassem à mesa.
24/12/09
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14/09
Pétalas
Eu queria dizer ao mundo que aqui não estou. Ver se assim ele se afasta de mim e devolve este peso às costas de outro corpo à toa.
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07/09
Solidão
A fuga ofereceu-lhe a mão. Abandono foi sua forma de comprometimento. À vida, escapou-lhe um breve aceno antes de pegar no sono.
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