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	<title>nada pessoal &#187; poesia</title>
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		<title>Shakespeare</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 22:42:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[shakespeare]]></category>
		<category><![CDATA[Soneto]]></category>

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		<description><![CDATA[Como imperfeito ator que em meio à cena O seu papel na indecisão recita, Ou como o ser violento em fúria plena A que o excesso de forças debilita; Também eu, sem confiança em mim, me esqueço No amor de os ritos próprios recitar, E na força com que amo me enfraqueço Rendido ao peso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como imperfeito ator que em meio à cena<br />
O seu papel na indecisão recita,<br />
Ou como o ser violento em fúria plena<br />
A que o excesso de forças debilita;<br />
Também eu, sem confiança em mim, me esqueço<br />
No amor de os ritos próprios recitar,<br />
E na força com que amo me enfraqueço<br />
Rendido ao peso do poder de amar.<br />
Oh! Sejam pois os meus livros a eloqüência,<br />
Áugueres mudos do expressivo peito,<br />
Que amor implorem, peçam recompensa,<br />
Mais do que a voz que muito mais tem feito.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Saibas ler o que o mudo amor escreve,<br />
Que o fino amor ouvir com os olhos deve.</p>
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		<title>Prece</title>
		<link>http://www.nadapessoal.com.br/2010/10/02/prece/</link>
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		<pubDate>Sat, 02 Oct 2010 21:36:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[Helena Kolody]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, De ser o coração singelo que perdoa, A solícita mão que espalha, sem medidas, Estrelas pela noite escura de outras vidas E tira d&#8217;alma alheia o espinho que magoa. Helena Kolody.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,<br />
De ser o coração singelo que perdoa,<br />
A solícita mão que espalha, sem medidas,<br />
Estrelas pela noite escura de outras vidas<br />
E tira d&#8217;alma alheia o espinho que magoa.</p>
<p><strong>Helena Kolody</strong>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Da poesia</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Oct 2010 22:58:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[A Enaiê, dia desses, me perguntou se eu gostava de poesia. Uma pergunta simples, com a qual algumas vezes, ao longo de anos, me debati. Pensa que é fácil gostar de poesia? Reclamei pra Enaiê, durante uma de nossas aulas, daquelas pessoas (digo, colegas de classe que têm tanta inteligência que matam a própria sensibilidade, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A <a href="http://www.twitter.com/vaguelypulse" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Enaiê</span></a>, dia desses, me perguntou se eu gostava de poesia. Uma pergunta simples, com a qual algumas vezes, ao longo de anos, me debati. Pensa que é fácil gostar de poesia? Reclamei pra Enaiê, durante uma de nossas aulas, daquelas pessoas (digo, colegas de classe que têm tanta inteligência que matam a própria sensibilidade, os coitados) que intelectualizavam suas leituras de alguns poemas. Nenhum problema fazer isso, aliás esse é um mandamento necessário, se a intenção é interpretar a fundo a obra poética de alguém. Porém, quando você nota que sequer a leitura prévia foi feita, aí fica difícil, não é mesmo?As vias sensíveis ficam espremidas, por culpa das veias racionais comprimindo as coitadinhas. Mal têm espaço pra respirar. Quem sai ferida é a poesia (e a própria pessoa, claro. Via de regra, ganha em conhecimento o que perde em sensibilidade).</p>
<p>Eu não estou nem aí se hoje em dia as pessoas riem de quem lê poesia. De fato se tornou exótico, geralmente sinônimo de alguém aéreo, sei lá (caricaturize como quiser, pode até rir). Mas o ponto é que a poesia amplia as margens do mundo, não por acaso alargando a nossa percepção dele. É um caminho de dupla abertura, sua pro mundo, dele contigo, revelando sempre um pouco mais da beleza que há em ambos. Por isso ela é inesgotável e fonte de sabedoria. E, digo mais, vai além de períodos históricos avessos. Hoje, todo mundo pode estar consumindo a literatura mais rasteira, ouvindo a música mais gratuita, assistindo aos pastiches mais descarados, não importa, nada disso afeta a poesia, que em toda a história do ser humano foi um gênero à margem mesmo. Sem juízo de valor, simplesmente é assim.</p>
<p>Obviamente não lembro quando comecei a ler poesia e já adianto que sempre li menos do que gostaria. Eu me irrito com propostas poéticas de vanguarda, na verdade sou um anacrônico em termos de linguagem, se pensarmos só nesse gênero. Eu gosto mesmo é de ler, entre aspas, coisas bonitas escritas por pessoas sensíveis. Ponto final. Por isso que, aos vinte e bem poucos anos eu caminhava com um livro de Helena Kolody para cima e para baixo (Helena Kolody, sacou?). Na época, estudante de Filosofia e ainda insistindo em perscrutar a realidade buscando desvendar algum mistério da existência. Por essa pretensão toda mesmo, pedindo o auxílio da poesia, com seu p maiúsculo, e digno. Na mesma época, Alice Ruiz, Paulo Leminski, Vinícius, Cecília, sem critério algum, seguindo os livros que tinha, que ia encontrando, um prazer poético me levando a outro, sem mapas.</p>
<p>Hoje, tenho percebido a cada dia que preciso ler mais poesia. Ao menos, todos os dias, nem que seja um verso, uma rima, duas palavras conjugadas procurando a beleza daquela junção. E, se você me permitir, tamanha a aparência de loucura do que vou dizer agora, tudo isso não tem vindo através das aulas de poesia brasileira que estamos tendo. Tem vindo de Guimarães Rosa. Mas daí o porquê eu só explico se me perguntarem, pois esse post já está longo demais e essa curiosidade já não cabe.</p>
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		<title>Adeus, Setembro</title>
		<link>http://www.nadapessoal.com.br/2010/09/30/adeus-setembro/</link>
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		<pubDate>Thu, 30 Sep 2010 11:55:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[Canções]]></category>
		<category><![CDATA[Cecília Meireles]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Apenas um trecho (que li por acaso) de Canções basta: Quando meu rosto contemplo, o espelho se despedaça: por ver como passa o tempo e o meu desgosto não passa. Amargo campo da vida, quem te semeou com dureza, que os que não se matam de ira morrem de pura tristeza? Cecília Meireles.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Apenas um trecho (que li por acaso) de <strong>Canções</strong> basta:</p>
<p>Quando meu rosto contemplo,<br />
o espelho se despedaça:<br />
por ver como passa o tempo<br />
e o meu desgosto não passa.<br />
Amargo campo da vida,<br />
quem te semeou com dureza,<br />
que os que não se matam de ira<br />
morrem de pura tristeza?</p>
<p><strong>Cecília Meireles</strong>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Canção</title>
		<link>http://www.nadapessoal.com.br/2010/09/29/cancao/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 12:50:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[Canção]]></category>
		<category><![CDATA[Cecília Meireles]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pus o meu sonho num navio<br />
e o navio em cima do mar;<br />
- depois, abri o mar com as mãos,<br />
para o meu sonho naufragar</p>
<p>Minhas mãos ainda estão molhadas<br />
do azul das ondas entreabertas,<br />
e a cor que escorre de meus dedos<br />
colore as areias desertas.</p>
<p>O vento vem vindo de longe,<br />
a noite se curva de frio;<br />
debaixo da água vai morrendo<br />
meu sonho, dentro de um navio&#8230;</p>
<p>Chorarei quanto for preciso,<br />
para fazer com que o mar cresça,<br />
e o meu navio chegue ao fundo<br />
e o meu sonho desapareça.</p>
<p>Depois, tudo estará perfeito;<br />
praia lisa, águas ordenadas,<br />
meus olhos secos como pedras<br />
e as minhas duas mãos quebradas.</p>
<p><strong>Cecília Meireles.</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Nudez</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Sep 2010 03:01:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Drummond de Andrade]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não cantarei amores que não tenho,<br />
e, quando tive, nunca celebrei.<br />
Não cantarei o riso que não rira<br />
e que, se risse, ofertaria a pobres.<br />
Minha matéria é o nada.<br />
Jamais ousei cantar algo de vida:<br />
se o canto sai da boca ensimesmada,<br />
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,<br />
nem sabe a planta o vento que a visita.</p>
<p>Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,<br />
mas tão disperso, e vago, tão estranho,<br />
que, se regressa a mim que o apascentava,<br />
o ouro suposto é nele cobre e estanho,<br />
estanho e cobre,<br />
e o que não é maleável deixa de ser nobre,<br />
nem era amor aquilo que se amava.</p>
<p>Nem era dor aquilo que doía:<br />
ou dói, agora, quando já se foi?<br />
Que dor se sabe dor, e não se extingue?<br />
(Não cantarei o mar: que ele se vingue<br />
de meu silêncio, nesta concha.)<br />
Que sentimento vive, e já prospera<br />
cavando em nós a terra necessária<br />
para se sepultar à moda austera<br />
de quem vive sua morte?<br />
Não cantarei o morto: é o próprio canto.<br />
E já não sei do espanto,<br />
da úmida assombração que vem do norte<br />
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,<br />
ajusta em mim seu terno de lamentos.<br />
Não canto, pois não sei, e toda sílaba<br />
acaso reunida<br />
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.</p>
<p>Amador de serpentes, minha vida<br />
passarei, sobre a relva debruçado,<br />
a ver a linha curva que se estende,<br />
ou se contrai e atrai, além da pobre<br />
área de luz de nossa geometria.<br />
Estanho, estanho e cobre,<br />
tais meus pecados, quanto mais fugi<br />
do que enfim capturei, não mais visando<br />
aos alvos imortais.</p>
<p>Ó descobrimento retardado<br />
pela força de ver.<br />
Ó encontro de mim, no meu silêncio,<br />
configurado, repleto, numa casta<br />
expressão de temor que se despede.<br />
O golfo mais dourado me circunda<br />
com apenas cerrar-se uma janela.<br />
E já não brinco a luz. E dou notícia<br />
estrita do que dorme,<br />
sob placa de estanho, sonho informe,<br />
um lembrar de raízes, ainda menos<br />
um calar de serenos<br />
desidratados, sublimes ossuários<br />
sem ossos;<br />
a morte sem os mortos; a perfeita<br />
anulação do tempo em tempos vários,<br />
essa nudez, enfim, além dos corpos,<br />
a modelar campinas no vazio<br />
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.<strong></strong></p>
<p><strong>Carlos Drummond de Andrade</strong>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A lua</title>
		<link>http://www.nadapessoal.com.br/2010/04/15/a-lua/</link>
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		<pubDate>Fri, 16 Apr 2010 02:59:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[blog]]></category>
		<category><![CDATA[intradoxos]]></category>
		<category><![CDATA[márcio-andré]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[e a lua foi transposta até a borda e fixada com tábuas e pregos e lacrada com almíscar na parte sudeste do céu girava sob cálculos e sempre voltava ao seu lugar _ Márcio-André, em Intradoxos (da série Movimento perpétuo).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>e a lua foi transposta até a borda<br />
e fixada com tábuas e pregos<br />
e lacrada com almíscar na parte sudeste do céu</p>
<p>girava sob cálculos<br />
e sempre voltava ao seu lugar</p>
<p><span style="color: #ffffff;">_</span><br />
<a href="http://www.marcioandre.com" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Márcio-André</span></a>, em Intradoxos (da série Movimento perpétuo).</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>O poeta pede ao seu amor que lhe escreva</title>
		<link>http://www.nadapessoal.com.br/2009/08/01/o-poeta-pede-ao-seu-amor-que-lhe-escreva/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 Aug 2009 19:44:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[federico garcia lorca]]></category>
		<category><![CDATA[fra guittone]]></category>
		<category><![CDATA[jacopo notaro]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[shakespeare]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/08/01/o-poeta-pede-ao-seu-amor-que-lhe-escreva/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/08/lorca-b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><span style="font-size: x-small;">Aqui, falo um pouco de  soneto, a respeito principalmente de Federico Garcia Lorca<br />
e faço a leitura (didática e de superfície) de uma de suas poesias.<br />
O intuito é dialogar com qualquer leitor, seja ou não apreciador de poesia.<br />
(Texto bruto sem edição, ainda. Não hesite em recomendar-me alterações)</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Declamemos a angústia em apenas 14 versos, servindo-nos cada linha de degrau ao céu ou ao abismo de um sentimento. Tais versos, iremos dividi-los em dois quartetos e tercetos, como fez Petrarca (1304-74) sobre os modelos de <em>sonetto</em> de Jacopo Notaro e Fra Guittone, estes um século antes. E nestes versos limitemo-nos entre dez e doze sílabas poéticas. Não nos esqueçamos das rimas, enriquecidas entre o primeiro verso de cada quarteto com seu respectivo último, bem como os dois intermediários de cada um entre si, resultando na combinação: ABBA. Já em relação às rimas dos tercetos, podemos representá-las seguindo, respectivamente, à combinação: CDC e DCD.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Bom, cada poeta escolhe a seu gosto, seja conforme o português Sá de Miranda levou a Portugal ou então dividindo o soneto em três quartetos e um dístico, como o fez Shakespeare num tom de desfecho pungente. Os poetas compõem seus sonetos adicionando pequenos detalhes consonantes à tradição de seus países e sua literatura. Pois, claro, alguma variação é permitida, afinal o poeta desenha seu modelo também conforme melhor este exprima a figura poética intencionada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A forma do soneto é, portanto – e entre aspas –, fixa. Ele permite essas pequenas variações de estilo, desde que elas não se sobreponham às qualidades que definem sua essência.  Sendo que a magia que o alimenta nunca estará contida pelos muros da definição que o cerca. O importante, e é isso que temos de ter bem claro entre nós, é que a essência referida esteja presente, seja respeitada na estrofe, mantida em cada verso, esculpida através do sobressalto de suas rimas. Pois se não conseguirmos encerrar a expressão de uma idéia inexprimível, que sobrevive desse paradoxo e vai além das palavras que a contêm, em 14 fixos versos e sua tendência ao decassílabo, então não seremos dignos desse tipo de poema, sobrevivente audaz do assédio e dos protestos de tantas e diferentes escolas literárias com as quais travou batalhas estéticas. Não à toa ele permanece até hoje como um grande exemplar da resistência da poesia como forma de expressão mais cara ao ser humano.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Mas qual seria a magia de encerrar em forma tão regrada a dor ácida da espera, do tempo riscando com sua ponta de lança o coração interior do poeta? E, ainda, atravessando os séculos, os diferentes modos de pensamento e expressão da arte literária e suas escolas. Tudo isso, como vimos, sem sofrer alteração em sua forma essencial, tornando-se “o poema de forma fixa encontrado com mais frequência”, completaria a professora Norma Goldstein.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A pergunta anteriormente feita nós não nos atreveremos a responder, aqui. Através do poema que leremos, adiante, o soneto lhe responderá sem intérprete. E se buscamos interpretá-lo por algum viés, nos equivocaremos se acharmos que se trata da sua – e não da do próprio poeta que se utiliza de tal magia – essência.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Uns podem atribuir essa magia justamente ao paradoxo presente em seu princípio: aprisionar com garras de dragão o que não se pode limitar a prisão alguma. Outros poderiam dizer que um poeta não é capaz de esbravejar à pessoa amada, em laudas e mais laudas, que esta lhe escreva uma mísera carta e o livre da angústia da espera.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Para nós, o poeta transforma, utilizando-se do soneto e de suas garras de dragão, o sentimento que este ser agarrará e levará consigo à terra da magia, protegendo-o. Lá onde o irreal, o impalpável e o inexprimível habitam. Lá onde os sentimentos dos homens lhes dão existência e cada lampejo poético alimenta tal fábula. Pois a poesia liberta o autor, arranca-lhe a angústia e a reveste com o manto poético, o qual em nós repousa como a voz sussurrante do poeta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E se este usa do expediente da economia, não o faz por alguma espécie de precaução, e sim devido à precisão. Sabemos bem que é mais indelével um tiro certo à tinta nas linhas da história, que um fuzilamento à beira de uma guerra civil. O poeta é eterno e a magia que o soneto contém, que a poesia o permite levar além das horas da história tornando-se eterno, essa magia nenhum exército é capaz de assassinar, mesmo que em sua terra só de homens, sem dragões.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E Federico Garcia Lorca sabia disso, quando dobrou seus joelhos sobre a terra dos homens, deu as costas a esses seres mundanos e foi levado embora preso às garras de seu dragão. Mal sabiam seus algozes que o poeta nascera fadado a ser eterno. E esta batalha histórica ele já havia iniciado décadas antes, desde sua primeira publicação. A essência do ser humano que eles mataram sobrevive, até hoje, no poeta que não se elevou ao céu junto aos anjos, nem se sentou ao lado das belas musas, mas retornou à terra do duende que lhe subia da planta dos pés e com o qual travava batalha silenciosa enquanto vivo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Estamos na Espanha do começo do século XX, terra não de musas, como a Alemanha, nem de anjos, como a Itália, mas do “poder misterioso que todos sentem e que nenhum filósofo explica”, diria Lorca: terra de duendes. O ano é o de 1936, porque foi o ano da morte de nosso poeta – um mês depois que os rebeldes iniciam a derrubada da Segunda República Espanhola erigindo o regime ditatorial e fascista sob o comando do general Francisco Franco – e também porque é o período em que Lorca compôs o poema que iremos ler, mais a frente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A respeito da obra que reúne os sonetos de Lorca, nós sabemos pouco. Quem nos informa é o biógrafo do poeta, Ian Gibson, pois “no se ha encontrado documento alguno em que Lorca se refiera a sus sonetos amorosos bajo el título genérico de <em>Sonetos del amor obscuro</em>”. Portanto, cremos que a dificuldade em se encontrar material a respeito do contexto dessa publicação, inclusive a própria obra comentada no Brasil, não será empecilho à proposta do presente texto. Afinal, a principal intenção aqui é dialogarmos com Lorca, ouvir sua voz interior reprimida pela sociedade, dar de encontro com seu sentimento oculto pela época em que viveu e a angústia de um ser humano buscando algum amparo nas palavras de seu amor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Se partirmos do fato de que sabemos onde nosso poeta nasceu, como se educou e qual foi o desenvolvimento de seu trabalho até a data que aqui privilegiamos, claro que isso nos ajuda a compreender muitas coisas a seu respeito e a respeito de sua obra poética. O contexto é bastante importante na leitura de uma poesia, pois a amplia e a fortalece sob o amparo da história que a mantém viva. Mas digamos que não sabemos nada sobre o nosso poeta, que demos de encontro com um livro seu, em alguma prateleira da Biblioteca Pública e resolvemos ler um dos 11 sonetos que compõem essa obra de título genérico.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E não levemos em consideração o fato de que tal obra sequer foi lançada aqui no Brasil. Dela temos apenas alguns sonetos, eleitos pelo tradutor Wiliam Agel de Melo como os mais representativos, contidos todos na <em>Antologia Poética</em> de Lorca, lançada pela editora Martins Fontes, em 2001.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A polêmica em relação ao título dos sonetos, se “escuro” ou “obscuro”, posta por Félix de Souza em sua tradução, também nos é irrelevante. Como o poema se faz entender, em espanhol, então o apresentaremos no original, mesmo porque até a tradução fiel de Agel de Melo perde riqueza devido à falta de equivalência em alguns termos e também na rima da primeira estrofe:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong><span lang="ES-TRAD">El poeta pide que su amor le escriba</span></strong><span lang="ES-TRAD"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">Amor de mis entrañas, viva muerte,</span><span lang="ES-TRAD"><br />
en vano espero tu palabra escrita </span><span lang="ES-TRAD"><br />
y pienso, con la flor que se marchita,</span><span lang="ES-TRAD"><br />
que si vivo sin mí quiero perderte. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">El aire es inmortal, la piedra inerte </span><span lang="ES-TRAD"><br />
ni conoce la sombra ni la evita.<br />
</span><span lang="ES-TRAD">Corazón interior no necesita</span><span lang="ES-TRAD"><br />
la miel helada que la luna vierte. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,<br />
tigre y paloma, sobre tu cintura</span><span lang="ES-TRAD"><br />
en duelo de mordiscos y azucenas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">Llena, pues, de palabras mi locura<br />
o déjame vivir en mi serena noche<br />
del alma para siempre oscura.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Na primeira leitura, buscamos reconhecer a cadência do poema e nos familiarizar com a linguagem que o perpassa. O ritmo, nesse momento, depende de nossa habilidade de leitura, obedecendo sempre aos sinais deixados pelo caminho. Algumas palavras são novas e algumas associações entre elas também. Se não as compreendemos de todo, seguimos, pois há um fio condutor que nos permite continuar estabelecendo as relações necessárias para uma primeira compreensão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ao final dessa primeira leitura, rapidamente nos surge uma imagem. São as linhas mais reconhecíveis do poema formando em nós uma figura interpretativa de seu todo. Essa imagem, que podemos chamar de resumo ou daquilo que trata o poema, traz consigo o que mais nos chama a atenção, seguido do que é mais simples de compreender por fazer parte de uma linguagem comum.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Sendo assim, podemos agora sintetizar o tema do poema, o qual se resume em alguém escrevendo uma carta à pessoa que ama, solicitando desta que lhe responda, pois tem sido difícil aguardar uma resposta sem saber quando esta virá.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta é a nossa primeira impressão. E, felizmente, em poesia não é a primeira a que fica. Mas, antes de seguirmos aprofundando a leitura e reconhecendo outras camadas interpretativas, novas imagens com as quais o poema nos ilumina seu caminho, façamos um exercício de leitura. Apesar de parecer evidente, tentemos entender como essa primeira compreensão do poema surge.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Durante a leitura, percebemos que a personagem, que é um poeta, invoca a pessoa amada através de uma carta. O primeiro indício deveria ser seu título “El poeta pide que su amor le escriba”, mas como geralmente, e de modo apressado, damos mais atenção ao que vem depois do título, acabamos passando levianamente por ele e achamos que se trata de uma carta porque no segundo verso ele informa que “en vano espero su palavra escrita”. Portanto, aqui já temos um segundo indício de que se trata de uma correspondência, o que se comprova mais ao final, quando no 12º verso temos “Llena, pues, de palabras mi locura”. Sim, obviamente trata-se de uma carta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E, sim, claramente a personagem pede que seu amor lhe escreva. Eis o que o título já nos informava e repetir isso parece ser uma obviedade desnecessária. Então podemos concluir, de modo redundante, que a personagem do poema ama alguém que tem demorado em lhe escrever uma carta. Sabemos ainda que essa espera não só já não lhe faz bem, como também ele não a suporta mais.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Claramente se utilizando das metáforas para expressar e demonstrar sua angústia na espera, a personagem revela à pessoa amada o quão penoso é a dor que esta a impingi com a falta de uma correspondência. Depois, lembra que a amou com vigor e se entregou com ardor quando lhe foi permitido. E que agora se encontra angustiada à espera dessa carta que não chega trazendo algum alento para seu coração interior, nem que seja a certeza de que não será correspondida. Essa compreensão inicial está posta na superfície do poema. É como o autor, e agora nos referimos aqui a Lorca, o cobre a fim de ser facilmente reconhecido.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em um segundo momento, partimos para uma melhor compreensão. As palavras que, num primeiro instante, desconhecíamos, ou aquelas relações entre elas que nos pareciam estranhas, isso tudo agora é relido com mais atenção. Além disso, passamos a reconhecer a forma e a estrutura do poema.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Já sabíamos que se tratava de um soneto, pois na capa do livro onde ele está publicado esta informação era evidente: “<em>Sonetos del amor oscuro</em>”. Outra informação que nos chama atenção é o adjetivo empregado para qualificar este amor: “escuro”. O que isso quer dizer? Notamos também que este adjetivo é a última palavra de nosso poema e ali qualifica a alma da personagem. Antes de concluirmos algo a respeito, já avisando que o faremos na última frase anterior à conclusão desse texto, deixamos em suspenso essa percepção e procuramos olhar com maior atenção a estrutura toda.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Além de suas formas tradicionais, e descartando as informações técnicas tendo suposto que já as conhecemos ou que elas não são relevantes para o nosso objetivo aqui, temos que os dois primeiros quartetos são descritivos. Neles, a personagem da carta informa a quem ama o que está sentindo. As metáforas utilizadas servem-lhe de apoio à descrição, já revestindo de tons dramáticos seu estado emocional.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> No primeiro terceto, a personagem relembra o passado e o quanto seu amor foi dedicado quando estiveram juntos. E, no último, implora por uma correspondência ou clama pelo fim dessa espera que angustia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Nada mais o poeta quer dizer com suas palavras. Em resumo, tudo o que plaina na superfície do poema encerra-se nessa descrição. Já podemos dizer a outra pessoa do que trata esse poema lorquiano e apresentar-lhe um resumo sucinto, não é verdade?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Mas como as descrições são desprovidas da vida que existe nas coisas que pretende encerrar, temos então a possibilidade de investigar a linguagem poética utilizada e a profundidade de sentido e significado que esta linguagem suscita. E simplesmente queremos dizer com isso que buscamos, agora, enxergar o modo como o poeta da missiva a escreveu, quais informações ele privilegiou, que sentidos ele elegeu como os mais condizentes com o que ele sente. Também nesse caminho procuramos reconhecer a beleza contida no modo como Lorca se expressa, pois já não nos interessa tanto o que ele quis dizer, mas sim como o fez.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Procuraremos, portanto, ler o interior do poema sem nos remeter às referências que Lorca faz ao conceptismo, a San Juan de La Cruz, a Santa Teresa, à poesia cortesã, aos diálogos travados com a tradição literária. Isso tudo é importante, claro, informações extralinguísticas fazem parte da leitura de qualquer poema, mas aqui só queremos seguir o mapa construído pelo poeta, sofrer com a personagem da carta, também um poeta, dialogar com sua alma escura e entendê-la, para ouvir sua voz que clama a da pessoa amada. Não passaremos dessa camada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E, para tanto, não faz sentido entendermos as razões e os porquês sem compreendermos suas dimensões na alma daquele que nos inspira através de sua poesia. Aqui, chegamos num ponto em que já se deve ter bem separados o poeta autor do poema, Lorca, e a sua personagem, o poeta autor da carta e que sofre de amor por alguém. Ainda que tal diferença possa ser questionada, discutida, investigada, ela não será nosso foco aqui e nos referiremos a Lorca como o poeta e seu poeta como, simplesmente, a personagem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Nossa personagem ama visceralmente. Ela convive entre a beleza e a dor, contidas na esperança ansiosa ou na demora angustiante de uma carta. Mas esta não chega. Aquele que ama vai do céu ao inferno através da linha tênue do instante, morre a cada segundo de espera por um ruído que seja da pessoa amada, respira aliviado a cada lampejo de esperança em consegui-lo. Mas, neste caso, o amor é uma metáfora entristecida, descolorida de vida como a flor que murcha, como o poeta esperando em vão com o silêncio corroendo seu interior. Resta-lhe escrever.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Como para a flor só resta arrefecer o que há de vida em si, nossa personagem prefere morrer a ter de viver sem uma resposta de seu amor. Que beleza haveria numa flor murcha? Um símbolo da desolação e da ação do tempo levando dela a beleza de quando a temos viva. Eis nossa personagem numa confissão do mais caro sentimento humano, aquele através do qual abdicamos de nós mesmos por outra pessoa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> O ar é sim imortal como o tempo que se estende ininterrupto, soberano sobre qualquer anseio em contê-lo. A ação silenciosa e corrosiva do tempo não atinge a pedra, pois esta nada sente. Ela sofre a ação do tempo, mas não a diferencia, pois não está viva. E estar vivo é sentir. Como sente o coração interior de nossa personagem, que se imensa por seu amor, que não aguenta mais sofrer os danos da noite, revestida pela manta gelada da solidão. Há um gosto amargo nessa espera e o silêncio é cortante.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Mas que fim triste àquele que para o outro se entregou por inteiro. Pois amar é sair de si mesmo, se consumar enquanto ser que sente e se completa no outro. Nossa personagem se desespera. O descontrole é seu, resta-lhe apenas escrever essa carta na tentativa de cativar o ser amado. Seja através da recordação dos momentos de entrega e de amor, seja procurando tocar sua benevolência ao mostrar que ao menos algumas palavras de alento são necessárias para que não definhe nessa espera.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Um último clamor, em tom imperativo! Que receba o alimento de sua alma invadida por sentimentos que turvam a razão. Pois, se não, que seja a certeza da noite, então, a qual simplesmente dorme os homens e confidencia em silêncio seus dias.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Por fim, trazemos aqui um testemunho de um amigo de Lorca, em um trecho retirado de sua biografia escrita por Gibson e à qual já nos referimos, mais acima. <span lang="ES-TRAD">Antes do biógrafo </span>transcrevê-la em seu livro, ele a apresenta do seguinte<span lang="ES-TRAD"> modo: “&#8230; tal vez la más bella y más profunda evocación de cuantas se dedicasen al poeta asesinado. Evocación que&#8230; pone el énfasis sobre el Lorca mítico, nocturno” (GIBSON, p. 621): </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 56.65pt 10pt 49.65pt; text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">“Su corazón no era ciertamente alegre. Era capaz de toda la alegría del Universo; pero su sima profunda, como la de todo gran poeta, no era la de la alegría. Quienes lo vieron pasar por la vida como un ave llena de colorido, no le conocieron. Su corazón era como pocos apasionado, y una capacidad de amor y sufrimiento ennoblecía cada día más aquella noble frente. Amó mucho, cualidad que algunos superficiales le negaron. Y sufrió por amor, lo que probablemente nadie supo. Recordaré siempre la lectura que me hizo, tiempo antes de partir para Granada, de su última obra lírica, que no habíamos de ver terminada. Me leía sus <em>Sonetos del amor oscuro</em>, prodigio de pasión, de entusiasmo, de felicidad, de tormento, puro y ardiente monumento al amor, en que la primera materia es ya la carne, el corazón, el alma del poeta en trance de destrucción. </span>(&#8230;)” (GIBSON, p. 622)</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Isto foi dito pelo amigo íntimo de Lorca, Vicente Aleixandre, o qual não apenas conviveu com nosso poeta, como também foi quem o ouviu declamar os 11 sonetos. O título da obra, que foi publicada 45 anos depois, tem como referência o trecho, acima descrito, uma vez que Lorca escreveu os sonetos e não os reuniu sob um nome.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Para Aleixandre, não importa se Lorca escrevera tendo em mente algum amante. Para ele, o poeta refere-se ao amor “escuro” por este ser atormentado, difícil, não correspondido. A conotação homossexual, por “escuro” referir-se ao amor em sigilo, escondido dos olhos preconceituosos e punitivos da sociedade da época, essa interpretação restringe os sonetos ao amor entre dois homens. O que, para Aleixandre, e para nós, seria um equívoco. Pois, seguindo a interpretação que propomos, no interior do poema há um amor que atinge qualquer ser humano que, como nosso poeta, ama a ponto de só encontrar sentido se através da outra pessoa. Um amor que doa a própria existência, que passa a significar vida ao coincidir com a existência do ser amado. E quem nunca viveu essa espécie de amor, capaz de aniquilar a própria racionalidade?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Certamente, quem não o viveu é porque ainda o viverá. Pois, do contrário, Lorca diria que não há vida naquele que não sente, quando o coração interior não bate como a alma escura do poeta.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A candura de Polifemo e o drama de Coridão</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Jul 2009 22:05:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/07/07/a-candura-de-polifemo-e-o-drama-de-coridao"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/07/polifemo-e-galateia-b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right; padding-left: 210px;"><span style="font-size: x-small;"><em><span style="color: #333333;">N</span><span style="color: #333333;">este texto, eu somo as leituras do <a href="http://issuu.com/denispedroso/docs/idilio_xi_teocrito_trad_jose_cardoso?mode=a_p" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;"><strong>idílio XI</strong></span></a> &#8211; do poeta grego <strong>Teócrito</strong> (III a.C.) &#8211; e da <a href="http://issuu.com/denispedroso/docs/bucolica_ii_virgilio_trad._raimundo_carvalho?mode=a_p" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;"><strong>bucólica II</strong></span></a> &#8211; do romano <strong>Virgílio</strong> (I a.C.) &#8211;  tematizando suas personagens principais: Polifemo e Coridão.</span></em><span style="color: #333333;"><em> Ambos sofrem de um famoso sentimento humano, mas interessa-me aqui seus caráteres (ou caracteres, como preferir).  Os poemas, na íntegra e traduzidos, encontram-se  ali nos links.<br />
Ao final, exponho algumas referências mais.<br />
Agradeço ao Guilherme Gontijo pela leitura, correções e sugestões.</em></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center; line-height: normal;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: left; line-height: normal;"><span style="color: #000000;"><span style="font-size: medium;"><strong>A candura de Polifemo&#8230;</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Polifemo era um gigante feio, que vivia na terra dos ciclopes, em uma caverna próxima à Sicília, terra natal do poeta grego Teócrito (estamos no século III a. C.). Essa falta de beleza do ciclope não passava despercebida nem por ele mesmo, que a tinha bem claro. Mas antes dele nos confessar a má aparência, já o descrito sem qualquer beleza física havia feito o lendário Ulisses, no canto IX da Odisséia de Homero (isso, cinco séculos antes: VIII a.C.): “um homem descomunal, um brutamontes, portento de maus bofes, sem rei nem lei” (Odisséia, Canto IX, vs. 213-215. Tradução de Donaldo Schüler). E, não só isso, os termos com os quais a personagem daquela jornada se refere a Polifemo são ainda piores se os elencamos: “globolho” (v. 295), “canibal” (v. 336), “glutão” (v. 394). Aliás, esse é o nosso referencial mais evidente sobre o gigante, uma vez que o conhecemos muito mais através desse grande cânone literário e seu legado histórico, do que pelo idílio teocritiano, não é certo? Porém, podemos dizer que Polifemo, apesar da falta de inteligência evidenciada por Ulisses através do episódio da caverna – na Odisséia, este ludibriou astutamente o ciclope –, não se iludia quanto a sua aparência não, pois ele mesmo a confessa, nesse décimo primeiro idílio de Teócrito: “de uma orelha a outra, em todo o meu rosto se estende uma só e grande hirsuta sobrancelha&#8230; tenho um só olho e&#8230; sobre meus lábios tenho um grande nariz” (Teócrito, Idílio XI, vs. 30-33. Tradução de José Cardoso). Haja vista isso, bem antes de Ulisses aportar em sua terra – uma vez que, apesar de ter sido escrito cinco séculos depois, o idílio de Teócrito trata do Polifemo jovem – ele já sabia que de uma boa imagem não nutria. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Só que nós aqui não trataremos do Polifemo já mais velho, o da obra de Homero – que enfrentou Ulisses e seus homens quando estes retornavam de Tróia –, e sim de quando o ciclope estava justo “naquela idade em que, à volta dos lábios e das têmporas, lhe começava a despontar a barba” (v. 11,12), dedicado a uma vida pastoril cuidando de ovelhas. É durante essa fase de sua vida e em ambiente tão agradável, em meio à natureza aprazível da vida no campo, que nosso gigante foi acometido por um grande sentimento. Sendo assim, peço que deixemos de lado essa má imagem que temos dele e nos perguntemos se mesmo um brutamonte desse não seria capaz de (ainda que vá soar muito estranho essa possibilidade) se apaixonar à primeira vista&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> No décimo primeiro idílio de Teócrito, nosso Polifemo é protagonista de um pequeno poema pastoril, não mais aquela personagem secundária de uma grande odisséia. O que não o torna belo, mas ao menos lhe permite apresentar-nos suas qualidades (conhecê-lo um pouco melhor, digamos). Já sabemos que ele é um jovem pastor vivendo em uma terra regada por Zeus e em que, portanto, tudo germina. É nesse belo cenário que o ciclope foi acometido por uma arrebatadora paixão à primeira vista, quando se deparou, através de seu único olho, com uma ninfa de nome Galateia: “Depois que te vi, ó Galateia, não posso de modo algum, nem agora nem mais tarde fugir de seguir teus passos” (v. 27-28). Neste primeiro encontro entre ambos, a deusa Afrodite cravou-lhe no peito o dardo certeiro do amor. Nosso gigante está tão arrebatado por essa paixão, que inclusive cede completamente ao ócio e dedica-se apenas a expurgar de seu coração apequenado esse grandioso sentimento que o consome. As ovelhas são deixadas completamente ao léu, ele senta-se ali onde as ondas perdem o fôlego e olhando para o mar dedica-se a cantar a amada sua declaração de amor. Não é por acaso que ele se senta ali para entoar sua paixão em belas canções, pois sua amada é uma divindade marinha, filha de Nereu, o “velho do mar”. Mas será que ela o ouve? Não há indício nenhum, no poema, mas ainda assim ele a ela se dirige sem se questionar. Aqui, é bom que se diga que uma das características da poesia amorosa dessa época é o sujeito apaixonado cantar à porta da casa de sua pretendida. A despeito dessa dúvida, se ela o ouve ou não (que é mais nossa que dele), como então provocar nela um sentimento mútuo? Consciente de sua falta de beleza, como vimos, o que ele irá fazer é, claro, elevar o que há de bom a seu favor, para, quem sabe, cativar desse modo o coração de sua amada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Assim é como sabemos que Polifemo possui muitos bens, que além de várias ovelhas com rico leite, também queijo nunca lhe falta. Sua caverna é arborizada e nela bate um vento agradável. E ao invés da água salgada do mar, dentro dela há água fresca, quem preferiria aquela a esta? “&#8230; aproxima-te de mim, ó Galateia, e partilharás, igualmente de tudo” (v. 43, 44). Nosso<strong> </strong>grandalhão também sabe tocar flauta melhor que qualquer outro ciclope: “eu sei tocar flauta, cantando, a um tempo, para ti, ó minha doce maçã, e para mim mesmo, quantas vezes de noite a desoras!” (vs. 37-41). A música, para os camponeses daquela época, os ajudava a fluir seus sentimentos, além de também servir de estímulo ao trabalho.  E é dessa maneira que Polifemo procura convidar Galateia para viver com ele, em ambiente tão agradável, rico e melodiosamente tenro. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas, como se não bastassem suas declarações e oferendas, ele demonstra que não pouparia esforços para estar com sua amada, faria de tudo para ir ao encontro dela, até nas águas profundas do oceano, se necessário fosse: “Agora, sim, ó donzelinha, agora mesmo aprenderei a nadar, se acaso algum estrangeiro, em sua navegação, com seu barco, aqui arribar&#8230;” (v. 60-62). Ele tanto não pouparia esforços quanto inclusive se deixaria cegar por ela, numa demonstração de quão submisso seria ou quão refém estava daquele sentimento: “Eu suportaria que com tua própria mão me queimasses a alma e o meu próprio olho, que é o que tenho de mais útil” (v. 51-53). Neste trecho, arrisco interpretar alusões a Homero, postas por Teócrito de modo velado, afinal sabemos que um barco ali irá arribar, futuramente. E, também, que o que ele possui de mais útil lhe será ardilosamente tirado. Porém, sem ainda fazer a menor idéia sobre isso, nosso Polifemo revela que em nada teme se expor, fala inclusive muito abertamente de seus sonhos mais íntimos, quando, inebriado também pelo sono, sua amada vem lhe assediar a consciência. Mas esta última não se engana, e tão logo seu ciclope desperta, só encontra-se envolta à solidão da caverna e mergulhada nos desejos do coração de seu gigante. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Penso, através do que até então pudemos notar, que Polifemo não é tão bobo quanto suporíamos, caso nos prendêssemos apenas à figura desajustada descrita por Ulisses. Ao menos não enquanto jovem, uma vez que ele demonstra poder de persuasão, recorrendo a bons artifícios para tentar encantar sua amada e trazê-la para seu lado. Um tanto exagerado, talvez, e, como já apontamos, submisso demais, também. Talvez essa paixão juvenil arrebatadora o torne vulnerável, um gigante de coração mole, ao contrário do que Ulisses irá dizer sobre ele – quem diria, este então exclamaria! E, aqui, novamente uma informação de contexto do poema talvez nos seja útil, a qual diz respeito às paixões arrebatadoras da poesia dessa época, fatos estes bem comuns. Portanto, não se trata de um caso isolado, o de Polifemo, ainda que isso não diminua em nada a dimensão do sentimento de nossa personagem. Ainda sobre sua inteligência, podemos dizer que ele demonstra não a ter tão limitada não, uma vez que possui consciência da própria feiúra, ponto para o qual já chamamos a atenção antes. Também talvez não seja tão ingênuo, consequentemente bobo, já que ele é consciente inclusive de que por amor se pode fazer de tudo, menos o impossível, como ofertar à sua amada, numa mesma época, lírios e papoulas, quando sabemos por ele que “uns nascem no verão, outros, no inverno” (v. 57-59). De algum modo, ainda que arrebatado, ele pensa sobre as possibilidades e não ilude Galateia prometendo-lhe coisas irrealizáveis. Se fosse bobo, ele nem se questionaria sobre possibilidades e, com isso, ela poderia concluir que ele não passa de um jovem apaixonado sem muita consciência das coisas. E claro que esta conclusão não contaria a seu favor. Prevendo isso, ele faz a ressalva para assegurar-lhe mais uma boa impressão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Desse modo, eu faço questão de ressaltar o lado doce de nosso gigante, através dessa sua sinceridade com Galateia, além de seu desmedido esforço por ela, como ficará ainda mais claro, a seguir. Ao mesmo tempo, ressalto seu lado consciente da situação em que se encontra, tanto por saber que não é belo, como também por não prometer o impossível. Ainda que, disso tudo, não possamos concluir que ele não deixa de ser ingênuo, uma vez que algumas de suas palavras não são das mais bem eleitas, revelando até falta de trato quando as escolhe: “Tu que és mais branca de ver que o leite coalhado&#8230; mais reluzente do que a amarga uva verde” (vs. 20-22). Aqui, preciso trazer mais um dado de contexto, para completar essa leitura: o pastor, na poesia daquela época, é sempre tido como uma figura tipicamente ingênua. Porém, a despeito de sua ingenuidade, da falta de trato, ainda assim creio ter exposto as qualidades admiráveis do gigante, as quais sequer imaginávamos ele podendo nutrir, certo? E as ressalto, aqui, pois estas tais não são as mesmas de outra personagem, de alguns séculos mais tarde, da qual falaremos agora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"></p>
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