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	<title>nada pessoal &#187; Dalton Trevisan</title>
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		<title>Dalton Trevisan em entrevista, 1968</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Feb 2009 17:04:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Dalton Trevisan]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/02/08/dalton-trevisan-em-entrevista-1968/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/02/entrevista_dalton.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_307" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/02/entrevista_dalton_alta.jpg"><img class="size-medium wp-image-307" title="Entrevista de Dantol Trevisan, em 1968" src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/02/entrevista_dalton_alta-300x290.jpg" alt="Entrevista de Dantol Trevisan, em 1968" width="300" height="290" /></a><p class="wp-caption-text">(clique na imagem pra ampliar)</p></div>
<p>Dia desses, recebi pelo twitter do <strong>Túlio Bragança</strong>, um link que apontava para o pdf dessa entrevista do Dalton. Espalhei pelo meu twitter e agora venho colar aqui também.</p>
<p>Uma entrevista breve, mas bastante interessante, pois fora a tal dica lacônica &#8220;tenha talento&#8221;, o escritor ainda taxa (lembre, é em 1968) o conto como gênero do futuro da literatura. O romance, para ele, estava decadente.</p>
<p>Como nós sabemos que as mudanças demoram a se processar, e que o diagnóstico do contista pode ser ainda mais preciso conforme as décadas  se somem, aproveito pra deixar registrado aqui esse ponto, sobre o qual falarei mais ao longo do ano.</p>
<p>Em certa medida, acompanho essa perspectiva do conto como gênero que tende a sempre ganhar mais relevância, para o bem e também para o mal da literatura. Já, sobre o romance, não atrevo-me a falar nada, ainda.</p>
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		<title>Mulher em chamas, Dalton Trevisan</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Feb 2009 00:24:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Dalton Trevisan]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/02/07/mulher-em-chamas-dalton-trevisan/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/02/daltontrevisan.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia tão bonito, o sol radioso, melhor gozá-lo na praia. A sogra sugeriu que a filha dirigisse, muito distraído ele, avançava sinal, invadia a contramão.</p>
<p>- Não admito &#8211; protestou João. &#8211; Na minha casa quem manda sou eu.</p>
<p>As crianças rebolaram na areia, os dois boiavam na tranqüila água verde &#8211; essa pança é uma vergonha, João! &#8211; e, casados havia sete anos, mergulhavam de olho aberto para se beijarem debaixo d&#8217;água. Uma delícia o empadão de palmito e galinha com farofa, aos grandes goles de cerveja bem gelada. À sombra do carro amarelo cochilavam &#8211; um marulhinho em surdina na barriga, a comichão da água salgada na pele branca -, ofuscados pelo imenso bicho ofegante, a língua de espuma fervendo na areia.</p>
<p>- Olhe um avião &#8211; o grito de susto da moça, o braço estendido. &#8211; Um avião caiu no mar!</p>
<p>O grande avião dourado precipitava-se em chamas na piscina azul.</p>
<p>- Desculpe, meu bem.</p>
<p>Sonho ou miragem? Nada de avião, uma simples gaivota. Do mormaço ou dos copos de cerveja, João queixou-se da cabeça, com pressa de voltar. O sol faiscava no espelho sem ondas, ardia no brasido da areia, reverberava na nuvem branca sobre o asfalto.</p>
<p>Uma gota de suor escorria na longa perna nua:</p>
<p>- Se a gente esperasse a fresca&#8230;- ela ronronou, cheia de preguiça.</p>
<p>- A estrada será um inferno de mil carros.</p>
<p>Os bancos de couro abrasados, desceram todas as vidraças e, com último olhar para a água fresquinha, partiram. Sonolenta, ela cochilava com o guri no colo, as duas meninas enrodilhadas no banco traseiro. Na serra João a acordaria para vigiar as curvas. Logo ela dormia com o piá febril nos braços &#8211; sol demais na cabeça. Três da tarde, o carro avançava no incêndio negro do asfalto.</p>
<p>A longa reta deserta, João baixava as pálpebras, asas de fogo tatalando no céu e, quando percebeu, o calhambeque saía da estrada. Pisou com tanta violência no freio que as portas se abriram e as meninas forma cuspidas. Só não esmagou o peito porque, agarrado ferozmente à direção, e sendo o carro antigo, a barra enterrou-se entre os pedais. E a moça, sem largar o filho, caiu de costas numa pedra.</p>
<p>As crianças gritando e correndo ensanguentadas, Maria quis erguer-se para acudi-las. Apalpou as pernas &#8211; inteiras, perfeitas -, não sentia as pernas. Sentada ali no chão, não se sentia sentada. Rodearam-na vozes confusas, nos braços de alguém conduzida ao hospital.</p>
<p>- Trauma &#8211; explicou o médico de óculos e máscara.</p>
<p>Em choque, ouvia os comentários:</p>
<p>- A coluna esmagada&#8230;Operação, não resiste, Inválida. O resto dos dias&#8230;</p>
<p>A porta sacudida de uivos medonhos &#8211; era o marido.</p>
<p>- Estou morrendo&#8230; &#8211; ela queria se agarrar sem poder. &#8211; Em chamas&#8230; vou explodir&#8230;</p>
<p>O avião dourado caindo em chamas era ela que aspirou o éter e perdeu a consciência.</p>
<p>Não morreu, suportou a operação e mais outra, a terceira e mais uma quarta, além de hemorragia interna, de broncopneumonia, da flebite.</p>
<p>Primeiros dias rodeada pela família, parentes vinham de longe visitá-la e, como afinal não morria e passavam-se os meses, aos poucos esquecida no seu cantinho, ao lado da janela: uma entrevada a mais.</p>
<p>De repente o prurido no pé &#8211; e por que no esquerdo? Insensível da cintura para baixo &#8211; pobre cambito da bruxa de pano foi a coxa poderosa da campeã de tênis -, por que a insofrida coceira? Lá no jardim os gritos dos filhos brincando ao sol. O marido, esse, por onde andará? Quanto tempo a culpa o defenderia de se consolar com outra?</p>
<p>Dobrou-se para coçar o maldito pé e o novelo de lã rolou no tapete &#8211; já não poderia apanhá-lo. Chamar a criada era antecipar uma injeção de dois comprimidos. Melhor escondesse as lágrimas, cadela de perna estropiada &#8211; escorregando da cadeira, arrastar-se no tapete, rastejar pela rampa e, no meio da rua, debaixo das rodas do primeiro caminhão?</p>
<p>Inclinou-se no braço da odiosa cadeira: com a ferida do cotovelo sentia-se <em>sentada</em> (ao ser estendida na cama, pesando sobre o ombro dolorido, sabia-se <em>deitada</em>). Embora sofresse as mesmas dores, à noite entorpecida pelas drogas, ninguém a visitava. Dando tempo à progressão da paralisia, tudo faziam para esquecê-la.</p>
<p>- Ela está bem &#8211; recomendou o doutor à família. &#8211; O certo é não mimá-la.</p>
<p>Manobrou a cadeira diante do grande espelho oval: o rosto ainda lindo, o busto soberbo, mulher já não era, objeto de piedade, nojo ou ridículo.</p>
<p>A moça trêmula no espelho devolveu-lhe o sorriso. Nem sonho nem miragem: a praia no domingo de verão, ali na pele o arrepio da água salgada. De volta na tarde tranqüila, a estrada deserta, o céu brilhante de calor. Feliz é um avião dourado pairando sobre as aflições do mundo. Bem acordada &#8211; cotovelo esfolado, ombro em chaga viva -, jura a si mesma que não adormecerá. Aperta o filho nos braços enquanto o carro avança mais depressa pela estrada faiscante de sol.</p>
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