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	<title>nada pessoal &#187; jeanne-marie gagnebin</title>
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		<title>Que o pensamento saiba esquecer</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Mar 2010 22:13:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Sobretudo, saiba esquecer de sua complacência erudita para consigo mesmo, saiba desistir de seus rituais de auto-reprodução institucional e ouse se aventurar em territórios incógnitos, sem definição nem inscrição prévia&#8221;, diz a autora, na nota introdutória de seu &#8220;Lembrar Escrever Esquecer&#8221; (Editora 34, R$ 34,00). Jeanne Marie-Gagnebin, você já conhece por aqui, quando publiquei seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/lembraresquecerescrever.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1926" title="Lembrar Esquecer Escrever" src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/lembraresquecerescrever.jpg" alt="" width="500" height="360" /></a><br />
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&#8220;Sobretudo, saiba esquecer de sua complacência erudita para consigo mesmo, saiba desistir de seus rituais de auto-reprodução institucional e ouse se aventurar em territórios incógnitos, sem definição nem inscrição prévia&#8221;, diz a autora, na nota introdutória de seu &#8220;<a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/1466028/lembrar-escrever-esquecer/?ID=BD1A202D7DA031613081A0219&amp;PAC_ID=18659" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Lembrar Escrever Esquecer</span></a>&#8221; (Editora 34, R$ 34,00).</p>
<p><strong>Jeanne Marie-Gagnebin</strong>, você já conhece por aqui, quando publiquei seu artigo &#8220;<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/02/uma-vida-sem-consolacao-por-jeanne-marie-gagnebin/" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Uma vida sem consolação</span></a>&#8220;, na seção de leituras, certo? Por acaso, lendo o feed do <a href="http://letrasuspdownload.wordpress.com" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Letras USP download</span></a>, vi que eles disponibilizaram esse livro dela. Vem em ótima hora. Caso se interesse também, pegue-o <a href="http://letrasuspdownload.wordpress.com/2010/03/20/livro-lembrar-escrever-esquecer/" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">aqui</span></a>.</p>
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		<title>O paradoxo do qual partimos</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 15:22:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/08/o-paradoxo-do-qual-partimos/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/salvador-dali.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aproveitando a leitura do ótimo artigo “<strong>Uma vida sem consolação</strong>” (de Jeanne-Marie Gagnebin, na Cult de Fevereiro, disponível <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/02/uma-vida-sem-consolacao-por-jeanne-marie-gagnebin/" target="_blank">aqui</a></span>) e traçando um paralelo com o esclarecedor capítulo de “<strong>Os Problemas da Filosofia</strong>” (de Bertrand Russell, em 1912, disponível <a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/05/31/o-valor-da-filosofia-bertrand-russell/" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">aqui</span></a>), permita-me esse breve registro de um questionamento filosófico falido.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong>O que nos consola?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Todos, se pararmos para pensar cinco minutos que sejam sobre a vida, logo empacaremos diante do grande questionamento de todos os tempos, aquele sobre o seu sentido. Portanto, não é nenhuma novidade essa questão, como também até agora não há nenhuma resposta conclusiva a ela. Sabemos bem que a Filosofia não oferece respostas, não sabemos<sup> [<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/08/o-paradoxo-do-qual-partimos/#footnote_0_1720" id="identifier_0_1720" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="&ldquo;O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua pr&oacute;pria incerteza&rdquo;, Russell">1</a>]</sup>? Bom, se pensarmos que importante é o percurso rumo a essa reposta inalcançável e a habilidade em não se deixar levar só pela razão ou ludibriar pela fé, ambas em diferentes extremos<sup> [<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/08/o-paradoxo-do-qual-partimos/#footnote_1_1720" id="identifier_1_1720" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="leia a reflex&atilde;o sobre as duas caracter&iacute;sticas da Aufkl&auml;rung, no artigo de Gagnebin">2</a>]</sup>, então o que nos consola não havendo um ponto de chegada?</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong> O ignóbil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dia desses, eu estava de carro no belo trânsito das 18hrs e aproveitei o engarrafamento para imaginar as pretensões de felicidade que cada veículo conduzia. Apesar de todas as diferenças, somos tão elementares, certo? Algumas horas antes, eu havia assistido a um programa no Discovery sobre a ação de certos parasitas no organismo humano, que ficam latentes por décadas ou agindo sorrateiramente até agravarem irreversivelmente a saúde. Não preciso dizer o tipo de mal que eles causam e o quão engenhosos eles são.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto é que a Natureza possui sua dinâmica sendo um complexo vivo que tende ao equilíbrio, com o Homem em busca da felicidade e os animais procurando apenas manter a própria espécie (ainda que o Homem ameace tal equilíbrio constantemente, mesmo sendo peça dessa engrenagem). Porém, supondo que seja essa busca da Natureza pelo equilíbrio o que faz com que diferentes filósofos procurem o sentido da vida, nem mesmo essa premissa oferece uma via possível ou passível de Verdade (com esse &#8220;v&#8221; maiúsculo temível). Pois sabemos que a Natureza, para se equilibrar, é capaz de maldades ignóbeis, afinal, por que os parasitas microscópicos agem daquela maneira engenhosamente danosa? Por que os seres humanos se destroem do modo como vemos todos os dias, ameaçando sem piedade a felicidade da própria espécie? E, como, em meio a todo esse mal existente no mundo, há também e na mesma proporção tanta beleza?</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong> A beleza e a dor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eis só até onde eu gostaria de chegar: a dúvida. Ao final, sempre ela, essa deusa fugidia, miríade de questionamentos implícitos em uma única pergunta: qual o sentido de tudo isso? E se você parte em busca da resposta, evitando os caminhos extremos da racionalidade e da fé, não há como chegar a algum lugar no qual já não estejam lhe recepcionando, lado a lado, a beleza e a dor da vida, como duas inimigas de mãos dadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa contradição lhe surpreender, será porque está sendo racional demais. E se isso não lhe surpreender, será porque acredita em coisas demais. No fundo, no fundo, há que se conviver assim, com a constante contradição, seja qual caminho se adote. A beleza e a dor são inconciliáveis, porém convivem como condição básica da vida na Terra. A única certeza a que se chega, quase como um ponto passivo entre os filósofos, é a respeito de nossa finitude, de nossa incapacidade, seja em abarcar tudo, seja em suportar tanto. E esse não é o sentido da vida, longe disso, esse é apenas o começo do percurso.</p>
<p><a></a></p>
<br></br> notas:<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1720" class="footnote">“O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza”, Russell</li><li id="footnote_1_1720" class="footnote">leia a reflexão sobre as duas características da <em>Aufklärung</em>, no artigo de Gagnebin</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Uma vida sem consolação, por Jeanne-Marie Gagnebin</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 23:18:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
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		<category><![CDATA[jeanne-marie gagnebin]]></category>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/02/uma-vida-sem-consolacao-por-jeanne-marie-gagnebin"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Jeanne-Marie-Gagnebin.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A filosofia não pode nos consolar. Poderia, talvez, nos ajudar a viver uma &#8220;vida sem consolação&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">Publicado <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://revistacult.uol.com.br/novo/dossie.asp?edtCode=62159830-7C0E-4F83-880B-17D4CC4AE09A&amp;nwsCode=A2DF37BA-82F7-4C4D-A366-C562188C20DC" target="_blank">na <strong>Revista Cult</strong></a></span>, no Dossiê da Edição 143 (Fev/2010</span><span style="font-size: x-small;">)</span><em>.<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">Como falar da relação entre filosofia contemporânea e consolação? Com hesitação, mas com firmeza, tentando evitar uma dupla complacência: em primeiro lugar, a tentação de transformar a filosofia numa nova terapia, mais lúcida que as religiões vigentes, menos cara e menos longa que a psicanálise. Essa tentação é forte, bem estabelecida, até reivindicada por alguns como sendo a função derradeira da filosofia e instituída em várias práticas terapêuticas. Sem negar a relação que une, de Platão até Wittgenstein, filosofia e cura, duvidaria que a filosofia contemporânea deva ter essa função consoladora e terapêutica que consiste na possibilidade de construção de um <em>sentido</em> para a vida (e a morte) num mundo desencantado.</p>
<p style="text-align: justify;">Intervém, nessa recusa, a tentação de uma segunda forma de complacência: o perigo de arrogância que corre o filósofo crítico quando se reclama de uma lucidez radical. Dessa lucidez vive a filosofia de Adorno. <em>Minima Moralia</em>, esse belo livro de fragmentos sobre a vida &#8220;danificada&#8221; ou &#8220;lesada&#8221;, inicia o fragmento 5 com a afirmação de que &#8220;não há mais nem beleza nem consolo ( <em>Trost</em>) exceto no olhar que vai até o horror ( <em>Grauen</em>), o enfrenta e nele se mantém&#8221; &#8211; uma clara citação da exigência de Hegel que o espírito verdadeiro enfrente a morte, o negativo, e nele se demore. O mesmo fragmento conclui com a condenação, por parte do intelectual honesto, de toda &#8220;colaboração&#8221; ( <em>Mitmachen</em>) com as aparências de reconciliação do real. No fragmento seguinte, Adorno retoma essa exigência de não colaboração, mas adverte numa &#8220;antítese&#8221;: &#8220;Quem não é conivente ( <em>der nicht mitmacht</em>) corre o risco de tomar-se por melhor que os outros e de se aproveitar de sua crítica da sociedade como uma ideologia para seu interesse privado&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Teríamos, então, a seguinte alternativa: ou a filosofia se define como última tentativa de encontrar sentido e consolo, reservando ao filósofo a honra de uma verdadeira missão terapêutica (observação: não afirmo que não haja nem sentido nem consolação, somente digo que não cabe à filosofia a função de tentar encontrá-los), ou, então, como uma lucidez exacerbada que nega qualquer possibilidade de aceitação do existente e confere àquele que a profere a dignidade de uma resistência solitária e estéril.<strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Laços frágeis<br />
</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo conseguir escapar a essas duas armadilhas que confortam o &#8220;ego&#8221; do filósofo, um ego já bastante fragilizado, diga-se de passagem. Tento contorná-las por uma pergunta mais modesta: por que os laços antigos entre atividade filosófica e consolação se tornaram tão frágeis, talvez até tenham se rompido, na filosofia contemporânea? Quais são as razões históricas desse rasgo?</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pistas para uma resposta. A primeira pista orienta a filosofia de Adorno e, de maneira mais ampla, de boa parte da reflexão (filosófica, política, estética) <em>depois </em>de Auschwitz. Se o exercício da filosofia, a <em>askesis</em>, podia me consolar da minha própria morte, me ajudar a enfrentar a finitude, talvez mesmo me ajudar a fazer o trabalho de luto pela morte de um ser próximo, essa bela meditação se revela impotente diante da organização &#8220;racional&#8221; do massacre, diante da &#8220;morte em massa&#8221; (Jorge Semprún). Não se trata mais aqui de concluir uma paz (mesmo provisória) com a morte singular, mas de se defrontar com algo muito pior: com o mal absoluto, com uma negatividade à qual não se pode opor nenhuma positividade. Surge o escândalo da impossibilidade de qualquer síntese. Essa interdição regula os testemunhos impossíveis de um Primo Levi ou de um Robert Antelme: deve-se, sim, contar o horror ( <em>Grauen</em>), mas ele ultrapassa a faculdade de representação humana; deve-se, portanto, narrar sem apelar a nenhum consolo, sem tentar encontrar uma derradeira significação porque qualquer construção de sentido (e de justificativa) equivaleria a uma profanação dos mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra pista possível: essa atitude crítica, mas humilde, é também fruto de uma transformação histórica do discurso e do saber filosóficos. A atividade filosófica não é mais reservada a alguns poucos, aristocratas ociosos e sábios, que encarnam o paradigma de uma humanidade plena &#8211; como ainda era no caso da Grécia Antiga, por exemplo. Ela deveria se dirigir, senão à grande massa, pelo menos a todos os homens de razão, numa universalidade ideal. Essa &#8220;democratização&#8221;, efeito da irradiação do cristianismo e, igualmente, dos movimentos políticos emancipatórios e revolucionários, caracteriza a assim chamada modernidade. Como o faz também o &#8220;desencantamento do mundo&#8221; (Weber), a separação entre as esferas da religião e da ciência.</p>
<p style="text-align: justify;">De um lado, o discurso filosófico se separa do da fé e da religião, do outro ele se endereça, pelo menos potencialmente, a todos os homens &#8211; mas sem poder lhes dar um &#8220;sentido&#8221; para sua vida. Essas duas características da <em>Aufklärung</em> esclarecem por que o filósofo contemporâneo não pode mais gozar de certa indiferença autárquica, contentando-se com a própria sorte e cuidando da própria virtude, sem se preocupar com a vida e a infelicidade de muitos <em>outros</em> (por exemplo, os milhões de vítimas da Shoah). Esclarecem também, quase ironicamente, por que tampouco pode ele se dar por satisfeito com uma consolação que apelaria a uma entidade transcendente: se fizesse isso, o filósofo abandonaria um discurso fundado na ordem da razão &#8211; mesmo que essa razão seja denunciada nas suas deformações e insuficiências como em Adorno e Horkheimer &#8211; e passaria a afirmações de ordem da fé, recaindo na confusão entre discurso filosófico e discurso religioso.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong>Mestres da suspeita</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ora, depois dos três &#8220;mestres da suspeita&#8221; (uma expressão comum tanto a Michel Foucault quanto a Paul Ricoeur), isto é, depois de Nietzsche, Marx e Freud, impõe-se uma atitude filosófica, epistemológica, mas também ética, de resistência à assimilação entre aspirações (legítimas, de certo) a uma vida justa e suas traduções apressadas em doutrinas políticas ou religiosas. Cabe, então, à filosofia certa austeridade da reflexão em oposição ao entusiasmo da crença. Como o disse várias vezes Ricoeur, reputado por leitores superficiais e hostis como sendo um &#8220;filósofo cristão&#8221;, a filosofia só pode ser uma &#8220;filosofia sem absoluto&#8221;, isto é, um discurso ciente dos limites tanto da razão quanto da fé, que não pode pretender encontrar um sentido último nem para a vida humana, nem para a morte, nem para o sofrimento, nem para o mal.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma filosofia que recusa a teodiceia e, igualmente, a totalização da razão hegeliana (deve-se saber &#8220;renunciar a Hegel&#8221;, escreve Ricoeur). Leitor atento de Freud, Ricoeur fez seu diagnóstico psicanalítico da religião: a religião é uma &#8220;compensação da dureza da vida&#8221;, ela não preenche somente um papel repressor de interdição e de elaboração da lei, mas, mais profundamente, responde a um desejo, um &#8220;desejo de proteção e de consolação&#8221;, sendo que &#8220;o nome desse desejo é a nostalgia do pai&#8221; (Paul Ricoeur, <em>Le Conflit des Interprétations</em>, p. 448). Esse desejo, inerente à fragilidade humana, permanece e deve ser, aliás, levado a sério &#8211; mas não cabe à filosofia oferecer respostas e soluções para essa &#8220;nostalgia do pai&#8221;. Ao contrário, seguindo a máxima kantiana, ela deveria nos ajudar a sair de nossa &#8220;menoridade autoculpada&#8221; e nos tornar adultos e autônomos (mesmo que não onipotentes!).</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma: a filosofia não pode nos consolar. Poderia, talvez, nos ajudar a viver uma &#8220;vida sem consolação&#8221;, para retomar a expressão de Camus no <em>Mito de Sísifo</em>. Esse belo ensaio defende um &#8220;pensamento do absurdo&#8221; (porque não se encontra um &#8220;sentido&#8221; último), mas não uma filosofia niilista ou desesperada. Na esteira de Nietzsche e da antiga poesia grega, Camus pelo contrário insiste no esplendor da vida, justamente porque ela é efêmera e mortal, devendo ser vivida plenamente em cada presente. O filósofo cita em epígrafe os versos de Píndaro:</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 300px;"><em>&#8220;Oh, cara alma, não aspire à vida imortal,<br />
Mas saiba esgotar o campo do possível!&#8221;</em></p>
<p style="text-align: justify;">Tratar-se-ia de um retorno ao antigo estoicismo grego? Duvido, porque não pode mais existir na modernidade o mesmo sentimento de ordenação do kosmos e de pertencimento do homem à <em>physis</em> universal como no pensamento antigo. Trata-se, isso sim, de uma exortação a permanecer no campo da imanência, na dor e na beleza do mundo. A filosofia não tem mais por tarefa nos ensinar a morrer, mas deve muito mais nos ensinar a viver plenamente, a &#8220;estar vivo até à morte&#8221;, como o diz Ricoeur em suas reflexões póstumas sobre a morte (isto é, sobre o medo da morte e a ignorância insuperável a esse respeito). Essa exigência de vida plena, de &#8220;vida reta&#8221;, como a chama Adorno, retomando a expressão grega, é uma exigência de transformação da imanência sem poder apelar nem a um fundamento metafísico universal nem à garantia de uma presença transcendente. Permanecendo na finitude, a filosofia nos ajuda a reconhecer o sofrimento e a transformar a vida.</p>
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