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	<title>nada pessoal &#187; leituras</title>
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		<title>Amor, Clarice Lispector</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 19:24:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Clarice Lispector]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/06/08/amor-clarice-lispector/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/06/clarice.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.</p>
<p style="text-align: justify;">Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.</p>
<p style="text-align: justify;">No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.</p>
<p style="text-align: justify;">O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.</p>
<p style="text-align: justify;">O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles&#8230; Um homem cego mascava chicles.</p>
<p style="text-align: justify;">Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.</p>
<p style="text-align: justify;">Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.</p>
<p style="text-align: justify;">Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.</p>
<p style="text-align: justify;">A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível&#8230; O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.</p>
<p style="text-align: justify;">O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo&#8230; E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite &#8211; tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.</p>
<p style="text-align: justify;">Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.</p>
<p style="text-align: justify;">Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.</p>
<p style="text-align: justify;">De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.</p>
<p style="text-align: justify;">As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada&#8230; Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado&#8230; O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha&#8230; Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles&#8230; Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?</p>
<p style="text-align: justify;">Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.</p>
<p style="text-align: justify;">Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água &#8211; havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d&#8217;água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.</p>
<p style="text-align: justify;">Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.</p>
<p style="text-align: justify;">Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que foi?! gritou vibrando toda.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:</p>
<p style="text-align: justify;">— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.</p>
<p style="text-align: justify;">— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Acabara-se a vertigem de bondade.</p>
<p style="text-align: justify;">E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.</p>
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		<title>História de gente alegre, João do Rio</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 15:32:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[História de gente alegre]]></category>
		<category><![CDATA[JOão do Rio]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/06/02/historia-de-gente-alegre-joao-do-rio"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Joao-do-Rio1.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O terraço era admirável. A casa toda parecia mesmo ali pousada á beira dos horizontes sem fim como para admira-los, e a luz dos pavimentos térreos, a iluminação dos salões de cima contrastava violenta com o macio esmaecer da tarde. Estávamos no Smart-Club, estávamos ambos no terraço do Smart-Club, esse maravilhoso terraço de vila do Estoril, dominando um lindo sítio da praia do Russel — as avenidas largas, o mar, a linha ardente do cais e o céu que tinha luminosidades polidas de faiança persa. Eram sete horas. Com o ardente verão ninguém tinha vontade de jantar. Tomava-se um aperitivo qualquer, embebendo os olhos na beleza confusa das cores do ocaso e no banho viride<sup> [1]</sup> de todo aquele verde em de redor. As salas lá em cima estavam vazias; a grande mesa de baccarat<sup> [2]</sup>, onde algumas pequenas e alguns pequenos derretiam notas do banco — a descansar. O soalho envernisado brilhava. Os divãs<sup> [3]</sup> modorravam em fila encostados às paredes — os divãs que nesses clubes não têm muito trabalho. Os criados, vindos todos de Buenos- Aires e de S. Paulo, criados italianos marca registrada como a melhor em Londres, no Cairo, em New-York, empertigavam-se. E a viração era tão macia, um cheiro de salsugem<sup> [4]</sup> polvilhava a atmosfera tão levemente, que a vontade era de ficar ali muito tempo, sem fazer nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a noite já estendia o seu negro brocado picado de estrelas e no plein-air do terraço começavam a chegar os smart-diners. Que curioso aspecto! Havia franceses condecorados, de gestos vulgares, ingleses de smoking e parasita à lapela, americanos de casaca e também de brim branco com sapatos de jogar o foot-ball e o lawn-tenis<sup> [5]</sup>, os elegantes cariocas com risos artificiais, risos postiços, gestos a contragosto do corpo, todos bonecos vítimas da diversão chantecler, os noceurs<sup> [6]</sup> habituais, e os michés<sup> [7]</sup> ricos ou jogadores, cuja primeira refeição deve ser o jantar, e que apareciam de olheiras, a voz pastosa, pensando no bac-chemin-de-fer<sup> [8]</sup>, no 9 de cara e nos pedidos do último béguin<sup> [9]</sup>. O prédio, mais uma “ vila ” da bacia do Mediterrâneo, ardia na noite serena, parecia a miragem dos astros do alto; as toalhas brancas, os cristais, os baldes de christofle<sup> [10]</sup> tinham reflexos. Por sobre as mesas corria como uma farândola<sup> [11]</sup> fantasista de pequenas velas com capuchons<sup> [12]</sup> coloridos, e vinha de cima uma valsa lânguida, uma dessas valsas de lento enebriar, que adejam vôos de mariposas e têm fermatas que parecem espasmos. No meio daquela roda de homens, que se cumprimentavam rápidos, dizendo apenas as últimas sílabas das palavras: — B’jour, Plo&#8230; deus! goo, iam chegando as cocottes<sup> [13]</sup>, as modernas Aspásias<sup> [14]</sup> da insignificância.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas vinham a arrastar vestidos de cinco mil francos; outras tinham atitudes simplistas dos primitivos italianos. Havia na sombra do terraço, um desfilar de figuras que lembravam Rossetti e Heleu, Mirande e Herman-Paul, Capielo e Sem, Julião e também Abel Faivre, porque havia cocottes gordas, muito gordas e pintadas, ajaezadas de jóias, suando e praguejando. Falavam todas línguas estrangeiras — o espanhol, o francês, o italiano, até o alemão com o predomínio do parigot, do argot, da langue verte<sup> [15]</sup>. Só se falava mesmo calão de boulevard<sup> [16]</sup>. Fora, à entrada, paravam as lanternas carbunculantes<sup> [17]</sup> dos autos, havia fonfons roucos, arrancos bruscos de máquinas H. P. 60. Aquele ambiente de internacionalismo à parisiense cheio do rumor de risos, de gluglus de garrafas, de piadas, era uma excitação para a gente chique. O barão André de Belfort, elegantíssimo na sua casaca impecável convidara-me para um jantar a dois em que se conversasse de arte antiga — porque ele tinha estudos pessoais sobre a noção da linha na Grécia de Péricles. Evidentemente, antes de terminar o jantar teríamos a mesa guarnecida por alguma daquelas figurinhas escapas de Tanagra<sup> [18]</sup> ou qualquer dos gordos monstros circulantes&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">De súbito, porém, na alegria do terraço ouvi por trás de mim uma voz de mulher dizer:</p>
<p style="text-align: justify;">— Pois então não sabes que a Elsa morreu hoje de madrugada?</p>
<p style="text-align: justify;">Não me voltei. A mulher conversava noutra mesa. Mas senti um pasmo assustado. Elsa! Seria a Elsa d’Aragon, uma carnação maravilhosa de dezoito anos, lançada havia apenas um mês por um manager<sup> [19]</sup> de music hall, cuja especialidade sexual era desvirginar meninas púberes? Seria ela com os seus olhos verdes, a pele veludosa de rosa-chá e aquela esplêndida cabeleira negra de azeviche? E morrer em plena apoteose, cheia de jóias e de apaixonados! Indaguei do meu conviva:</p>
<p style="text-align: justify;">— Morreu a Elsa d’Aragon?</p>
<p style="text-align: justify;">O barão Belfort encomendava enfim o cardápio. Acabou tranquilamente a grave operação, descansou o monóculo em cima da mesa.</p>
<p style="text-align: justify;">— Exatamente. Parece que a apreciavas? Pobre rapariga! Foi com efeito ela. Morreu esta madrugada.</p>
<p style="text-align: justify;">— De repente?</p>
<p style="text-align: justify;">— Com certeza. Devia ter sido uma linda morte. Beleza horrível. Não se fala noutra coisa hoje nas pensões de artistas, em todos os conventilhos elegantes patronados pelas velhas cocottes ricas, nas rodas dos jogadores. A Elsa era muito nature<sup> [20]</sup>, com a fobia do artifício, mas soube morrer furiosamente.</p>
<p style="text-align: justify;">— Como foi?</p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento chegara a “bisque”<sup> [21]</sup> e o balde com a Môet, brut imperiale<sup> [22]</sup>, que o velho dandy<sup> [23]</sup> bebe sempre desde o começo do jantar. O barão atacou a “ bisque”, deu não sei que ordem ao maître-d’hôtel, e murmurou:</p>
<p style="text-align: justify;">— É uma história interessante. Você de certo ainda não quis fazer a psicologia da mulher alegre atirando-se a todos os excessos por enervamento de não ter o que fazer? Quase todas essas criaturas, altamente cotadas ou apenas da calçada, são, como direi? as excedidas das preocupações. Estão sempre enervadas, paroxismadas. O meio é atrozmente artificial, a gargalhada, o champanhe, a pintura encobrem uma lamentável pobreza de sentimentos e de sensações. Ao demais, a vida tem um regulamento geral de excessos, e elas fatalmente pela lei, têm que fazer pagar caro e arruinar os idiotas, têm de amar um rapazola miserável que lhes coma a chelpa<sup> [24]</sup> e as bata, têm que embriagar- se e discutir os homens, os negócios das outras, tudo mais ou menos exorbitando. Uma paixão de cocotte é sempre caricatural, é sempre para além do natural, do verdadeiro, e a sua pobre vida, tenha ela centenas de contos ou viva sem um real pelas bodegas reles, é sempre uma hipótese falsificada de vida, uma espécie de fiorde num copo d’água, à luz elétrica. Todas amam de modo excepcional, jogam excessivamente, embriagam-se em vez de beber, põem dinheiro pela janela à fora em vez de gastar, quando choram, não choram, uivam, ganem, cascateiam lagrimas. Se têm filhos, quando os vão ver fazem tais excessos que deixam de ser mães, mesmo porque não o são. Duas horas depois os pequenos estão esquecidos. Se amam, praticam tais loucuras que deixam de ser amantes, mesmo porque não o são. Elas tem varias paixões na vida. Cinco anos de profissão acabam com a alma das galantes criaturinhas. Não há mais nada de verdadeiro. Uma interessante pequena pode se resumir: nome falso, crispação de nervos igual à exploração dos “gigolôs” e das proprietárias, mais dinheiro apanhado e beijos dados. São fantoches da loucura movidos por quatro cordelins da miséria humana.</p>
<p style="text-align: justify;">— A Elsa, então?</p>
<p style="text-align: justify;">— A Elsa foi atirada subitamente numa pensão do Catete. Sabes o que é a vida em casas de tal espécie. Elas acordam para o almoço, em que aparecem vários homens ricos. O almoço é muito em conta, os vinhos são caríssimos. A obrigação é fazer vir vinhos. Desde manhã elas bebem champanhe e licores complicados. Nesses almoços discute-se a generosidade, a tolice, ou a voracidade dos machos. A tarde é dada a um ou a dois. Às cinco, toilette e o passeio obrigatório. À noite, o jantar em que é preciso fazer muito barulho, dançar entre cada serviço ou mesmo durante, dizer tolices. Depois o passeio aos music-halls, com os quais tem contrato as proprietárias, e a obrigação de ir a um certo clube aquecer o jogo. Cada uma delas têm o seu cachet por esse serviço e são multadas quando vão a outro — que, como é de prever, paga a multa. O resto é ainda o homem até dormir. Nesse fantochismo lantejoulado há vários gêneros: o doidivana, o sério, o reservado, o nature, o romântico, e para encher o vazio, os vícios bizarros surgem. Elas ou tomam ópio, ou cheiram éter, ou se picam com morfina, e ainda assim, nos paraísos artificiais são muito mais para rir, coitadas ! mais malucas no manicômio obrigatório da luxúria. A Elsa era do gênero nature. Ancas largas, pele sensível, animal sem vícios. Tentou os petimetres<sup> [25]</sup>, os banqueiros fatigados, os rapazes calvos e, com oito dias estava com os nervos esgarçados, estava excedida. Mesmo porque, desde a primeira hora olhava-a com o seu olhar de morta a Elisa, a interessante<br />
Elisa.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ah!</p>
<p style="text-align: justify;">— Elisa é um tipo talvez normal nesse ambiente. Tem os cabelos cortados, usa eternamente um gorro de lontra. Nunca a vi com uma jóia e sem o seu tailleur cor de castanha. É feia, não deve agradar aos homens, mas presta-se a todos os pequenos serviços dessas damas. Escreve cartas, arranja entrevistas, tem conhecimentos, e dizem-na com todos os vícios, desde o abuso do éter até o unisexualismo<sup> [26]</sup>. Ora, era Elisa com os seus dois olhos mortos e velados que olhava Elsa, e Elsa sentia uma extraordinária repugnância, um nojo em que havia medo ao mais simples contato. Elisa sorria, a Elisa que está sempre nesses lugares, sem colete com o seu corpo de andrógino morto. E era em toda parte aquele mesmo olhar acompanhando Elsa, pregando-se a todos os seus gestos, lambendo cada atitude da criatura. Uma noite, as duas Lacroix Ducerny, as que vestem sempre iguais e fazem fortuna em comum, asseguraram-me que Elisa já não servia para nada, perdida, louca de paixão; e, com grande pasmo meu ao entrar num clube ultra infame, eu vi a Elsa com um conhecido banqueiro e, muito naturalmente, Elisa ao lado. Era a aproximação&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Safa!</p>
<p style="text-align: justify;">— Meu caro, nada de repugnâncias. Prove este faisão. Está magnifico. Ora, ontem, no Casino, como a pobre Elsa estava totalmente fora dos nervos e com um vestido verdadeiramente admirável, tive prazer em ir apertar-lhe a mão. — “ Então, como vai com esta vida?” — “ Como vê, muito bem.” — “ Mas está nervosa.” — “ Há de ser de falta de hábito. Acabo por acostumar.” — “Com um tão belo físico&#8230;” — “Não seja mau, deixe os cumprimentos.” E de súbito — “ Diga-me, barão, não há um meio da gente se ver livre disto? Não posso, não tenho mais liberdade, já não sou eu. Hoje, por exemplo, tinha uma imensa vontade de chorar.” — Chore, é uma questão de nervos. Ficará de certo aliviada.” — “Mas não é isso, não é isso, homem!” — “ Se a menina continua a gritar, participo-lhe que vou embora.” —“Não, meu amigo, perdoe. É que eu estou tão nervosa! tanto! tanto&#8230; Queria que me desse um conselho. — “Para que?” — “ Para aliviar-me.” — “É difícil. Você sofre de um mal comum, a surmenagem<sup> [27]</sup> do artificio. Eu podia dizer-lhe: recolha-se a um convento. Mas pareceria brincadeira e talvez viesse a morrer mística, a conversar com os anjos, como Swedenborg<sup> [28]</sup>. Conheci algumas que acabaram assim. Podia também, se fosse um idiota, aconselhar a vida honesta. Mas isso seria impossível porque o pesar de ter saído desta em que o desperdício é a norma, a saudade e as lembrança deixá-la-iam amargurada. Depois não tem recursos e teria sempre que pôr em circulação o seu lindo capital.” — “ Barão, por quem é, fale-me sinceramente.” —“Então, minha filha, aconselho uma paixão ou um excesso, um belo rapaz ou uma extravagância.”  —. “ Nesta roda não há belos rapazes.” — “ De acordo, há quando muito velhos recém-nascidos. Mas é recorrer à multidão, passar uma noite percorrendo os bairros pobres, experimentar. Ou então, minha cara, um grande excesso : champanhe, éter ou morfina&#8230;” Voltei-me para a sala. Num camarote fronteiro a Elisa olhava com os seus dois olhos de morta. “ E se não a repugna muito uma grande mestra dos paraísos artificiais, a Elisa”. — “ Não fale alto, que ela percebe.” — “Então já a sabia lá?”. — Corri-a ontem do meu quarto. É um demônio.”— “ Mas você precisa de um demônio.” — “ O que ela faz&#8230;” — “ Já sei, toda a gente faz. Mas naturalmente ela é excepcional.” — “ Barão, vá embora.” — “ Adeus, minha querida.” Quando dei a volta para falar a Elisa, já esta deixara vazio o camarote.</p>
<p style="text-align: justify;">— E então, como morreu a linda criatura?</p>
<p style="text-align: justify;">— Aceitando o meu conselho. A sua morte pertence ao rnistério do quarto, mas devia ser horrível. Elsa partiu do music-hall diretamente para casa, pretextando ao banqueiro que lhe ia pôr um pequeno palácio, a forte dor de cabeça — a clássica migraine<sup> [29]</sup> das cocottes enfaradas ou  ou excedidas E apareceu na ceia da pensão como uma louca, a mandar abrir champanhe por conta própria. Quando por volta de uma hora apareceu a figura de larva<sup> [30]</sup> da Elisa, deu um pulo da cadeira, agarrou-lhe o pulso : “ Vem; tu hoje és minha!” Houve uma grande gargalhada. Essas damas e mais esses cavalheiros tinham uma grande complacência com a Elisa, e aquela vitória excitava-os. Elisa molemente sentou-se ao lado da Elsa, que bebia mais champanhe, sentia afrontações e torcia os dedos da apaixonada por baixo da mesa. Era o desespero. Mimi Gonzaga assegurou-me que ela recebera uma carta da mãe logo pela manhã. No fim, Elsa, pálida e ardente, dizia: “Viens, mon cheri, que je te baise!” e mordia raivosamente o pescoço da Elisa. Via-se a repugnância, a raiva com que ela fazia a cena de Lesbos — pobre rapariga sem inversões e estetismos à Safo<sup> [31]</sup>&#8230; A ceia acabou em espetáculo, e acabaria com todos os espectadores, se algumas mulheres com ciúmes dos seus senhores — ah! como elas são idiotas! — não os tivessem levado. Elsa às duas e meia fez erguer-se a Elisa, calada e misteriosamente fria. “Vão tomar morfina? interrogou um dos assistentes, cuidado, em?” Elsa deu de ombros, sorriu, saiu arrastando a outra. E a desaparição foi teatral ainda. Os olhos verdes da Elsa bistrados<sup> [32]</sup>, a sua cabeleira desnastra<sup> [33]</sup>, agarrando com um desespero de bacante a pastosidade oleosa e alourada da miserável que a queria.</p>
<p style="text-align: justify;">— Que horror!</p>
<p style="text-align: justify;">— A coitadinha aturdia-se. É o processo habitual. Para mostrar a sua livre vontade caía na extravagância, agarrava o tipo que a repugnava, para mergulhar inteiramente no horror. Estive quase a acreditar que tivesse recebido alguma lembrança dos parentes, e imaginei um instante a cena sinistramente atroz do quarto em que enfim, como uma larva diabólica, o polvo louro da roda iria arrancar um pouco de vida àquela linda criatura ardente, ainda com uns restos de alma de mulher&#8230; Nunca porém pensei no fim súbito. Pelas cinco horas da manhã, a pensão acordava a uns gemidos roucos, que vinham do quarto de Elsa. Eram bem gritos estertorados de socorro. As mulheres desceram em fralda, os criados ergueram-se com o sorriso cínico habituado àquelas madrugadas agitadas de ataques e de delírios histéricos. A porta do quarto estava fechada. Bateram, bateram muito, enquanto lá dentro o som rouco rouquejava. Foi preciso arrombar a porta. E a cena fez recuar no primeiro momento a tropa do alcouce. Como luz havia apenas a lamparina numa redoma rosa. O quarto. cheio de sombra, mostrava, em cima das poltronas, as sedas e os dessous<sup> [34]</sup> de renda da Elsa. Um frasco de éter aberto, empestava o ambiente. A Elisa, o corpo da Elisa estava de joelhos à beira da cama. Os braços pendiam como dois tentáculos cortados. Inteiramente nua, o corpo divino lívido, os cabelos negros amarrados ao alto como um casco de ébano, Elsa d’Aragon, as pernas em compasso, a face contraída, ainda sentada agarrava com as duas mãos numa crispação atroz, a cabeça da Elisa. Era Elisa que rouquejava. Elsa estava bem morta, o corpo já frio. Devia ter havido luta, resistência de Elsa, triunfo da mulher loura e por fim sem fim até a morte, enquanto a outra se estorcia, apertava-a, arrancava-lhe os cabelos, machucava-lhe o rosto —aquele horror. Elsa entrara no nada debatendo-se, vítima de um suplício diabólico, mas no último espasmo as suas mãos agarram a assassina. Quando esta afinal satisfeita quis erguer-se, sentiu-se presa pelos cabelos, tentou lutar, viu que a pobre era cadáver. E passou-se então para o monstro o momento do indizível terror, o momento em que se vê para sempre o mundo perdido porque ficou imóvel rouquejando, de joelhos, a cabeça no regaço do cadáver, que mantinha nas mãos cerradas a massa dos seus cabelos de ouro. Os dedos de resto pareciam de aço. Uma das mulheres recorreu à tesoura para despegar a cabeça de Elisa das mãos do cadáver. Quando o corpo tombou no leito com o punhado da cabeleira nas mãos, o bando estremunhado viu surgir a face de Elisa, tão decomposta, tão velha, que parecia outra, como que aparvalhada.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve um silêncio. O criado servia frutas geladas, esplêndidas pêras de Espanha e uvas das regiões vinhateiras da Borgonha, grandes uvas negras. O barão trincou de uma pêra.</p>
<p style="text-align: justify;">— Foi uma complicação para afastar a polícia e impedir notícias nos jornais que desmoralizariam a casa. Elisa seguiu horas depois para o hospício, babando e estertorando. A Elsa devia ter sido enterrada hoje á tarde. Estive lá a ver o cadáver. Tinha ainda nas mãos cerradas fios de cabelos louros, como se quisesse arrancar para o túmulo a prova desesperada da sua morte horrível.</p>
<p style="text-align: justify;">E mordeu com apetite a pêra. No salão de cima uma valsa lenta, chorada pelos violinos, enlanguecia o ar. Das mesas do terraço entre a iluminação bizantina das velas de capuchons coloridos subia o zumbido alegre feito de risos e de gorgeios de todas aquelas mulheres que o jantar alegrava.</p>
<p style="text-align: justify;">
Notas:<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2222" class="footnote">Verde, esverdeado.</li><li id="footnote_1_2222" class="footnote">Jogo de cartas de origem francesa, em  que tomam parte um banqueiro e vários jogadores, ganhando o grupo que  com duas ou mais cartas, perfizer o total de pontos mais próximo de  nove. Bacará.</li><li id="footnote_2_2222" class="footnote">Espécie de sofá ou canapé de origem  persa, sem encosto ou braço.</li><li id="footnote_3_2222" class="footnote">Maresia.</li><li id="footnote_4_2222" class="footnote">Tênis de gramado. Em inglês no texto.</li><li id="footnote_5_2222" class="footnote">Pessoa de vida dissoluta, boêmio.</li><li id="footnote_6_2222" class="footnote">Michês. Diz-se de quem paga ou recebe  por favores sexuais. Em francês no texto.</li><li id="footnote_7_2222" class="footnote">Modalidade do bacará. Em francês no  texto.</li><li id="footnote_8_2222" class="footnote">Flerte. Em francês no texto.</li><li id="footnote_9_2222" class="footnote">Aplicação ornamental de ouro em  cristal, vidro ou  metal, que recebeu o nome de seu criador, o  industrial francês Charles Christofle (1808-1863).</li><li id="footnote_10_2222" class="footnote">Tipo de dança popular provençal.</li><li id="footnote_11_2222" class="footnote">Protetor de velas de cera, que as  impede de serem apagadas pelo vento. Em francês no texto.</li><li id="footnote_12_2222" class="footnote">Mulheres de vida alegre. Em francês no  texto.</li><li id="footnote_13_2222" class="footnote">Companheira de Péricles, governante de  Atenas durante o século V AC., o período áureo do cultura clássica.</li><li id="footnote_14_2222" class="footnote">Parigot, argot e langue verte são  denominações da gíria parisiense do baixo mundo.</li><li id="footnote_15_2222" class="footnote">Rua larga e arborizada, símbolo da  modernidade de Paris após a reforma urbana de Haussmans. No Rio de  Janeiro, o prefeito Pereira Passos realizou reforma semelhante entre  1904 e 1909, inaugurando a Avenida Central ( Rio Branco), um típico  boulevard carioca. Em francês no texto.</li><li id="footnote_16_2222" class="footnote">De carbúnculo, ou rubi. Da cor  vermelha.</li><li id="footnote_17_2222" class="footnote">Relativo à cidade grega de Tanagra,  célebre por suas esculturas de linda mulheres esbeltas.</li><li id="footnote_18_2222" class="footnote">Empresário. Em inglês no texto.</li><li id="footnote_19_2222" class="footnote">Mulher que dispensa os artifícios da  maquiagem. Em francês no texto.</li><li id="footnote_20_2222" class="footnote">Sopa de frutos do mar. Em francês no  texto.</li><li id="footnote_21_2222" class="footnote">Marca nobre de champanhe. Em francês  no texto.</li><li id="footnote_22_2222" class="footnote">Tipo de homem elegante e refinado, com  senso de humor debochado e iconoclasta, típico do período entre 1870 e  1918 (Bele-époque). Oscar Wilde e João do Rio foram típicos dândis. Em  inglês no texto.</li><li id="footnote_23_2222" class="footnote">Dinheiro.</li><li id="footnote_24_2222" class="footnote">Indivíduo vestido com apuro exagerado.  Janota. Novo-rico.</li><li id="footnote_25_2222" class="footnote">Homossexualismo.</li><li id="footnote_26_2222" class="footnote">Exagêro.</li><li id="footnote_27_2222" class="footnote">Emanuel Swedenborg (1688-1772),  cientista e filósofo sueco, que também estudou o mundo sobrenatural.  Suas idéias influenciaram muito o Romantismo. Uma seita de seus  seguidores foi estudada por João Rio in As religiões no Rio (1904).</li><li id="footnote_28_2222" class="footnote">Enxaqueca. Em francês no texto.</li><li id="footnote_29_2222" class="footnote">Fantasma. Espírito malfazejo que vaga  entre os vivos para fazer o mal.</li><li id="footnote_30_2222" class="footnote">Poetisa da Grécia clássica, que  instituiu na ilha de Lesbos uma escola apenas para moças. Originou-se  daí a denominação de lesbianismo ou safismo para o homossexualismo  feminino.</li><li id="footnote_31_2222" class="footnote">Olhos bistrados: com olheiras.</li><li id="footnote_32_2222" class="footnote">Destrançada.</li><li id="footnote_33_2222" class="footnote">Roupas de baixo. Em francês no texto.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Decálogo do perfeito contista, Horacio Quiroga</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 19:41:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Horacio Quiroga]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/05/25/decalogohoracioquiroga"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/05/horacioquiroga.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong><br />
I</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Creia em um mestre &#8211; Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov &#8211; como em uma divindade.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>II</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Creia que sua arte é um cume inacessível. Não sonhe dominá-la. Quando puder fazê-lo, conseguirá sem que você mesmo o saiba.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 60px;"><strong>III</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Resista quanto possível à imitação, mas imite se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>IV</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nutra uma fé cega não na sua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o deseja. Ame sua arte como ama sua amada, dando-lhe todo o coração.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>V</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não comece a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vai. Num conto bem feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>VI</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se quer expressar com exatidão esta circunstância &#8211; &#8220;Desde o rio soprava um vento frio&#8221; -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de suas palavras, não se preocupe em avaliar se são consoantes ou dissonantes.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>VII</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não adjetive sem necessidade, pois são inúteis as rendas coloridas que venha a pendurar num substantivo débil. Se diz o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>VIII</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Toma seus personagens pela mão e leve-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçou. Não se distraia vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abuse do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considere isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>IX</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não escreve sob o império da emoção. Deixe-a morrer, depois a reviva. Se for capaz de revivê-la tal como a viveu, terá chegado, na arte, à metade do caminho.</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 60px;"><strong>X</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao escrever, não pense em seus amigos nem na impressão que sua história causará. Conta como se seu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de seus personagens e como se você fosse um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O ex-mágico da taberna minhota, Murilo Rubião</title>
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		<pubDate>Thu, 20 May 2010 00:01:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[Murilo Rubião]]></category>
		<category><![CDATA[O Ex-Mágico]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/05/19/o-ex-magico-da-taberna-minhota-murilo-rubiao"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/05/exmagico.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;<br />
porque eu sou desvalido e pobre.<br />
(Salmos. LXXXV, I)</em></p>
<p style="text-align: justify;">Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.</p>
<p>Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.</p>
<p>O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.</p>
<p>Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.</p>
<p style="text-align: justify;">O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o conseqüente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a idéia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.</p>
<p>Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.</p>
<p style="text-align: justify;">A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.</p>
<p style="text-align: justify;">O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.</p>
<p>Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.</p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.</p>
<p>Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.</p>
<p>Situação cruciante.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.</p>
<p>Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.</p>
<p>Também, à noite, em meio a um sono tranqüilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.</p>
<p>Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.</p>
<p style="text-align: justify;">Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.</p>
<p>Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.</p>
<p>— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.</p>
<p>Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:</p>
<p>— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.</p>
<p>Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.</p>
<p>Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.</p>
<p>O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.</p>
<p style="text-align: justify;">Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um pára-quedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.</p>
<p>Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.</p>
<p>Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.</p>
<p>Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.</p>
<p>Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.</p>
<p>Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.</p>
<p>1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.</p>
<p>Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.</p>
<p>Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.</p>
<p style="text-align: justify;">O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou -me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.</p>
<p>O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.</p>
<p>Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!</p>
<p style="text-align: justify;">1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)</p>
<p>Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.</p>
<p>Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.</p>
<p style="text-align: justify;">Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.</p>
<p>Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.</p>
<p>Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.</p>
<p>Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.</p>
<p>Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.</p>
<p>Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.</p>
<p style="text-align: justify;">Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.</p>
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		<title>Informe para una Academia, Franz Kafka</title>
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		<pubDate>Sat, 15 May 2010 19:35:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[Franz Kafka]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/05/15/informe-para-una-academia-franz-kafka"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/05/informekafka.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">traducción: Jordi Rottner</span></p>
<p style="text-align: justify;">Excelentísimos señores académicos:</p>
<p style="text-align: justify;">Me hacéis el honor de presentar a la Academia un informe sobre mi anterior vida de mono. Lamento no poder complaceros; hace ya cinco años que he abandonado la vida simiesca. Este corto tiempo cronológico es muy largo cuando se lo ha atravesado galopando – a veces junto a gente importante – entre aplausos, consejos y música de orquesta; pero en realidad solo, pues toda esta farsa quedaba – para guardar las apariencias – del otro lado de la barrera.</p>
<p style="text-align: justify;">Si me hubiera aferrado obstinadamente a mis orígenes, a mis evocaciones de juventud, me hubiera sido imposible cumplir lo que he cumplido. La norma suprema que me impuse consistió justamente en negarme a mí mismo toda terquedad. Yo, mono libre, acepté ese yugo; pero de esta manera los recuerdos se fueron borrando cada vez más. Si bien, de haberlo permitido los hombres, yo hubiera podido retornar libremente, al principio, por la puerta total que el cielo forma sobre la tierra, ésta se fue angostando cada vez más, a medida que mi evolución se activaba como a fustazos: más recluido, y mejor me sentía en el mundo de los hombres: la tempestad, que viniendo de mi pasado soplaba tras de mí, ha ido amainando: hoy es tan solo una corriente de aire que refrigera mis talones. Y el lejano orificio a través del cual ésta me llega, y por el cual llegué yo un día, se ha reducido tanto que – de tener fuerza y voluntad suficientes para volver corriendo hasta él – tendría que despellejarme vivo si quisiera atravesarlo. Hablando con sinceridad – por más que me guste hablar de estas cosas en sentido metafórico –, hablando con sinceridad os digo: vuestra simiedad, estimados señores, en tanto que tuvierais algo similar en vuestro pasado, no podría estar más alejada de vosotros que lo que la mía está de mí. Sin embargo, le cosquillea los talones a todo aquel que pisa sobre la tierra, tanto al pequeño chimpancé como al gran Aquiles.</p>
<p style="text-align: justify;">Pero a pesar de todo, y de manera muy limitada, podré quizá contestar vuestra pregunta, cosa que por lo demás hago de muy buen grado. Lo primero que aprendí fue a estrechar la mano en señal de convenio solemne. Estrechar la mano es símbolo de franqueza. Hoy, al estar en el apogeo de mi carrera, tal vez pueda agregar, a ese primer apretón de manos, también la palabra franca. Ella no brindará a la Academia nada esencialmente nuevo, y quedaré muy por debajo de lo que se me demanda, pero que ni con la mejor voluntad puedo decir. De cualquier manera, con estas palabras expondré la línea directiva por la cual alguien que fue mono se incorporó al mundo de los humanos y se instaló firmemente en él. Conste además, que no podría contaros las insignificancias siguientes si no estuviese totalmente convencido de mí, y si posición no se hubiese afirmado de manera incuestionable todos los grandes music-halls del mundo civilizado.</p>
<p style="text-align: justify;">Soy originario de la Costa de Oro. Para saber cómo fui atrapado dependo de informes ajenos. Una expedición de caza de la firma Hagenbeck – con cuyo jefe, por otra parte, he vaciado no pocas botellas de vino tinto – acechaba emboscada en la maleza que orilla el río, cuando en medio de una banda corrí una tarde hacia el abrevadero. Dispararon: fui el único que hirieron, alcanzado por dos tiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Uno en la mejilla. Fue leve pero dejó una gran cicatriz pelada y roja que me valió el repulsivo nombre, totalmente inexacto y que bien podía haber sido inventado por un mono, de Peter el Rojo, tal como si sólo por esa mancha roja en la mejilla me diferenciara yo de aquel simio amaestrado llamado Peter, que no hace mucho reventó y cuyo renombre era, por lo demás, meramente local. Esto al margen.</p>
<p style="text-align: justify;">El segundo tiro me atinó más abajo de la cadera. Era grave y por su causa aún hoy rengueo un poco. No hace mucho leí en un artículo escrito por alguno de esos diez mil sabuesos que se desahogan contra mí desde los periódicos &#8220;que mi naturaleza simiesca no ha sido aplacada del todo&#8221;, y como ejemplo de ello alega que cuando recibo visitas me deleito en bajarme los pantalones para mostrar la cicatriz dejada por la bala. A ese canalla deberían arrancarle a tiros, uno por uno, cada dedo de la mano con que escribe. Yo, yo puedo quitarme los pantalones ante quien me venga en ganas: nada se encontrará allí más que un pelaje acicalado y la cicatriz dejada por el – elijamos aquí para un fin preciso, un término preciso y que no se preste a equívocos – ultrajante disparo. Todo está a la luz del día; no hay nada que esconder. Tratándose de la verdad toda persona generosa arroja de sí los modales, por finos que éstos sean. En cambio, otro sería el cantar si el chupatintas en cuestión se quitase los pantalones al recibir visitas. Doy fe de su cordura admitiendo que no lo hace, ¡pero que entonces no me moleste más con sus mojigaterías!</p>
<p style="text-align: justify;">Después de estos tiros desperté – y aquí comienzan a surgir lentamente mis propios recuerdos – en una jaula colocada en el entrepuente del barco de Hagenbeck. No era una jaula con rejas a los cuatro costados, eran más bien tres rejas clavadas en un cajón. El cuarto costado formaba, pues, parte del cajón mismo. Ese conjunto era demasiado bajo para estar de pie en él y demasiado estrecho para estar sentado. Por eso me acurrucaba doblando las rodillas que me temblaban sin cesar. Como posiblemente no quería ver a nadie, por lo pronto prefería permanecer en la oscuridad: me volvía hacia el costado de las tablas y dejaba que los barrotes de hierro se me incrustaran en el lomo. Dicen que es conveniente enjaular así a los animales salvajes en los primeros tiempos de su cautiverio, y hoy, de acuerdo a mi experiencia, no puedo negar que, desde el punto de vista humano, efectivamente tienen razón.</p>
<p style="text-align: justify;">Pero entonces no pensaba en todo esto. Por primera vez en mi vida me encontraba sin salida; por lo menos no la había directa. Ante mí estaba el cajón con sus tablas bien unidas. Había, sin embargo, una hendidura entre las tablas. Al descubrirla por primera vez la saludé con el aullido dichoso de la ignorancia. Pero esa rendija era tan estrecha que ni podía sacar por ella la cola y ni con toda la fuerza simiesca me era posible ensancharla.</p>
<p style="text-align: justify;">Como después me informaron, debo haber sido excepcionalmente silencioso, y por ello dedujeron que, o moriría muy pronto o, de sobrevivir a la crisis de la primera etapa, sería luego muy apto para el amaestramiento. Sobreviví a esos tiempos. Mis primeras ocupaciones en la nueva vida fueron: sollozar sordamente; espulgarme hasta el dolor; lamer hasta el aburrimiento una nuez de coco; golpear la pared del cajón con el cráneo y enseñar los dientes cuando alguien se acercaba. Y en medio de todo ello una sola evidencia: no hay salida. Naturalmente hoy sólo puedo transmitir lo que entonces sentía como mono con palabras de hombre, y por eso mismo lo desvirtúo. Pero aunque ya no pueda retener la antigua verdad simiesca, no cabe duda de que ella está por lo menos en el sentido de mi descripción.</p>
<p style="text-align: justify;">Hasta entonces había tenido tantas salidas, y ahora no me quedaba ninguna. Estaba atrapado. Si me hubieran clavado, no hubiera disminuido por ello mi libertad de acción. ¿Por qué? Aunque te rasques hasta la sangre el pellejo entre los dedos de los pies, no encontrarás explicación. Aunque te aprietes el lomo contra los barrotes de la jaula hasta casi partirse en dos, no conseguirás explicártelo. No tenía salida, pero tenía que conseguir una: sin ella no podía vivir. Siempre contra esa pared hubiera reventado indefectiblemente. Pero como en el circo Hagenbeck a los monos les corresponden las paredes de cajón, pues bien, dejé de ser mono. Esta fue una magnífica asociación de ideas, clara y hermosa que debió, en cierto sentido, ocurrírseme en la barriga, ya que los monos piensan con la barriga.</p>
<p style="text-align: justify;">Temo que no se entienda bien lo que para mí significa &#8220;salida&#8221;. Empleo la palabra en su sentido más preciso y más común. Intencionadamente no digo libertad. No hablo de esa gran sensación de libertad hacia todos los ámbitos. Cuando mono posiblemente la viví y he conocido hombres que la añoran. En lo que a mí atañe, ni entonces ni ahora pedí libertad. Con la libertad – y esto lo digo al margen – uno se engaña demasiado entre los hombres, ya que si el sentimiento de libertad es uno de los más sublimes, así de sublimes son también los correspondientes engaños. En los teatros de variedades, antes de salir a escena, he visto a menudo ciertas parejas de artistas trabajando en los trapecios, muy alto, cerca del techo. Se lanzaban, se balanceaban, saltaban, volaban el uno a los brazos del otro, se llevaban el uno al otro suspendidos del pelo con los dientes. &#8220;También esto&#8221;, pensé, &#8220;es libertad para el hombre: ¡el movimiento excelso!&#8221; iOh burla de la santa naturaleza! Ningún edificio quedaría en pie bajo las carcajadas que tamaño espectáculo provocaría entre la simiedad.</p>
<p style="text-align: justify;">No, yo no quería libertad. Quería únicamente una salida: a derecha, a izquierda, adonde fuera. No aspiraba a más. Aunque la salida fuese tan sólo un engaño: como mi pretensión era pequeña el engaño no sería mayor. ¡Avanzar, avanzar! Con tal de no detenerme con los brazos en alto, apretado contra las tablas de un cajón.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoy lo veo claro: si no hubiera tenido una gran paz interior, nunca hubiera podido escapar. En realidad, todo lo que he llegado a ser lo debo, posiblemente, a esa gran paz que me invadió, allá, en los primeros días del barco. Pero, a la vez, debo esa paz a la tripulación.</p>
<p style="text-align: justify;">Era buena gente a pesar de todo. Aún hoy recuerdo con placer el sonido de sus pasos pesados que entonces resonaban en mi somnolencia. Acostumbraban hacer las cosas con exagerada lentitud. Si alguno necesitaba frotarse los ojos levantaba la mano como si se tratara de un peso muerto. Sus bromas eran groseras pero afables. A sus risas se mezclaba siempre un carraspeo que, aunque sonaba peligroso, no significaba nada. Siempre tenían en la boca algo que escupir y les era indiferente dónde lo escupían. Con frecuencia se quejaban de que mis pulgas les saltaban encima, pero nunca llegaron a enojarse en serio conmigo: por eso sabían, pues, que las pulgas se multiplicaban en mi pelaje y que las pulgas son saltarinas. Con esto les era suficiente. A veces, cuando estaban de asueto, algunos de ellos se sentaban en semicírculo frente a mí, hablándose apenas, gruñéndose el uno al otro, fumando la pipa recostados sobre los cajones, palmeándose la rodilla a mi menor movimiento y, alguno, de vez en cuando, tomaba una varita y con ella me hacía cosquillas allí donde me daba placer. Si me invitaran hoy a realizar un viaje en ese barco, rechazaría, por cierto, la invitación; pero también es cierto que los recuerdos que evocaría del entrepuente no serían todos desagradables.</p>
<p style="text-align: justify;">La tranquilidad que obtuve de esa gente me preservó, ante todo, de cualquier intento de fuga. Con mi actual dentadura debo cuidarme hasta en la común tarea de cascar una nuez; pero en aquel entonces, poco a poco, hubiera podido roer de lado a lado el cerrojo de la puerta. No lo hice. ¿Qué hubiera conseguido con ello? Apenas hubiese asomado la cabeza me hubieran cazado de nuevo y encerrado en una jaula peor; o bien hubiera podido huir hacia los otros animales, hacia las boas gigantes, por ejemplo, que estaban justo frente a mí, para exhalar en su abrazo el último suspiro; o, de haber logrado deslizarme hasta el puente superior y saltado por sobre la borda, me hubiera mecido un momento sobre el océano y luego me habría ahogado. Todos éstos, actos suicidas. No razonaba tan humanamente entonces, pero bajo la influencia de mi medio ambiente actué como si hubiese razonado.</p>
<p style="text-align: justify;">No razonaba pero sí observaba, con toda calma, a esos hombres que veía ir y venir. Siempre las mismas caras, los mismos gestos; a menudo me parecían ser un solo hombre. Pero ese hombre, o esos hombres, se movían en libertad. Un alto designio comenzó a alborear en mí. Nadie me prometía que, de llegar a ser lo que ellos eran, las rejas me serían levantadas. No se hacen tales promesas para esperanzas que parecen irrealizables; pero si llegan a realizarse, aparecen estas promesas después, justamente allí donde antes se las había buscado inútilmente. Ahora bien, nada había en esos hombres que de por sí me atrajera especialmente. Si fuera partidario de esa libertad a la cual me referí, hubiera preferido sin duda el océano a esa salida que veía reflejarse en la turbia mirada de aquellos hombres. Había venido observándolos, de todas maneras, ya mucho antes de haber pensado en estas cosas, y, desde luego, sólo estas observaciones acumuladas me encaminaron en aquella determinada dirección.</p>
<p style="text-align: justify;">¡Era tan fácil imitar a la gente! A los pocos días ya pude escupir. Nos escupimos entonces mutuamente a la cara, con la diferencia de que yo me lamía luego hasta dejarla limpia y ellos no. Pronto fumé en pipa como un viejo, y cuando además metía el pulgar en el hornillo de la pipa, todo el entrepuente se revolcaba de risa. Pero durante mucho tiempo no noté diferencia alguna entre la pipa cargada y la vacía.</p>
<p style="text-align: justify;">Pero nada me resultó tan difícil como la botella de caña. Me martirizaba el olor y, a pesar de mis buenas intenciones pasaron semanas antes de que lograra vencer esa repulsión. Lo insólito es que la gente tomó más en serio esas pujas internas que cualquier otra cosa que se relacionara conmigo. En mis recuerdos tampoco distingo a esa gente, pero había uno que venía siempre, solo o acompañado, de día, de noche, a las horas más diversas, y deteniéndose ante mí con la botella vacía me daba lecciones. No me comprendía: quería dilucidar el enigma de mi ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Descorchaba lentamente la botella, luego me miraba para saber si yo había entendido. Confieso que yo lo miraba siempre con una atención desmedida y precipitada. Ningún maestro de hombre encontrará en el mundo entero mejor aprendiz de hombre. Cuando había descorchado la botella se la llevaba a la boca; yo seguía con los ojos todo el movimiento.</p>
<p style="text-align: justify;">Asentía satisfecho conmigo, y apoyaba la botella en sus labios. Yo, maravillado con mi paulatina comprensión, chillaba rascándome a lo largo, a lo ancho, donde fuera. Él, alborozado, empinaba la botella y bebía un sorbo. Yo, impaciente y desesperado por imitarle, me ensuciaba en la jaula, lo que de nuevo lo divertía mucho. Después apartaba de sí la botella con ademán ampuloso y volvía a acercarla a sus labios de igual manera; luego, echado hacia atrás en un gesto exageradamente didáctico, la vaciaba de un trago. Yo, agotado por el excesivo deseo, no podía seguirlo y permanecía colgado débilmente de la reja mientras él, dando con esto por terminada la lección teórica, se frotaba, con amplia sonrisa, la barriga.</p>
<p style="text-align: justify;">Recién entonces comenzaba el ejercicio práctico. ¿No me había dejado ya el teórico demasiado fatigado? Sí, exhausto, pero esto era parte de mi destino. Sin embargo, tomaba lo mejor que podía la botella que me alcanzaban; la descorchaba temblando; el lograrlo me iba dando nuevas fuerzas; levantaba la botella de manera similar a la del modelo; la llevaba a mis labios y&#8230; la arrojaba con asco; con asco, aunque estaba vacía y sólo el olor la llenaba; con asco la arrojaba al suelo. Para dolor de mi instructor, para mayor dolor mío; ni a él ni a mí mismo lograba reconciliar con el hecho de que, después de arrojar la botella, no me olvidara de frotarme a la perfección la barriga, ostentando al mismo tiempo una amplia sonrisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Así transcurría la lección con demasiada frecuencia, y en honor de mi instructor quiero dejar constancia de que no se enojaba conmigo, pero sí que de vez en cuando me tocaba el pelaje con la pipa encendida hasta que comenzaba a arder lentamente, en cualquier lugar donde yo difícilmente alcanzaba; entonces lo apagaba él mismo con su mano enorme y buena. No se enojaba conmigo, pues aceptaba que, desde el mismo bando, ambos luchábamos contra la condición simiesca, y que era a mí a quien le tocaba la peor parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Y a pesar de todo, qué triunfo luego, tanto para él como para mí, cuando cierta noche, ante una gran rueda de espectadores – quizás estaban de tertulia, sonaba un fonógrafo, un oficial circulaba entre los tripulantes –, cuando esa noche, sin que nadie se diera cuenta, tomé una botella de caña que alguien, en un descuido, había olvidado junto a mi jaula, y ante la creciente sorpresa de la reunión, la descorché con toda corrección, la acerqué a mis labios y, sin vacilar, sin muecas, como un bebedor empedernido, revoloteando los ojos con el gaznate palpitante, la vacié totalmente. Arrojé la botella, no ya como un desesperado, sino como un artista, pero me olvidé, eso sí, de frotarme la barriga. En cambio, como no podía hacer otra cosa, como algo me empujaba a ello, como los sentidos me hervían, por todo ello, en fin, empecé a gritar: &#8220;¡Hola!&#8221;, con voz humana. Ese grito me hizo irrumpir de un salto en la comunidad de los hombres, y su eco: &#8220;¡Escuchen, habla!&#8221; lo sentí como un beso en mi sudoroso cuerpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Repito: no me cautivaba imitar a los humanos; los imitaba porque buscaba una salida; no por otro motivo. Con ese triunfo, sin embargo, poco había conseguido, pues inmediatamente la voz volvió a fallarme. Recién después de unos meses volví a recuperarla. La repugnancia hacia la botella de caña reapareció con más fuerza aún, pero, indudablemente, yo había encontrado de una vez por todas mi camino.</p>
<p style="text-align: justify;">Cuando en Hamburgo me entregaron al primer adiestrador, pronto me di cuenta que ante mí se abrían dos posibilidades: el jardín zoológico o el music hall. No dudé. Me dije: pon todo tu empeño en ingresar al music hall: allí está la salida. El jardín zoológico no es más que una nueva jaula; quien allí entra no vuelve a salir.</p>
<p style="text-align: justify;">Y aprendí, estimados señores. ¡Ah, sí, cuando hay que aprender se aprende; se aprende cuando se trata de encontrar una salida! ¡Se aprende de manera despiadada! Se controla uno a sí mismo con la fusta, flagelándose a la menor debilidad. La condición simiesca salió con violencia fuera de mí; se alejó de mí dando tumbos. Por ello mi primer adiestrador casi se transformó en un mono y tuvo que abandonar pronto las lecciones para ser internado en un sanatorio. Afortunadamente, salió de allí al poco tiempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Consumí, sin embargo, a muchos instructores. Sí, hasta a varios juntos. Cuando ya me sentí más seguro de mi capacidad, cuando el público percibió mis avances, cuando mi futuro comenzó a sonreírme, yo mismo elegí mis profesores. Los hice sentar en cinco habitaciones sucesivas y aprendí con todos a la vez, corriendo sin cesar de un cuarto a otro.</p>
<p style="text-align: justify;">iQué progresos! ¡Qué irrupción, desde todos los ámbitos, de los rayos del saber en el cerebro que se aviva! ¿Por qué negarlo? Esto me hacía feliz. Pero tampoco puedo negar que no lo sobreestimaba, ya entonces, ¡y cuánto menos lo sobreestimo ahora! Con un esfuerzo que hasta hoy no se ha repetido sobre la tierra, alcancé la cultura media de un europeo. Esto en sí mismo probablemente no significaría nada, pero es algo, sin embargo, en tanto me ayudó a dejar la jaula y a procurarme esta salida especial; esta salida humana. Hay un excelente giro alemán: &#8220;escurrirse entre los matorrales&#8221;. Esto fue lo que yo hice: &#8220;me escurrí entre los matorrales&#8221;. No me quedaba otro camino, por supuesto: siempre que no había que elegir la libertad.</p>
<p style="text-align: justify;">Si de un vistazo examino mi evolución y lo que fue su objetivo hasta ahora, ni me arrepiento de ella, ni me doy por satisfecho. Con las manos en los bolsillos del pantalón, con la botella de vino sobre la mesa, recostado o sentado a medias en la mecedora, miro por la ventana. Si llegan visitas, las recibo correctamente. Mi empresario está sentado en la antecámara: si toco el timbre, se presenta y escucha lo que tengo que decirle. Por las noches casi siempre hay función y obtengo éxitos ya apenas superables. Y si al salir de los banquetes, de las sociedades científicas o de las agradables reuniones entre amigos, llego a casa a altas horas de la noche, allí me espera una pequeña y semiamaestrada chimpancé, con quien, a la manera simiesca, lo paso muy bien. De día no quiero verla pues tiene en la mirada esa demencia del animal alterado por el adiestramiento; eso únicamente yo lo percibo, y no puedo soportarlo.</p>
<p style="text-align: justify;">De todos modos, en síntesis, he logrado lo que me había propuesto lograr. Y no se diga que el esfuerzo no valía la pena. Sin embargo, no es la opinión de los hombres lo que me interesa; yo sólo quiero difundir conocimientos, sólo estoy informando. También a vosotros, excelentísimos señores académicos, sólo os he informado.</p>
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		<title>O macaco ornamental, Luís Henrique Pellanda</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 17:04:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[luís henrique pellanda]]></category>
		<category><![CDATA[o macaco ornamental]]></category>
		<category><![CDATA[video]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/19/o-macaco-ornamental-luis-henrique-pellanda/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/omacacoornamental.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O nenê para de chorar. Dorme. E eu olho pela janela. Estufa de gente. Lugar feio, sem árvores, sem um rio que mereça o nome de rio. Minha cidade sem horizonte, feita somente de objetos de uso, tua lei é a utilidade, a economia das coisas. Aqui dentro, ali fora, lá embaixo, quase tudo um utensílio. Carro, prédio, sinaleiro, outdoor. Placa de trânsito, antena de celular. Sei que é a ladainha da moda, o choro da mídia, mas hoje sou um homem do meu tempo. Sabedor de gírias, amante dos clichês. Integrado e objetivo. Com meu primogênito no colo, três vezes maior que um charuto grande, o moinho do meu sossego, frágil gerador da energia que me resta.</p>
<p style="text-align: justify;">Converso com ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando tudo for utensílio, digo, o próprio homem será apenas um enfeite no mundo. Seu último adorno desnecessário. Uma espécie ornamental de macaco.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele reage mal, acorda.</p>
<p style="text-align: justify;">Duvida, meu filho? Ontem mesmo, na internet, vi a foto de uma múmia de bugio asteca. E ela era a tua cara. Péssimo, não? A múmia me lembrou você. Paramentada para a morte.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p align="center"><object style="width: 500px; height: 412px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="500" height="412" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/savjGnUnFSI" /><embed style="width: 500px; height: 412px;" type="application/x-shockwave-flash" width="500" height="412" src="http://www.youtube.com/v/savjGnUnFSI"></embed></object></p>
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		<title>Uma vida sem consolação, por Jeanne-Marie Gagnebin</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 23:18:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[jeanne-marie gagnebin]]></category>
		<category><![CDATA[revista cult]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/02/uma-vida-sem-consolacao-por-jeanne-marie-gagnebin"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Jeanne-Marie-Gagnebin.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A filosofia não pode nos consolar. Poderia, talvez, nos ajudar a viver uma &#8220;vida sem consolação&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">Publicado <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://revistacult.uol.com.br/novo/dossie.asp?edtCode=62159830-7C0E-4F83-880B-17D4CC4AE09A&amp;nwsCode=A2DF37BA-82F7-4C4D-A366-C562188C20DC" target="_blank">na <strong>Revista Cult</strong></a></span>, no Dossiê da Edição 143 (Fev/2010</span><span style="font-size: x-small;">)</span><em>.<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">Como falar da relação entre filosofia contemporânea e consolação? Com hesitação, mas com firmeza, tentando evitar uma dupla complacência: em primeiro lugar, a tentação de transformar a filosofia numa nova terapia, mais lúcida que as religiões vigentes, menos cara e menos longa que a psicanálise. Essa tentação é forte, bem estabelecida, até reivindicada por alguns como sendo a função derradeira da filosofia e instituída em várias práticas terapêuticas. Sem negar a relação que une, de Platão até Wittgenstein, filosofia e cura, duvidaria que a filosofia contemporânea deva ter essa função consoladora e terapêutica que consiste na possibilidade de construção de um <em>sentido</em> para a vida (e a morte) num mundo desencantado.</p>
<p style="text-align: justify;">Intervém, nessa recusa, a tentação de uma segunda forma de complacência: o perigo de arrogância que corre o filósofo crítico quando se reclama de uma lucidez radical. Dessa lucidez vive a filosofia de Adorno. <em>Minima Moralia</em>, esse belo livro de fragmentos sobre a vida &#8220;danificada&#8221; ou &#8220;lesada&#8221;, inicia o fragmento 5 com a afirmação de que &#8220;não há mais nem beleza nem consolo ( <em>Trost</em>) exceto no olhar que vai até o horror ( <em>Grauen</em>), o enfrenta e nele se mantém&#8221; &#8211; uma clara citação da exigência de Hegel que o espírito verdadeiro enfrente a morte, o negativo, e nele se demore. O mesmo fragmento conclui com a condenação, por parte do intelectual honesto, de toda &#8220;colaboração&#8221; ( <em>Mitmachen</em>) com as aparências de reconciliação do real. No fragmento seguinte, Adorno retoma essa exigência de não colaboração, mas adverte numa &#8220;antítese&#8221;: &#8220;Quem não é conivente ( <em>der nicht mitmacht</em>) corre o risco de tomar-se por melhor que os outros e de se aproveitar de sua crítica da sociedade como uma ideologia para seu interesse privado&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Teríamos, então, a seguinte alternativa: ou a filosofia se define como última tentativa de encontrar sentido e consolo, reservando ao filósofo a honra de uma verdadeira missão terapêutica (observação: não afirmo que não haja nem sentido nem consolação, somente digo que não cabe à filosofia a função de tentar encontrá-los), ou, então, como uma lucidez exacerbada que nega qualquer possibilidade de aceitação do existente e confere àquele que a profere a dignidade de uma resistência solitária e estéril.<strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Laços frágeis<br />
</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo conseguir escapar a essas duas armadilhas que confortam o &#8220;ego&#8221; do filósofo, um ego já bastante fragilizado, diga-se de passagem. Tento contorná-las por uma pergunta mais modesta: por que os laços antigos entre atividade filosófica e consolação se tornaram tão frágeis, talvez até tenham se rompido, na filosofia contemporânea? Quais são as razões históricas desse rasgo?</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pistas para uma resposta. A primeira pista orienta a filosofia de Adorno e, de maneira mais ampla, de boa parte da reflexão (filosófica, política, estética) <em>depois </em>de Auschwitz. Se o exercício da filosofia, a <em>askesis</em>, podia me consolar da minha própria morte, me ajudar a enfrentar a finitude, talvez mesmo me ajudar a fazer o trabalho de luto pela morte de um ser próximo, essa bela meditação se revela impotente diante da organização &#8220;racional&#8221; do massacre, diante da &#8220;morte em massa&#8221; (Jorge Semprún). Não se trata mais aqui de concluir uma paz (mesmo provisória) com a morte singular, mas de se defrontar com algo muito pior: com o mal absoluto, com uma negatividade à qual não se pode opor nenhuma positividade. Surge o escândalo da impossibilidade de qualquer síntese. Essa interdição regula os testemunhos impossíveis de um Primo Levi ou de um Robert Antelme: deve-se, sim, contar o horror ( <em>Grauen</em>), mas ele ultrapassa a faculdade de representação humana; deve-se, portanto, narrar sem apelar a nenhum consolo, sem tentar encontrar uma derradeira significação porque qualquer construção de sentido (e de justificativa) equivaleria a uma profanação dos mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra pista possível: essa atitude crítica, mas humilde, é também fruto de uma transformação histórica do discurso e do saber filosóficos. A atividade filosófica não é mais reservada a alguns poucos, aristocratas ociosos e sábios, que encarnam o paradigma de uma humanidade plena &#8211; como ainda era no caso da Grécia Antiga, por exemplo. Ela deveria se dirigir, senão à grande massa, pelo menos a todos os homens de razão, numa universalidade ideal. Essa &#8220;democratização&#8221;, efeito da irradiação do cristianismo e, igualmente, dos movimentos políticos emancipatórios e revolucionários, caracteriza a assim chamada modernidade. Como o faz também o &#8220;desencantamento do mundo&#8221; (Weber), a separação entre as esferas da religião e da ciência.</p>
<p style="text-align: justify;">De um lado, o discurso filosófico se separa do da fé e da religião, do outro ele se endereça, pelo menos potencialmente, a todos os homens &#8211; mas sem poder lhes dar um &#8220;sentido&#8221; para sua vida. Essas duas características da <em>Aufklärung</em> esclarecem por que o filósofo contemporâneo não pode mais gozar de certa indiferença autárquica, contentando-se com a própria sorte e cuidando da própria virtude, sem se preocupar com a vida e a infelicidade de muitos <em>outros</em> (por exemplo, os milhões de vítimas da Shoah). Esclarecem também, quase ironicamente, por que tampouco pode ele se dar por satisfeito com uma consolação que apelaria a uma entidade transcendente: se fizesse isso, o filósofo abandonaria um discurso fundado na ordem da razão &#8211; mesmo que essa razão seja denunciada nas suas deformações e insuficiências como em Adorno e Horkheimer &#8211; e passaria a afirmações de ordem da fé, recaindo na confusão entre discurso filosófico e discurso religioso.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong>Mestres da suspeita</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ora, depois dos três &#8220;mestres da suspeita&#8221; (uma expressão comum tanto a Michel Foucault quanto a Paul Ricoeur), isto é, depois de Nietzsche, Marx e Freud, impõe-se uma atitude filosófica, epistemológica, mas também ética, de resistência à assimilação entre aspirações (legítimas, de certo) a uma vida justa e suas traduções apressadas em doutrinas políticas ou religiosas. Cabe, então, à filosofia certa austeridade da reflexão em oposição ao entusiasmo da crença. Como o disse várias vezes Ricoeur, reputado por leitores superficiais e hostis como sendo um &#8220;filósofo cristão&#8221;, a filosofia só pode ser uma &#8220;filosofia sem absoluto&#8221;, isto é, um discurso ciente dos limites tanto da razão quanto da fé, que não pode pretender encontrar um sentido último nem para a vida humana, nem para a morte, nem para o sofrimento, nem para o mal.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma filosofia que recusa a teodiceia e, igualmente, a totalização da razão hegeliana (deve-se saber &#8220;renunciar a Hegel&#8221;, escreve Ricoeur). Leitor atento de Freud, Ricoeur fez seu diagnóstico psicanalítico da religião: a religião é uma &#8220;compensação da dureza da vida&#8221;, ela não preenche somente um papel repressor de interdição e de elaboração da lei, mas, mais profundamente, responde a um desejo, um &#8220;desejo de proteção e de consolação&#8221;, sendo que &#8220;o nome desse desejo é a nostalgia do pai&#8221; (Paul Ricoeur, <em>Le Conflit des Interprétations</em>, p. 448). Esse desejo, inerente à fragilidade humana, permanece e deve ser, aliás, levado a sério &#8211; mas não cabe à filosofia oferecer respostas e soluções para essa &#8220;nostalgia do pai&#8221;. Ao contrário, seguindo a máxima kantiana, ela deveria nos ajudar a sair de nossa &#8220;menoridade autoculpada&#8221; e nos tornar adultos e autônomos (mesmo que não onipotentes!).</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma: a filosofia não pode nos consolar. Poderia, talvez, nos ajudar a viver uma &#8220;vida sem consolação&#8221;, para retomar a expressão de Camus no <em>Mito de Sísifo</em>. Esse belo ensaio defende um &#8220;pensamento do absurdo&#8221; (porque não se encontra um &#8220;sentido&#8221; último), mas não uma filosofia niilista ou desesperada. Na esteira de Nietzsche e da antiga poesia grega, Camus pelo contrário insiste no esplendor da vida, justamente porque ela é efêmera e mortal, devendo ser vivida plenamente em cada presente. O filósofo cita em epígrafe os versos de Píndaro:</p>
<p style="text-align: left; padding-left: 300px;"><em>&#8220;Oh, cara alma, não aspire à vida imortal,<br />
Mas saiba esgotar o campo do possível!&#8221;</em></p>
<p style="text-align: justify;">Tratar-se-ia de um retorno ao antigo estoicismo grego? Duvido, porque não pode mais existir na modernidade o mesmo sentimento de ordenação do kosmos e de pertencimento do homem à <em>physis</em> universal como no pensamento antigo. Trata-se, isso sim, de uma exortação a permanecer no campo da imanência, na dor e na beleza do mundo. A filosofia não tem mais por tarefa nos ensinar a morrer, mas deve muito mais nos ensinar a viver plenamente, a &#8220;estar vivo até à morte&#8221;, como o diz Ricoeur em suas reflexões póstumas sobre a morte (isto é, sobre o medo da morte e a ignorância insuperável a esse respeito). Essa exigência de vida plena, de &#8220;vida reta&#8221;, como a chama Adorno, retomando a expressão grega, é uma exigência de transformação da imanência sem poder apelar nem a um fundamento metafísico universal nem à garantia de uma presença transcendente. Permanecendo na finitude, a filosofia nos ajuda a reconhecer o sofrimento e a transformar a vida.</p>
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		<title>Reciclando ideias, por Peter Burke</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 11:11:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[caderno mais]]></category>
		<category><![CDATA[ciência 2.0]]></category>
		<category><![CDATA[folha de são paulo]]></category>
		<category><![CDATA[peter burke]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/02/09/reciclando-ideias-por-peter-burke"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/02/peter-burke.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">Artigo publicado no <span style="text-decoration: underline;"><a title="Para assinantes" href="http://go2.wordpress.com/?id=725X1342&amp;site=cienciadoispontozero.wordpress.com&amp;url=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Ffsp%2Fmais%2Ffs2405200912.htm" target="_blank">Caderno Mais! da F. de São Paulo</a></span>, em 24/05/2009.<br />
</span><span style="font-size: x-small;">Encontrei <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://cienciadoispontozero.com/2009/05/24/476/#more-476" target="_blank">a transcrição no Blog Ciência 2.0</a></span>.</span></p>
<p><em>Imagem da inovação como repentina e individual contrasta com a evolução dos saberes, que é gradual e coletiva</em></p>
<p style="text-align: justify;">Muitas pessoas no mundo hoje, especialmente nos domínios dos negócios e da ciência, se dedicam à inovação. Pensam, lecionam e escrevem sobre as maneiras pelas quais se pode estimular, medir e gerir a inovação. Como e por que a inovação acontece, perguntam.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que existem lugares e momentos históricos que parecem mais favoráveis do que outros à inovação?</p>
<p style="text-align: justify;">Florença durante o Renascimento serve como exemplo ou a Inglaterra nos estágios iniciais da Revolução Industrial -quando as máquinas têxteis e locomotivas a vapor e tantas outras máquinas foram inventadas- ou o Vale do Silício [EUA] na década de 1970.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas acreditam que a inovação possa ser encorajada por meio da criação de centros de pesquisa, outras preferem meditação, sessões de discussão ou até mesmo softwares que facilitam a geração de ideias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que exatamente é inovação?</p>
<p style="text-align: justify;">Suspeito que a visão da era do romantismo sobre a inovação continue a prevalecer ainda hoje. De acordo com ela, a inovação é trabalho de um gênio solitário, muitas vezes um professor distraído que carrega uma ideia brilhante na cabeça -aquilo que meu tio, um físico que trabalhava no setor industrial, costumava chamar de “onda cerebral”.</p>
<p style="text-align: justify;">Einstein, por exemplo, ou Isaac Newton, que supostamente descobriu a gravidade quando uma maçã caiu em sua cabeça, ou, no mais famoso dos exemplos, Arquimedes, que saiu correndo nu pelas ruas de Atenas gritando “eureca!”.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto existe uma visão alternativa sobre a inovação, da qual eu por acaso compartilho. De acordo com essa segunda visão, a inovação é gradual em lugar de súbita e coletiva em vez de individual. Não existe uma oposição acentuada entre tradição e inovação. É possível até mesmo identificar tradições de inovação, sustentadas ao longo de décadas, como no caso do Vale do Silício, ou de séculos, como nos campos da pintura e da escultura durante a Renascença florentina.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Novos usos</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong>Por isso, em lugar da metáfora da “onda cerebral”, talvez fosse mais esclarecedor usar como metáfora a reciclagem, o reaproveitamento ou o uso improvisado de materiais.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso da tecnologia serve como exemplo. Na metade do século 15, Johannes Gutenberg inventou as máquinas de impressão. No entanto, prensas estavam em uso na produção de vinho havia muito tempo na Renânia natal de Gutenberg e em muitos outros lugares. Sua brilhante ideia não surgiu do nada; na verdade, representou uma adaptação da prensa de vinho a uma nova função.</p>
<p style="text-align: justify;">A invenção do telescópio por Galileu [1564-1642], da mesma forma, pode ser mais precisamente definida como reinvenção. Ele havia ouvido falar de que alguém na Holanda teria inventado um instrumento para fazer com que as estrelas parecessem maiores. E, assim que obteve essa informação, imediatamente descobriu uma maneira de produzir instrumento semelhante para seu uso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A inovação nas ideias, por exemplo em disciplinas acadêmicas, parece acontecer de maneira semelhante, pela proposição de analogias e adaptação daquilo que já existe a novos propósitos. Alguns historiadores falam em “deslocamento de conceitos” de um campo intelectual a outro.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, a arqueologia se tornou disciplina científica no começo do século 19, quando as pessoas compreenderam que os objetos encontrados em escavações podiam ser datados de acordo com sua profundidade na terra com os “estratos” em que foram encontrados. A linguística, outra nova disciplina que estava em desenvolvimento no começo do século 19, também precisou de adaptação criativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando classificavam idiomas, alguns linguistas se deixaram inspirar pela metodologia que Carl Linnaeus desenvolveu para classificar plantas, enquanto outros seguiram o modelo de “anatomia comparativa” proposto pelo zoólogo Georges Cuvier.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez mais, na metade do século 19, Charles Darwin desenvolveu sua ideia de uma luta pela existência entre as coisas vivas e da sobrevivência dos mais aptos depois de ler o trabalho de Thomas Malthus sobre população. Ele adaptou o que Malthus tinha a dizer sobre os seres humanos ao mundo dos animais e das plantas.</p>
<p style="text-align: justify;">No começo do século 20, quando a antropologia se tornou uma disciplina científica, ela era definida pelo método de “trabalho de campo” no seio de povos “primitivos”. Mas a ideia de trabalho de campo foi inspirada pela história natural, já que os naturalistas se orgulhavam de observar diretamente os animais e plantas em seus habitats naturais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong>Em todos esses casos, seria possível utilizar a expressão “tomado de empréstimo”, mas metáfora melhor seria “tradução”, que enfatiza o trabalho que é preciso realizar quando ideias se movimentam de um lugar ou domínio a outro.</p>
<p style="text-align: justify;">As novas disciplinas oferecem oportunidades especiais para observação ou inovação, já que os fundadores dessas disciplinas foram treinados em outros campos. Por exemplo, os primeiros professores de línguas e literaturas vernáculas foram treinados como estudiosos do grego e do latim clássicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos fundadores da sociologia, Émile Durkheim, estudou filosofia, e outro, Max Weber, era historiador. Os primeiros antropólogos foram recrutados de uma variedade de disciplinas, entre as quais os estudos clássicos (James Frazer), geografia (Franz Boas), medicina (W.H. Rivers), biologia, psicologia e até mesmo geologia. Alguns dos primeiros estudiosos do campo hoje conhecido como biologia molecular haviam estudado física, como Francis Crick, ou química, como Max Perutz.</p>
<p style="text-align: justify;">A inovação nas disciplinas mais estabelecidas muitas vezes segue o mesmo caminho. Um antigo colega meu, o biólogo John Maynard Smith [1920-2004], estudou engenharia. Quando mudou de ramo, passou a observar o corpo humano do ponto de vista de um engenheiro, e isso permitia que visse coisas que haviam escapado à atenção de biólogos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">Analogias e metáforas parecem desempenhar papel essencial no pensamento, da física (vide a ideia de “ondas”, por exemplo) à antropologia, na qual culturas estrangeiras são muitas vezes comparadas a livros que precisam ser lidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas analogias são fundamentais na construção daquilo que o filósofo da ciência Thomas Kuhn [1922-96] costumava designar como “paradigmas” intelectuais. Eu duvido um pouco que seja possível fazer uma lista de regras para a inovação, porque os inovadores muitas vezes quebram as regras em lugar de segui-las. Tampouco estou certo de que seja possível desenvolver uma teoria da inovação.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas seria seguro afirmar que analogias e adaptações têm posição central no processo de inovação.<br />
A reciclagem intelectual é tão importante para a inovação quanto a reciclagem de objetos materiais o é para nossa sobrevivência no planeta.</p>
<p>PETER BURKE é historiador inglês, autor de “O Que É História Cultural?” (ed. Zahar). Tradução de Paulo Migliacci.</p>
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		<title>O valor da Filosofia, Bertrand Russell</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 01:24:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>
		<category><![CDATA[bertrand russell]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/05/31/o-valor-da-filosofia-bertrand-russell"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/05/16b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">Último capítulo do livro <strong>Os Problemas da Filosofia</strong>, de 1912, traduzido por <strong>Jaimir Conte</strong><br />
(disponível <a href="http://www.cfh.ufsc.br/~conte/russell.html" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">aqui</span></a>)<br />
</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Tendo agora chegado ao fim de nossa breve e extremamente incompleta revisão dos problemas da filosofia, será bom considerar, para concluir, qual é o valor da filosofia e por que ela deve ser estudada. É da maior necessidade considerar  esta questão, tendo em vista o fato de que muitos homens, sob a influência da ciência ou dos negócios práticos, tendem a duvidar de que a filosofia seja algo mais que uma ocupação inocente, porém inútil, com distinções sutis e controvérsias sobre questões acerca das quais o conhecimento é impossível.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta visão da filosofia parece resultar, em parte, de uma concepção equivocada sobre os fins da vida, e, em parte, de uma concepção equivocada sobre a espécie de bens que a filosofia procura alcançar. As ciências físicas, mediante suas invenções, são úteis para inúmeras pessoas que as ignoram completamente; assim, o estudo das ciências físicas deve ser recomendado não apenas, ou principalmente, por causa dos efeitos sobre quem as estuda, mas antes por causa de seus efeitos sobre os homens em geral. Esta utilidade não pertence à filosofia. Se o estudo da filosofia tem algum valor para aqueles que não a estudam, deve ser apenas indiretamente, através de seus efeitos sobre a vida daqueles que a estudam. É em seus efeitos, portanto, que se deve primordialmente procurar o valor da filosofia, se é que ela o tem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas antes de tudo, se não quisermos fracassar em nosso esforço para determinar o valor da filosofia, devemos em primeiro lugar libertar nossas mentes dos preconceitos dos que são incorretamente denominados de homens “práticos”. O homem “prático”, como esta palavra é freqüentemente empregada, é alguém que reconhece apenas as necessidades materiais, que compreende que o homem deve ter alimento para o corpo, mas se esquece que é necessário procurar alimento para o espírito. Se todos os homens vivessem bem; se a pobreza e as enfermidades tivessem já sido reduzidas o máximo possível, ainda haveria muito a fazer para produzir uma sociedade verdadeiramente válida; e mesmo neste mundo os bens do espírito são pelo menos tão importantes quanto os bens materiais. É exclusivamente entre os bens do espírito que o valor da filosofia deve ser procurado; e só os que não são indiferentes a estes bens podem persuadir-se de que o estudo da filosofia não é perda de tempo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A filosofia, como os demais estudos, visa primeiramente o conhecimento. O conhecimento que ela tem em vista é aquela espécie de conhecimento que confere unidade e organização sistemática a todo o corpo do saber científico, bem como o que resulta de um exame crítico dos fundamentos das nossas convicções, dos nossos preconceitos, e das nossas crenças. Mas não se pode dizer, no entanto, que a filosofia tenha tido algum grande êxito na sua tentativa de dar respostas definitivas à suas questões. Se perguntarmos a um matemático, a um mineralogista, a um historiador, ou a qualquer outro homem de saber, que conjunto de verdades concretas foi estabelecido pela sua ciência, sua resposta durará tanto tempo quanto estivermos dispostos a lhe dar ouvidos. Mas se fizermos essa mesma pergunta a um filósofo, terá que confessar, se for sincero, que a filosofia não alcançou resultados positivos como os que foram alcançados por outras ciências. É verdade que isso se explica, em parte, pelo fato de que, assim que se torna possível um conhecimento preciso naquilo que diz respeito a determinado assunto, este assunto deixa de ser chamado de filosofia e torna-se uma ciência especial. Todo o estudo dos corpos celestes, que hoje pertence à astronomia, incluía-se outrora na filosofia; a grande obra de Newton tem por título: Princípios matemáticos da filosofia natural. De maneira semelhante, o estudo da mente humana, que fazia parte da filosofia, está hoje separado da filosofia e tornou-se a ciência da psicologia. Deste modo, a incerteza da filosofia é, em grande medida, mais aparente que real: os problemas para os quais já se tem respostas positivas vão sendo colocados nas ciências, enquanto que aqueles para os quais não se encontrou até hoje nenhuma resposta exata, continuam a constituir esse resíduo que denominamos de filosofia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta é, no entanto, apenas uma parte da verdade sobre a incerteza da filosofia. Existem muitos problemas ainda – e entre estes os que são do mais profundo interesse para a nossa vida espiritual – que, na medida do que podemos ver, deverão permanecer insolúveis para o intelecto humano, a menos que seus poderes se tornem de uma ordem inteiramente diferente daquela que é atualmente. Tem o universo alguma unidade de plano ou de propósito, ou é um concurso fortuito de átomos? É a consciência uma parte permanente do universo, dando-nos esperança de um aumento indefinido da sabedoria, ou ela não passa de um acidente transitório num pequeno planeta no qual a vida acabará por se tornar impossível? São o bem e o mal importantes para o universo ou apenas para o homem? Estes são problemas colocados pela filosofia, e respondidos de diversas maneiras por vários filósofos. Mas parece que, quer seja, ou não seja possível, descobrir de algum modo respostas, nenhuma das respostas sugeridas pela filosofia pode ser demonstrada como verdadeira. E, no entanto, por fraca que seja a esperança de vir a descobrir uma resposta, é parte do papel da filosofia continuar a examinar tais questões, tornar-nos conscientes da sua importância, examinar todas as suas abordagens, mantendo vivo o interesse especulativo pelo universo, que correríamos o risco de deixar morrer se nos limitássemos aos conhecimentos claramente verificáveis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">É verdade que muitos filósofos sustentaram que a filosofia pode estabelecer a verdade de certas respostas a tais problemas fundamentais. Supuseram que o mais importante no campo das crenças religiosas pode ser provado como verdadeiro por meio de demonstrações rigorosas. Para julgar estas tentativas, é necessário fazer uma investigação sobre o conhecimento humano, e formar uma opinião quanto a seus métodos e às suas limitações. Sobre estes assuntos é insensato nos pronunciarmos dogmaticamente. Mas se as investigações de nossos capítulos anteriores não nos induziram ao erro, seremos forçados a renunciar à esperança de descobrir provas filosóficas para as crenças religiosas. Não podemos incluir, portanto, como parte do valor da filosofia, uma série de respostas definidas a tais questões. Mais uma vez, portanto, o valor da filosofia não depende de um suposto corpo de conhecimentos definitivamente verificáveis, que possam ser adquiridos por aqueles que a estudam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza. O homem que não tem a menor noção da filosofia caminha pela vida afora preso a preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época e do seu país, e das convicções que cresceram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento deliberado de sua razão. Para tal homem o mundo tende a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objetos habituais não levantam problemas e as possibilidades estranhas são desdenhosamente rejeitadas. Ao contrário, quando começamos a filosofar imediatamente nos damos conta (como vimos nos primeiros capítulos deste livro) que mesmo as coisas mais vulgares levantam problemas para os quais só podemos da respostas muito incompletas. A filosofia, embora incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira para as dúvidas que ela própria suscita, é capaz de sugerir diversas possibilidades que ampliam os nossos pensamentos, livrando-os da tirania do hábito. Desta maneira, embora diminua nosso sentimento de certeza sobre o que as coisas são, aumenta muito nosso conhecimento sobre o que as coisas podem ser; rejeita o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e mantém vivo nosso sentimento de admiração, mostrando as coisas familiares num determinado aspecto não familiar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Além de sua utilidade ao mostrar possibilidades insuspeitadas, a filosofia tem um valor – talvez seu principal valor – por causa da grandeza dos objetos que ela contempla, e da liberdade proveniente da visão rigorosa e pessoal resultante de sua contemplação. A vida do homem reduzido ao instinto encerra-se no círculo de seus interesses particulares; a família e os amigos podem estar incluídos, mas o resto do mundo para ele não conta, exceto na medida em que possa ajudar ou impedir o que surge dentro do âmbito dos desejos instintivos. Numa tal vida existe algo de febril e limitado, em comparação com a qual a vida filosófica é serena e livre. Colocado no meio de um mundo vasto e poderoso que mais cedo ou mais tarde deverá reduzir nosso mundo privado em ruínas, o mundo privado dos interesses instintivos é muito pequeno. A menos que ampliemos os nossos interesses de maneira a compreender todo o mundo exterior, estaremos na condição de uma guarnição numa praça sitiada, sabendo que o inimigo não a deixará fugir e que a capitulação final é inevitável. Não há paz em tal vida, mas uma luta contínua entre a insistência do desejo e a impotência da vontade. De uma maneira ou de outra, se pretendemos uma vida grandiosa e livre, devemos evadir-se desta prisão e desta luta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A contemplação filosófica é uma das formas de evasão. A contemplação filosófica, na sua visão mais ampla, não divide o universo em dois campos adversos: amigos e inimigos, aliados e adversários, bons e maus; ela encara o todo imparcialmente. A contemplação filosófica, quando é pura, não visa provar que o restante do universo é semelhante ao homem. Toda a aquisição de conhecimento é um alargamento do nosso Eu, mas este alargamento é melhor alcançado quando não é procurado diretamente. Este alargamento é alcançado, quando opera exclusivamente o desejo de conhecimento, por um estudo que não deseja antecipadamente que seus objetos tenham esta ou aquela característica, mas que adapta o Eu às características que encontra em seus objetos. Este alargamento do Eu não é obtido quando, tomando o Eu como ele é, tentamos mostrar que o mundo é tão similar a este Eu que seu conhecimento é possível sem qualquer aceitação do que parece estranho. O desejo de provar isto é uma forma de auto-afirmação, constitui um obstáculo ao alargamento que deseja do Eu, e do qual o Eu sabe que é capaz. A auto-afirmação, na especulação filosófica como em tudo o mais, vê o mundo como um meio para seus próprios fins; assim, faz menos caso do mundo do que do Eu, e o Eu coloca limites à grandeza de seus bens. Na contemplação, pelo contrário, partimos do não-Eu e, por meio de sua grandeza os limites do Eu são ampliados; através da infinidade do universo a mente que o contempla participa um pouco da infinidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Por esta razão a grandeza da alma não é promovida por aquelas filosofias que assimilam o universo ao Homem. O conhecimento é uma forma de união do Eu com o não-Eu. Como toda união, ela é prejudicada pelo domínio, e, portanto, por qualquer tentativa de forçar o universo a estar em conformidade com o que descobrimos em nós mesmos. Existe uma tendência filosófica muito difundida em relação à visão que nos diz que o Homem é a medida de todas as coisas; que a verdade é uma construção humana; que o espaço e o tempo, e o mundo dos universais, são propriedades da mente, e que, se existe algo que não seja criado pela mente, é algo incognoscível e sem qualquer importância para nós. Esta visão, se nossas discussões anteriores estavam corretas, não é verdadeira; mas além de não ser verdadeira, ela tem o efeito de despojar a contemplação filosófica de tudo aquilo que lhe dá valor, visto que ela aprisiona a contemplação ao Eu. O que tal visão chama de conhecimento não é uma união com o não-Eu, mas uma série de preconceitos, hábitos e desejos, que constituem um impenetrável véu entre nós e o mundo para além de nós. O homem que se compraz numa tal teoria do conhecimento humano assemelha-se ao homem que nunca abandona seu círculo doméstico por receio de que fora dele sua palavra não seja lei.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A verdadeira contemplação filosófica, ao contrário, encontra a sua satisfação na própria ampliação do não-Eu, em tudo o que engrandece os objetos contemplados e, desse modo, o sujeito que contempla. Na contemplação, tudo aquilo que é pessoal e privado, tudo o que depende do hábito, do interesse pessoal, ou do desejo, deforma o objeto e, por isso, prejudica a união que a inteligência busca. Levantando uma barreira entre o sujeito e o objeto, as coisas pessoais e privadas tornam-se uma prisão para o intelecto. O intelecto livre deverá enxergar assim como Deus pode ver: sem um aqui e agora; sem esperança e sem medo; isento das crenças habituais e dos preconceitos tradicionais: de forma calma e desapaixonadamente, com o único e exclusivo desejo de conhecimento – um conhecimento tão impessoal, tão puramente contemplativo, quanto seja possível a um homem alcançar. Por isso, o espírito livre valorizará mais o conhecimento abstrato e universal no qual não entram os acidentes da história particular, do que o conhecimento trazido pelos sentidos, o qual depende – necessariamente – de um ponto de vista pessoal e exclusivo, e de um corpo cujos órgãos dos sentidos distorcem tanto quanto revelam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A mente que se habituou à liberdade e imparcialidade da contemplação filosófica preservará alguma coisa dessa mesma liberdade e imparcialidade no mundo da ação e emoção. Encarará seus objetivos e desejos como partes do Todo, com o desprendimento que resulta de considerá-los como fragmentos ínfimos de um mundo em que todo o resto não é afetado pelas ações dos homens. A imparcialidade, que na contemplação é o desejo puro da verdade, é aquela mesma qualidade espiritual que no âmbito da ação é a justiça, e que no âmbito da emoção é o amor universal que pode ser dado a todos e não apenas àqueles que são considerados úteis ou admiráveis. Assim, a contemplação amplia não apenas os objetos de nossos pensamentos, mas também os objetos das nossas ações e dos nossos sentimentos: ela nos torna cidadãos do universo, e não apenas de uma cidade cercada por muros, em estado de guerra com tudo o mais. A verdadeira liberdade humana, liberta da prisão das esperanças e temores mesquinhos, consiste nesta condição de cidadãos do mundo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Enfim, para resumir a discussão do valor da filosofia, ela deve ser estudada, não em virtude de quaisquer respostas definitivas às suas questões, uma vez que nenhuma resposta definitiva pode, via de regra, ser conhecida como verdadeira. Ela deve ser estudada por causa dos próprios problemas, porque estes problemas ampliam as concepções que temos acerca do que é possível, enriquecem a nossa imaginação intelectual e diminuem a arrogância dogmática que impede a especulação mental; mas sobretudo porque, graças à grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também engrandece e se torna capaz daquela união com o universo que constitui seu bem supremo.</span></p>
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		<title>Literatura é «uma arte que fala em silêncio», Luís Carmelo</title>
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		<pubDate>Mon, 25 May 2009 18:16:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[leituras]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/05/25/literatura-e-«uma-arte-que-fala-em-silencio»-luis-carmelo"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/05/15b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;"><em>O <a href="http://www.pnetliteratura.pt" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">PNET Literatura</span></a> é um site de literatura que concilia os observatórios de crítica, as pré-publicações e os inéditos literários de autores reconhecidos. <strong><br />
Luís Carmelo</strong> falou ao <a href="http://rascunho.iol.pt/index.php" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">RASCUNHO</span></a> acerca das relações entre o sítio, a rede e a literatura.<br />
<span style="color: #ffffff;">_</span></em></span></p>
<p><strong>O PNET Literatura foi criado com que objectivo?</strong></p>
<p class="MsoNormal">Esse foi o desafio que nos foi lançado quando fui convidado para editor. E tive de pensar muito porque hoje em dia há um problema de excesso de oferta, há muito ruído, muita redundância. Já se fez tudo. Todos os dias há novos balões de ensaio, ainda bem que é assim. Estive a pensar num conceito que não iria dar a proeminência à informação que é aquilo de que há mais ruído. Embora haja uma rubrica que todos os dias é actualizada – as curtas – que é informação pura e dura, não quis fazer disso o centro do site porque de informação há imensos e óptimos sites.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>Pensou então numa estratégia. </strong></p>
<p class="MsoNormal">Percebi que era muito importante, em primeiro lugar, fazer um banco de inéditos de escritores muito reconhecidos. Não necessariamente consagrados, podiam ser jovens em idade, mas muito atractivos. Em segundo lugar, percebi que a crítica como hoje a conhecemos não é o mesmo do que existia há trinta ou quarenta anos. Precisaria convidar três pessoas muito apropriadas para fazerem três observatórios. Uma só fixada no romance, observando o fenómeno da criação do romance hoje. Outro faria o mesmo com a poesia, tinha de estar no centro do fazer poética e compreendê-la profundamente. O terceiro observatório que imaginei é uma coisa que vi muito pouco é o observatório de tradução: ver quem traduz, o que se traduz e os problemas que se levantam com a tradução literária. Isto não é bem o papel de um crítico, é o de quem consegue observar tudo o que se passa e seleccionar algo muito em particular todas as semanas e falar sobre isso.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>Mas o PNET literatura é um pouco mais do que isso…</strong></p>
<p class="MsoNormal">Sim. Houve outras rubricas que criei que não constituindo elas mesmas o centro do projecto, complementam-no. Mini-entrevistas, ou seja, não aquela longa entrevista como aquela que está aqui a ser feita e muito bem feita (risos), mas o modelo de pequena entrevista cirúrgica que sobretudo confronta as pessoas com o dilema literatura <em>versus</em> rede. Uma outra rubrica é o Destaque na Rede: encontrar espaços na rede que falem de literatura e que reflictam a literatura. Todas as semanas há pré-publicações. Depois foi-se também acumulando um bando de correspondentes. Pessoas que estão em várias partes do mundo e que enviam crónicas sobre eventos literários.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>Mas do próprio site também saem obras literárias.</strong></p>
<p class="MsoNormal">Na galeria de residentes, há escritores que vão publicando inéditos no nosso site e ao fim de um certo tempo esses inéditos juntos podem original obra em papel. Isso por exemplo está a acontecer com um texto muito curioso: um dicionário do Gonçalo M. Tavares, mas também com um texto do Almeida Faria que irá sair em papel muito em breve.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>A relação que o PNET literatura estabelece com as pessoas é diferente do formato papel.</strong></p>
<p class="MsoNormal">Sim, uma coisa é ter uma revista e ter um site da revista. Sabe-se que a função primeira é a função do papel que estabelece uma ligação que não é interactiva, cria no leitor o elo passivo. Aqui pretende-se criar uma interactividade à partida, mas com um conjunto de rubricas que só têm razão de ser na rede. Ou seja, cuja leitura, muitas vezes transversal, se adequa à rede. Falo mais do carácter leve, rodopiante e flexível do observatório e não da crítica pura e dura. São de facto conceitos diferentes que só se percebem vendo no <em>work in progress</em>, no dia-a-dia.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>E quem são os leitores do site? </strong></p>
<p class="MsoNormal">O site é feito sem concessões. Sem objectivos de traduzir a linguagem que lá de desenvolve para outrem, mas não se pensa num público definido à partida. O próprio site é que cria o seu público, como um livro. Hoje em dia a criação de públicos é uma coisa muito mais dispersa, muito mais disseminada, mais incerta, mas isso faz parte do nosso tempo. No primeiro editorial, uma das coisas que dizia e sobre a qual já escrevi muitas vezes, é que o modo como significamos hoje a literatura é diferente do modo como nos habituámos a significar literatura desde o fim do século XVIII. Há alterações profundas na nossa sociedade que desestruturaram completamente o tipo comunicacional onde vivíamos. Os escritores dos anos trinta e quarenta eram autênticos senadores da influência. Hoje em dia não são. Essa função de uma actividade quase sacralizada saltou para a dimensão da imagem. As pessoas hoje em dia querem ter à sua frente uma caixinha com imagens que mexem. Um bocadinho os neoflinstones.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>Prefere-se então a imagem…</strong></p>
<p class="MsoNormal">Tornou-se um bocado um fastio, uma espécie de contra-corrente do tempo estar horas, em silêncio, a apreender um discurso que avança diacronicamente e que nos trabalha uma imaginação sem ter de ser excitada de fora através de efeitos de sentido visuais, tácteis e corporais.<strong> </strong>A literatura hoje em dia não faz parte do eixo central das nossas tipologias comunicacionais. Mudou de sentido. Mesmo que não queiramos reflectir sobre este fenómeno, ela não é o mesmo que era. Assumi isso quando se iniciou este projecto e penso que esta reflexão está subjacente.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>Quer então dizer que vão apostar nessa literatura mais «excitacional»?</strong></p>
<p class="MsoNormal">Não, não. Vamos manter-nos por aquilo que na tradição literária a literatura é: só letra. Aliás, se se vir no site, mesmo no fundo, há um sítio que diz vídeos. Só lá está para marcar posição. Mas acho que desde que foi criada a PNET literatura colocaram-se lá apenas cinco ou seis sites ligados à literatura. A rede está cheia disso. Está cheia de bonecos que mexem e projectam a nossa imagem. Ali queremos leitura. É uma arte que fala em silêncio, a literatura. E queremos que isso aconteça ali, mesmo contra a corrente dominante. É dessa matéria que é feita a literatura. Desse silêncio, desse sigilo, dessa introspecção, desse toca que toca sem que nos toquemos, mas tocamo-nos.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>Isso nunca levantou problemas em termos de mercado? Não vos foi exigido um número mínimo de leitores?</strong></p>
<p class="MsoNormal">A rede PNET tem evidentemente também funções de ordem económica. Está no mercado, é evidente. Mas dentro da rede, a PNET Literatura à partida não teve nenhuma compulsão que tivesse a ver com o número de visitantes, com objectivos quantitativos. Nunca quis subordinar os resultados positivos ou negativos do projecto a esse tipo de factor. Como o administrador e dono da rede é muito generoso isto pode fazer-se. Mas mesmo assim, nós chegámos aos 100 mil visitantes ao fim de quatro meses ou quatro meses e meio, o que não é nada mau.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>E no futuro. Novos rumos ou novas apostas?</strong></p>
<p class="MsoNormal">A nossa galeria de escritores residentes vai aumentar muito em breve. Não posso ainda dizer nomes, mas posso dizer que vamos saltar para os continentes todos onde se fala português. Vamos saltar para o Brasil, para Angola, para Moçambique e talvez Cabo Verde. Isto sem ter nada a ver com os correspondentes. Vamos ter escritores que escrevam nesses locais e que produzam inéditos regularmente.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>O Luís Carmelo tem-se dividido entre aulas, romances, cursos de Escrita Criativa e o PNET Literatura. Não é difícil gerir o tempo?</strong></p>
<p class="MsoNormal">Só sei viver tendo várias actividades ao mesmo tempo. Penso que trabalho melhor em cada uma das actividades, sendo actividades muito diferentes. É evidente que se põe a questão do tempo, mas a questão do tempo enquanto vivermos há-de sempre pôr-se. Os meios fundamentais: tempo e dinheiro. O dinheiro é um problema eterno, mas temos de viver sobre uma base mínima. O tempo é uma gestão mais complexa, mas é tão complexa que é quase poética, porque é indizível, é imutável. É muito difícil explicar como é que o tempo se consome e se expande. Há fases em que o tempo se consome e parece que não existimos e há fases em que sinto as coisas diabolicamente, consigo fazer coisas tão diferentes e ao mesmo tempo que fico admirado. Há ritmos secretos que passam por nós, mas no meu caso consigo arranjar tempo perfeitamente e dificilmente o arranjaria se fosse virado apenas para uma actividade, se picasse o ponto só num emprego, por exemplo.</p>
<p class="MsoNormal"><strong>E um novo livro. Para quando?</strong></p>
<p class="MsoNormal">Para já, para já, está prevista uma reedição da <em>Falha</em>. Tenho um ensaio pronto, inteiro, sobre um jovem escritor português que já é um bocadinho consagrado. Houve uma série de solavancos, por isso não quero ainda dizer, mas tenho o ensaio pronto desde o final do ano passado. Tenho também dois romances a meio, mas confesso que estão os dois um bocadinho numa terra de ninguém, à espera que haja uma pequena revelação.<br />
<span style="color: #ffffff;">_</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">Entrevista realizada por <a href="http://rascunho.iol.pt/perfil.php?id=79" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;"><strong>Elsa Caetano</strong></span></a>, no site português <a href="http://rascunho.iol.pt/index.php" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;"><strong>Rascunho</strong></span></a></span></p>
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