Mudança

Do outro lado dos cômodos estão dormindo os pais. Enquanto os passos sussurram a saída dela da casa, as dobradiças das portas parecem chamar pelo nome a mãe. Ao chegar no apartamento dele, despiu-se de sua família e, da bagagem, tirou seu corpo. O ar poluído que entrava pela janela a agraciava com o doce perfume da liberdade. O silêncio no apartamento, aos poucos começou a incomodar sua coragem e, pelos cantos dos cômodos, começou a enxergar vestígios de preocupação. Entre as peças de roupas atiradas ao chão, um preservativo extasiado ainda reluzia com o frescor do sexo. Através de um fio de imagem, que se espremia entre a porta do quarto aberta e a parede da sala, viu que ele a traía na cama. Uma surpresa seguida de um espanto. Os olhos incharam. Decidiu ir embora. Não tinha o mínimo de autonomia pra fazer um escândalo, muito menos convicção pra permanecer ali, num bilhete. No caminho de volta pra casa, sem derramar lágrima, mas com os olhos brancos, pensou em mudar de vida, ser diferente. Trouxe este pensamento pra dentro, antes de ouvir os sussurros e gritos de sua casa, agora avisando a todos que ela voltava.

11/04/05
18/09/14

Não olhe para trás

O passado vem lhe dando de dedo na cara. E sua única reação a isso é expressar um ok, prometo ser mais cuidadoso, na próxima vez. Com ele continuando a lhe agredir quase sem motivo mais, atirando contra sua cara essas reminiscências todas e, como quem só quer lhe fazer mal, procurando inclusive as reincidências mais espúrias. Se assim você deixar, ele contamina o seu futuro, por isso há que se dar logo um basta! Não vacile, nem tema, pois quem for mais forte é que seguirá em frente. Cada um no seu lugar de destino, é como deve ser, não olhe para trás. Entre vocês, a vida não pede passagem, ela simplesmente vai.

Má notícia

Após receber a notícia, o homem se levantou pondo nos bolsos a calma cerrada. Um segundo, e no reflexo da porta o semblante dela. Não se deixou enganar, acaso estivesse ali, diria vem aqui, meu amor. Meu amor, ela diria. Ele o amor dela. Já na esquina, com a vista desbotando, concluía que o mundo pesa, mas quando a alma flutua dentro do corpo, a gravidade abranda e mal algum mais aflige. Há que se ter a cabeça no lugar, nessas horas, pois a vontade que dá de se jogar na frente daquele ônibus vindo…

Natal

Pouco antes da meia-noite, recebi uma ligação. Estranhei o telefone tocar, mas atendi convicto de ser um engano. Do outro lado da linha, uma breve pausa aliada ao “Feliz…” Ouvi alguns fogos ecoarem fora de época e notei aquela movimentação típica. Eu preparava-me para dormir e não soube o que dizer. Já a outra pessoa, muito provavelmente, precisava apenas falar com alguém que fosse antes que se sentassem à mesa.

24/12/09

Pétalas

Eu queria dizer ao mundo que aqui não estou. Ver se assim ele se afasta de mim e devolve este peso às costas de outro corpo à toa.

Solidão

A fuga ofereceu-lhe a mão. Abandono foi sua forma de comprometimento. À vida, escapou-lhe um breve aceno antes de pegar no sono.

Consumação

Havia um ódio dentro de mim. O sol enrugava-me a pele, a claridade espremia-me os olhos. Já não há ninguém lá fora, nem alguém em casa. Ouço a batida das horas e a gritaria dos pássaros. O tempo pende do peito e a saúde pune o corpo. Arrasto-me no que resta. E ainda respiro.

Trecho de uma carta

(…) É impressionante mesmo como a mão que acaricia também machuca, o mesmo corpo que nos inspira também repulsa, e não fossem tão cegos os desejos, descobriríamos que a eternidade que eles sugerem é indelével no rastro que depois em nós deixam. A ruína é o caminho que eles traçam e a dor com que nos presenteiam é um percurso que esconde o caminho de volta, pois não há para onde voltar, apenas entregar-se a esse céu em queda. Sei que essas palavras não irão estancar meu sangramento, mas desejo que você me veja sangrar para que se reconheça como autora desses meus lamentos (…) Ps.: Escrito em 2004 e encontrado, dia desses, numa maleta em que guardo cartas não enviadas.

Cessão

Nos últimos dias eu acordava com uma dor em meus ombros. Percebi que eles estavam saindo do lugar, um pouco a cada manhã. Hoje, acordei e eles tinham caído de mim. Pude ver quando meu corpo se levantou, abriu a porta e foi embora do quarto.

Estranhos passantes

A vida abriu uma ferida em mim, por onde agora percorre esse corpo. Lembro do sol mal dobrando as esquinas, a idade dos sulcos na calçada e o adocicado de final de tarde. Ruas, praças e parques, públicos, sentando nós dois a alimentar os pássaros, que são pombos, e ainda são vários. Meus pais apareciam pra se despedir, fosse cedo e fosse tarde. Os familiares levando-me no sobrenome, com aceno à distância. Estranhos passantes, se por acaso nas ruas, praças e parques. Éramos, talvez, todos felizes na indiferença, e por que não? Mas passar ileso é ilusão pouca, não se engane tanto. A vida cobra de você – quem dizia algo parecido era minha avó. É como a idade, esgotando-se o tempo e tornando míseras possibilidades grandes esperanças. Mísero é tanto quando o possível acaba. Por isso nunca entendia essa relação com a vida, aquele eterno enquanto dure. Eu, você e qualquer um que leia sabemos que não damos importância, até que cobra da gente. Ah, era minha responsabilidade? É tarde, abra as cortinas, que o sol não amanhã. O destino lhe apontará ao final que a culpa é toda sua. E o peso da injustiça cairá sobre seus ombros. Agora, carregue durante o quanto lhe resta, como um castigo, a punição e também maldade. Pois há sim certo prazer da vida em lhe vitimar no percurso. Ainda não entendi bem o propósito, mas acredito que ela esteja nos pregando algum ensinamento. Vai saber. Pois se tudo isso é assim, sem sentido, explicação, nem nada, então me dá adeus, que já vamos tarde. Abraços partidos pela amizade, alguns amores desperdiçados e sorrisos em festas de aniversário. Passo. A vida é um fado, mas há quem tire proveito e até de memórias enriqueça. Eu desperdicei minha passagem, olhei pela janela e achei bonita a paisagem. Não desci. Crianças sorrindo em balanços, senhores alimentando os pássaros. Ruas, praças e parques públicos. Nós dois morrendo juntos, afinal – que mais importou? Última saudade, que o leito esfria e a ferida arde.

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