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	<title>nada pessoal &#187; escritos</title>
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		<title>O paradoxo do qual partimos</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 15:22:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/08/o-paradoxo-do-qual-partimos/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/03/salvador-dali.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aproveitando a leitura do ótimo artigo “<strong>Uma vida sem consolação</strong>” (de Jeanne-Marie Gagnebin, na Cult de Fevereiro, disponível <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/03/02/uma-vida-sem-consolacao-por-jeanne-marie-gagnebin/" target="_blank">aqui</a></span>) e traçando um paralelo com o esclarecedor capítulo de “<strong>Os Problemas da Filosofia</strong>” (de Bertrand Russell, em 1912, disponível <a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/05/31/o-valor-da-filosofia-bertrand-russell/" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">aqui</span></a>), permita-me esse breve registro de um questionamento filosófico falido.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong>O que nos consola?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Todos, se pararmos para pensar cinco minutos que sejam sobre a vida, logo empacaremos diante do grande questionamento de todos os tempos, aquele sobre o seu sentido. Portanto, não é nenhuma novidade essa questão, como também até agora não há nenhuma resposta conclusiva a ela. Sabemos bem que a Filosofia não oferece respostas, não sabemos<sup> [1]</sup>? Bom, se pensarmos que importante é o percurso rumo a essa reposta inalcançável e a habilidade em não se deixar levar só pela razão ou ludibriar pela fé, ambas em diferentes extremos<sup> [2]</sup>, então o que nos consola não havendo um ponto de chegada?</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong> O ignóbil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dia desses, eu estava de carro no belo trânsito das 18hrs e aproveitei o engarrafamento para imaginar as pretensões de felicidade que cada veículo conduzia. Apesar de todas as diferenças, somos tão elementares, certo? Algumas horas antes, eu havia assistido a um programa no Discovery sobre a ação de certos parasitas no organismo humano, que ficam latentes por décadas ou agindo sorrateiramente até agravarem irreversivelmente a saúde. Não preciso dizer o tipo de mal que eles causam e o quão engenhosos eles são.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto é que a Natureza possui sua dinâmica sendo um complexo vivo que tende ao equilíbrio, com o Homem em busca da felicidade e os animais procurando apenas manter a própria espécie (ainda que o Homem ameace tal equilíbrio constantemente, mesmo sendo peça dessa engrenagem). Porém, supondo que seja essa busca da Natureza pelo equilíbrio o que faz com que diferentes filósofos procurem o sentido da vida, nem mesmo essa premissa oferece uma via possível ou passível de Verdade (com esse &#8220;v&#8221; maiúsculo temível). Pois sabemos que a Natureza, para se equilibrar, é capaz de maldades ignóbeis, afinal, por que os parasitas microscópicos agem daquela maneira engenhosamente danosa? Por que os seres humanos se destroem do modo como vemos todos os dias, ameaçando sem piedade a felicidade da própria espécie? E, como, em meio a todo esse mal existente no mundo, há também e na mesma proporção tanta beleza?</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong> A beleza e a dor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eis só até onde eu gostaria de chegar: a dúvida. Ao final, sempre ela, essa deusa fugidia, miríade de questionamentos implícitos em uma única pergunta: qual o sentido de tudo isso? E se você parte em busca da resposta, evitando os caminhos extremos da racionalidade e da fé, não há como chegar a algum lugar no qual já não estejam lhe recepcionando, lado a lado, a beleza e a dor da vida, como duas inimigas de mãos dadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa contradição lhe surpreender, será porque está sendo racional demais. E se isso não lhe surpreender, será porque acredita em coisas demais. No fundo, no fundo, há que se conviver assim, com a constante contradição, seja qual caminho se adote. A beleza e a dor são inconciliáveis, porém convivem como condição básica da vida na Terra. A única certeza a que se chega, quase como um ponto passivo entre os filósofos, é a respeito de nossa finitude, de nossa incapacidade, seja em abarcar tudo, seja em suportar tanto. E esse não é o sentido da vida, longe disso, esse é apenas o começo do percurso.</p>
<p><a></a></p>
Notas:<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1720" class="footnote">“O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza”, Russell</li><li id="footnote_1_1720" class="footnote">leia a reflexão sobre as duas características da <em>Aufklärung</em>, no artigo de Gagnebin</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Do banal ao estético ou vice-versa</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 12:11:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[7 letras]]></category>
		<category><![CDATA[andré sant'anna]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
		<category><![CDATA[inverdades]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/02/27/do-banal-ao-estetico-ou-vice-versa"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/02/inverdadesb.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/02/inverdades.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1663" title="Inverdades" src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/02/inverdades.jpg" alt="" width="67" height="96" /></a>Resenha crítica do livro <strong><br />
<a href="http://www.7letras.com.br/detalhe_livro/?id=753" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Inverdades</span></a></strong><br />
<span style="font-size: x-small;"><span style="color: #888888;">(</span><span style="color: #888888;">7 Letras, 2009, R$ 22)</span></span></p>
<p>de <strong>André Sant’Anna</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Imagine se o atacante Ronaldo não fosse o “fenômeno” do futebol ou se Marilyn Monroe tivesse vivido algumas boas décadas a mais. Já imaginou isso? Agora, pense em Duke Ellington e Miles Davis conversando sobre música, no cenário óbvio de um cemitério. E então? Tem também a Sandy se despedindo da família através de uma singela carta reveladora. Ou Roberto Carlos, Erasmo e Tim Maia como três colegas suburbanos sem sucesso, além de George Bush se embebedando num <em>pub</em> inglês. Bom, a essa altura você já percebeu que por aí vai, através de mais nove contos de sinopses como estas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois esse é o universo ficcional de “<strong>Inverdades</strong>” (7 Letras, 2009, R$ 22), quinto livro do controvertido <strong>André Sant’Anna</strong>, no qual o escritor mineiro joga com as possibilidades da ficção e vai do banal à criação estética. Ou seria o contrário? O certo é que nem precisamos ir até o conto que melhor responde essa dúvida: “Gases”. Afinal, desde “Lula, lá, de novo”, que abre o livro, já se nota com que fio o autor irá costurar suas histórias.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste primeiro, dividido em duas partes, a personagem que começa como o Presidente da República passa ao mero Lula, deixando de ser simulacro para se tornar analogia, sem perder em referencialidade. Como é que é? No conto, o Presidente da República, do primeiro mandato, é também o Lula, do segundo, assim como ambos são o bem conhecido Luiz Inácio Lula da Silva, aquele da realidade. Tudo muito óbvio, eu sei. O ponto é que, de saída, o escritor já está mandando um segundo recado.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro estava na epígrafe da obra, em que ele diz que “qualquer semelhança com fatos reais, neste livro, é mera coincidência”. Agora, com essa primeira história, a qual ecoará lá na última, “Fim”, o autor está não só fazendo piada a respeito de coincidências e correspondências inevitáveis, mas também avisando que será no âmbito dessas relações óbvias e superficiais que o livro imergirá.</p>
<p style="text-align: justify;">A que “Inverdades”, então, o título nos remete? Procuro, na sequência desta resenha, apresentar o cenário em que a resposta desta pergunta atua. Enquanto o escritor maneja cenas triviais e até íntimas do cotidiano de suas personagens, desvendamos sob o véu das banalidades reflexões interessantes sobre a vida de personagens, personalidades e pessoas.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Representação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Essa ambivalência da representação, que se pode notar já no primeiro conto, ela não é posta ensejando tese ou oferecendo moralidade. O livro é ao mesmo tempo despojado e rico, mas, antes de tudo, despojado. Parte de personalidades conhecidas as tornando meros signos lingüísticos dentro do espaço literário, tanto pela depuração da escrita de seu autor quanto pelo conteúdo de suas vidas ficcionalizadas. Os papéis se invertem, porque as personalidades são deixadas de lado e as personagens entram em cena. O que seria óbvio em uma obra de ficção, aqui ganha um status diferente, devido à relação que a obra nutre com a realidade. Portanto, não é o poder de representação que é fundamental, mas o que depreendemos dele enquanto recurso. E Sant’Anna logra êxito ao dissolver assim a fronteira entre ficção e realidade, estabelecendo um caminho curto entre a leitura e sua intelecção, devido a esse jogo com o real ao rechear o livro com personalidades conhecidas de todos nós. Esse conhecimento compartilhado é o que nos leva a aliar os mundos possíveis ao mundo real e partilhar com o autor de seu jogo literário.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, não nos causa estranheza a carta de Sandy aos pais, em “She’s leaving home”, pois o contexto para compreendê-la já está posto de antemão. Esse pressuposto, evidente neste conto, se torna peculiar quando notamos as diferenças de opiniões entre Duke Ellington e Miles Davis, a respeito de ritmo e harmonia. Um conhecimento de mundo mais amplo torna “Bitches brew” mais interessante, porém não é pré-requisito. Assim como não é para entender o quão dolorosa é a batalha travada por Charlie Parker, ou por Jimi Hendrix, com o chamado “algo” misterioso, a busca incessante e por vezes angustiante que muitos artistas empreendem no caminho da criação.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as histórias são conhecidas ou reconhecíveis, com seus mundos possíveis tangenciando os nossos, devido a esse conhecimento compartilhado do qual o autor toma posse e resignifica, mergulhando na ambivalência da representação e explorando tanto as possibilidades quanto suas conseqüências imaginárias.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Estilo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso, com Sant’Anna lançando mão de alguns recursos, através dos quais reconhecemos seu estilo. Um deles é a repetição, que, segundo ele, em cada livro possui uma função diferente, e que em “<strong>Inverdades</strong>” contribui para a dupla face da representação que o escritor empreende. De um lado, esse recurso tipifica as personagens até torná-las símbolos densos. De outro, as artificializa de modo a usá-las como elemento de texto: “o jato de ar que saía desse exaustor entrava por baixo do vestido de Marilyn Monroe, levantando o vestido de Marilyn Monroe. Marilyn Monroe tentava impedir&#8230;”. Ora, Marilyn Monroe se torna uma figura de linguagem, traço lexical funcionando como uma nota que se repete em toda a melodia do conto. Essa artificialização a planifica, mas no contexto dá-lhe densidade, tornando a ambivalência não apenas um elemento da linguagem do jogo literário, mas também um de seus temas: a personagem Marilyn e sua história e a pessoa Marilyn e seu mito. São planos ficcionais que se interpenetram, pois no conto acompanhamos a personagem Marylin que ganhou história de vida, diferente da realidade, a qual legou a Marylin Monroe o papel do mito que todos conhecemos. A ambivalência opera como inversão entre o real e o ficcional, pondo em questão o sentido da representação.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros traços estilísticos do autor remetem a uma linguagem que bebe da ficção cinematográfica. Em tal medida que, em um momento ou outro, percebe-se a relação estreita com roteiros cinematográficos, os quais procuram apontar o essencial para a ação que a cena desenvolve, permitindo ao diretor preencher os espaços e ampliar o período entre um corte e outro. Tal economia de palavras e descrição ágil ajusta o foco da narrativa, contorna o desenho da cena que o narrador deseja mostrar, agindo com eficácia em nossa percepção já familiarizada com esse tipo de linguagem visual. É como Luciana, no conto “Simpatia pelo demônio”, esbarra em Mick Jagger, desviando o foco da ação e mudando o rumo da história, como um plano sequência que sofre um corte. Esse recurso aparece em outros momentos do livro, contribuindo para o ritmo do enredo e conduzindo a leitura de modo preciso.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Versus experimentalismo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O estilo de Sant’Anna, portanto, é evidente já na superfície de cada conto, para que todos notem que ele, talvez, não seja um bom contador de histórias, no sentido mais tradicional, aquele que privilegia mais o enredo do que a linguagem. O que seria uma bobagem, enquanto crítica, pois em que manual literário uma boa história só pode ser contada neste sentido tradicional?</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo ele, alguns críticos o acusam de escrever mal justamente devido a esse estilo. Ora, podemos não gostar de ler histórias através da linguagem com que esse autor conta as suas (particularmente, eu não gosto), mas não será isso que o fará um contador menos hábil. Tal estilo deve-se a diversos fatores, tanto na trajetória pessoal do músico, escritor e publicitário, quanto devido ao modo como ele enxerga a literatura, principalmente em contraste em relação a seu pai, o também escritor Sérgio Sant’Anna. E percebe-se, sem que ele precise responder a isso em alguma de suas entrevistas que li, que seu intuito com a linguagem não é acomodar histórias em um formato tradicional, e sim buscar uma maneira diferente de contá-las, uma maneira própria.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis como ele arrisca algo diferente (ainda que bebendo da fonte agrippiniana), mas sem cair num experimentalismo formal que possa dificultar a leitura de suas histórias. Pelo contrário, pois o escritor não cai no equívoco de sobrecarregar seu leitor com exercícios literários ou caçoar de sua sensibilidade facilitando o enredo. Assim, ele consegue situar seus contos entre o risco de uma transgressão e o lugar estável do óbvio, sendo talvez esse equilíbrio seu maior mérito.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, com a sociedade cada vez mais acostumada ao simples e direto, penso ser um êxito um autor conseguir usar desse expediente para se comunicar com seus leitores. Pois Sant’Anna provoca reflexões ao mesmo tempo em que entretém, sem necessariamente apresentar uma literatura fácil, a despeito de sua aparente simplicidade.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Humor, Frustração e Algo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Simplicidade que esconde certo cinismo e algum sarcasmo, ambos embalados por um humor que, não raro, provoca sim boas risadas. Algumas vezes, a risada pela risada: “- Como vai, Miles? &#8211; Morto, como sempre, Duke”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como não poderia deixar de ser, nessa linguagem insinuante o humor pode ser negro, a ponto do sarcasmo de seu autor tornar ainda mais aguda a crítica que está sendo feita: “Justus, para quem Justus era o troço mais importante vivo sobre a Terra, reclamou para Adriane (ou seria Eliana?): ‘Quem esse João Gilberto pensa que é?’Adriane (ou seria Eliana?), para quem a carreira artística (!!??) era a razão de sua existência, não reclamou de nada e continuou a conversar animadamente com as pessoas importantíssimas que estavam na mesa patrocinada por Justus.”</p>
<p style="text-align: justify;">São as espécies de humor com as quais Sant’Anna tempera os contos, que explicitam o contraste entre o mundo das pessoas comuns e o das celebridades, levando a um extremo que chega a anular essa diferença, como quando lemos, em “O povo estava todo lá,” um bando de gente famosa num momento qualquer do Carnaval, aliás, quando “a letra do samba-enredo da escola de pequeno porte contava a história, a vida e a obra do acadêmico Paulo Coelho.”</p>
<p style="text-align: justify;">O autor também, por vezes, expõe com dureza a face íntima de suas personagens, seja o Ronaldo que despreza sua vida ou a Marilyn bem sucedida que às vezes deseja ser só aquela do ventinho em baixo do vestido. A frustração é um tema caro e o desprezo à própria existência uma de suas conseqüências evidentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso está na raiz da despedida de Sandy, que parte em busca de algo mais para si, sugerindo aos pais que dêem maior atenção ao irmão Junior, pois ele gostaria de ser baterista. A alegoria maior desse desfile fecha o livro, com “Fim”, quando a personagem Luiz (Inácio? Lula?) retorna ao palco. Mas não sem, antes, Sant’Anna ir até o fundo, explorar o “algo” misterioso que mergulha Charlie Parker no vício ou o que incita Jimi Hendrix, “aquele negócio novo que ele tinha experimentado”.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o autor tematiza também a própria criação estética e, novamente como lá no início desta resenha, nem estou me referindo ao evidente e explícito “Gases”, um conto esplendidamente construído, em minha opinião.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Criação Estética</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Todos os contos, como até já apontei antes, não importa quão complexos e temerosos sejam seus temas, todos eles vestem uma roupagem leve, com um bem humorado jogo de construções e ágil como um tiro certeiro no esforço de leitura de qualquer leitor.</p>
<p style="text-align: justify;">Que a aparente descontração, simplicidade e rapidez com que ele trata de questões complexas não seja confundida com descaso ou superficialidade, afinal o autor até brinca sobre essa questão, no meu entender, como quando contrapõe “eco dos infernos” a “ar condicionado”, referindo-se ao “algo” no ar que João Gilberto estava sentindo e que o incomodaria na hora de subir ao palco. E isso talvez se deva porque a criação, para uns, pode ser uma condição existencial, para outros, trabalho profissional. Algo nesse sentido, como quando, em “Bird e algo”, Charlie Parker se refere a Dizzy Gillespie não tendo o “algo”, pois não precisava de “algo” para compor.</p>
<p style="text-align: justify;">O que o autor põe em evidência não é a dificuldade do trabalho artístico e sua complexidade intelectual, e sim o fato dele ser ambivalente também, assim como suas histórias o são. Estas possuem um contraponto, bem como suas personagens, bem como todas as personalidades, bem como nós.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong>Veredito</strong></p>
<p style="text-align: justify;">André Sant’Anna, desse modo, nos oferece um livro curto e ágil, repleto de humor e o cinismo típico da literatura contemporânea. Talvez levando a exploração desse cinismo além, talvez o empacando numa abordagem individualista. Ele pode estar sendo irreverente, mas buscando pôr em termos claros e simples o complexo e difícil, sem desprezar nenhum desses lados, planificando-os para que sejam adensados pelo leitor. Ou tal planificação pode ser lida como uma mera banalização, representando o elo mais pueril que se tem com a realidade e seu significado, desprovendo assim a leitura de um nível mais profundo, supostamente almejado pelo escritor e supostamente almejado por nós em relação à realidade. Aí residiria sua moral, não apenas cínica, mas também complacente. Porém, isso quem decidirá será o leitor, ao final do livro, quando chegar a seu “Fim”.</p>
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		<title>O mundo de Christina</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 13:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[andrew wyeth]]></category>
		<category><![CDATA[christina's world]]></category>
		<category><![CDATA[plásticas]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2010/01/16/o-mundo-de-christina/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/01/ChristinasWorld.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Christinas-World-1948-Andrew-Wyeth.jpg"><img class="size-full wp-image-1343   aligncenter" style="border: 1px solid black;" title="Christina's World (1948) - Andrew Wyeth" src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Christinas-World-1948-.jpg" alt="Christina's World (1948) - Andrew Wyeth" width="600" height="425" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #333333;"><span style="font-size: small;">Christina&#8217;s World (1948) &#8211; Andrew Wyeth (1917-2009)</span></span></p>
<p style="text-align: justify;">De saída, eu preciso lhe dizer que eu concordo. Esse quadro merece a fama que possui e é digno de todo encantamento que provoca em muita gente. Faço coro. Considero-o de uma densidade esplendorosa, por isso realço aliado aos seus méritos o meu deslumbre, para que você saiba, desde já, que meu comentário não será imparcial.</p>
<p style="text-align: justify;">Não apenas essa, mas várias pinturas de <strong>Andrew Wyeth </strong>(1917-2009) são de um realismo avassalador para o meu vago imaginário transitar. Se <strong>Christina’s world</strong> (1948, MoMA) é de fato o quadro mais representativo da obra dele, isso eu não sei e nem faço muita questão de saber. O que me interessa nele é o que você lerá, a seguir, numa análise bem pessoal, pois eu seria insincero fazendo diferente e porque eis o que me interessa compartilhar, aqui neste texto.</p>
<p style="text-align: justify;">A princípio, nos detenhamos ao quadro, para depois eu lhe dizer, caso não saiba, em que contexto ele foi criado e o que nele representa um diálogo com a realidade de seu autor e também de <strong>Christina Olson</strong> (1893-1969). O Realismo de Wyeth não funciona como acaso, nem se debruça sobre paisagens mortas ou imobilizadas, sendo principalmente nesse quadro uma janela familiar aberta ao mundo impressivo de todos nós.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><strong>Do imaginário</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Que mundo é esse, no qual a juventude representa a liberdade, mas o corpo serve-lhe de cárcere? A suavidade, mas também aridez das cores de “Christina’s World” refletem o olhar mudo de sua jovem personagem em busca da claridade tênue do horizonte.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhar mudo, eu disse? Sim. Obviamente, não podemos enxergá-lo (e isso me lembra “Betty”, de Gerhard Richter), mas as sugestões apresentadas por Wyeth, e que logo eu aponto quais são, nos levam a imaginar que é para lá que os olhos de sua personagem se voltam. A paisagem ampla de um ambiente rural como esse representa o tempo melancólico de tais paragens, também reforçado pela posição prostrada da figura feminina e o pouco espaço reservado às habitações, que são postas no topo do enquadramento, à linha do horizonte.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu também me referi à claridade tênue? Sim, que é para não despertar os olhos desse estado de latência, da juventude como a aurora de qualquer dia perdurando no tempo aparentemente inerte. Isso porque Christina representa a liberdade em contraposição à imobilidade, sobre a qual comento melhor depois, por isso talvez a melancolia ou então o tempo sereno daquela região marquem importante presença no quadro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tenho me referido com convicção à juventude da personagem (apesar do quadro ser de 1948, quando Christina tinha 55 anos), porque ela é indicada através de seus trajes e do desenho de seu corpo, além de ser um dos seus temas. E a solidão, que até é óbvia, contorna a composição num todo, porém também possui peculiaridades de forma na proporção entre estepe e habitações, entre cores e luzes, ainda que seja mais forte devido mesmo à figura feminina isolada no primeiro plano do enquadramento.</p>
<p style="text-align: justify;">Percebe-se que o corpo de Christina prostrado sobre o solo dobra-se para trás, em uma espécie de movimento que visto assim estático é peculiar, sobre o qual você talvez questione a razão de ser. Tentemos entendê-lo. Paralisada na imagem, a personagem possui movimento na representação, e é isso que lhe atribui sentido. Todos os ângulos de seus membros revelam que o instante é dinâmico e que perceber esse movimento é essencial para o entendimento, pois sua imobilidade contraposta à liberdade de sua juventude não diz respeito ao seu corpo, se não ao constante estado de espírito. Christina se vira, como se pega de surpresa, e esforça-se para enxergar algo ao longe.</p>
<p style="text-align: justify;">Poderíamos imaginar que alguém ou alguma coisa relacionada à casa e ao celeiro chama sua atenção, porém as sugestões de cores, luz e perspectiva me levam a pensar que não, trata-se do horizonte mesmo e o que ele significa no quadro, em relação ao tema da juventude e da liberdade, acima mencionados. A melancolia e a solidão são mais evidentes que um entendimento de cunho narrativo, porém eu não o elimino, que fique claro.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse movimento da personagem, tão essencial ao quadro, revela na posição de suas pernas e ângulo de seu dorso a paralisia daqueles membros, o que a leva enfim a contorcer o corpo de tal maneira, de modo inclusive a sugerir que Christina se arrastaria sobre a estepe. Ao notar essa peculiaridade e atribuir sentido à posição da personagem, o quadro ganha em significação e se completa em relação aos outros pólos, que são a luminosidade tênue do horizonte e a posição das duas habitações no enquadramento.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir daí, podemos supor muito mais e refletir ainda melhor sobre o mundo de Christina. Mas, paro por aqui e deixo aberto ao seu imaginário, que espero não estar comprometido pela minha perspectiva em relação ao quadro. Volto à pergunta quase retórica que abriu esse trecho do texto, lhe questionando que mundo é esse.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 30px;"><strong> Da realidade </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse mesmo dia 16, mas de Janeiro de 2009, falecia aos 91 anos o pintor americano Andrew Wyeth. Representante desse Realismo meticulosamente denso, que se nota na têmpera “Christina’s World” (aliás, esta era uma das técnicas de Dürer, pintor renascentista muito admirado por Wyeth. Como, até onde sei, ela não é mais tão comum e teve seu momento entre os séculos XIV e XV, podemos supor que seu uso pelo pintor americano sirva de referência ao pintor que ele admirava) ele era, arrisco dizer, o extremo oposto de Jackson Pollock (1912-1956) e seu gotejamento expressionista. A despeito de suas diferenças de estilo e, dizem, rusgas pessoais, Pollock se refugiou em sua cidade natal, Cody, no Wyoming, assim como Wyeth, porém este em Cushing, no Maine.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis onde o quadro foi pintado, em 1948, dentro de seu ateliê, no segundo andar da casa dos Olson. O pintor fez daquele reduto sua janela para o mundo, durante 30 anos, e também para o universo de Christina Olson. Vítima da doença de Charcot-Marie-Tooth, que chegou a paralisar seus membros inferiores, ela não soube da repercussão que seu pequeno mundo ganhou internacionalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">“In the portraits of that house, the windows are eyes or pieces of the soul, almost (&#8230;) &#8220;To me, each window is a different part of Christina&#8217;s life.&#8221;, Andrew Wyeth.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #808080;">_<br />
<span style="font-size: x-small;"><strong>Andrew Wyeth</strong> no MoMA: <a href="http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=6464">http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=6464</a><br />
<strong>Christina World’s</strong> no MoMA: <a href="http://www.moma.org/collection/browse_results.php?object_id=78455">http://www.moma.org/collection/browse_results.php?object_id=78455</a></span></span></p>
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		<title>Entre a ironia pós-moderna e a literatura contemporânea</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Aug 2009 18:17:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[David Foster Wallace]]></category>
		<category><![CDATA[david lynch]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[terry eagleton]]></category>
		<category><![CDATA[vitor chklovsky]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/08/10/entre-a-ironia-pos-moderna-e-a-literatura-contemporanea"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/08/ironiab1.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;"><em><a href="http://portalliteral.terra.com.br/artigos/entre-a-ironia-pos-moderna-e-a-literatura-contemporanea" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">Publicado como artigo</span></a>, no <strong>Portal Literal</strong></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Encontrei um ensaio intitulado <em>David Lynch Keeps His Head</em> (1996), de um autor com o qual eu travava contato assim, via cinema porque eu buscava ler mais era sobre Lynch, não Wallace. Fato é que logo me rendi (nada difícil, convenhamos) e hoje integro a ala dos fãs dessa bela literatura que ele nos deixou. Mas não só, pois é difícil não se encantar também pelo modo como ele construía seu pensamento.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">A obra de David Foster Wallace significa para a geração pós-80 – num extremo, educada pela indústria cultural e, agora num outro, pelo conhecimento via internet – a sua própria formação e atualidade, seja qual for o <em>ismo</em> ou <em>wave</em> que a História da Literatura reserve ao autor norteamericano. Mas, voltemos a um período anterior a ele, mais ou menos entre <em>a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica</em> e a consolidação da TV como a caixa de Pandora moderna, em que um dos efeitos da literatura foi ter abusado da ironia como recurso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Já em 1923, o russo Viktor Chklovsky confessava o desejo de escrever à amada como se nunca houvesse existido literatura. É que a ironia devorava as palavras tornando-se a forma mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas: as palavras estavam pálidas de exaustão. Uma das consequências da literatura pós-moderna foi ter tornado a ironia seu próprio carrasco. Se esta possui uma face boa como instrumento pedagógico ao despertar propósitos intelectivos, por outro lado, se utilizada para simplesmente ridicularizar, revela nesse mau comportamento o afeto vulgar do sujeito que dela faz uso e “por fim nos tornamos iguais a um cão mordaz que aprendeu a rir, além de morder”, completaria o filósofo de <em>Humano, Demasiado Humano</em> (1886). Tratar com jocosidade a sensibilidade humana e adotar a ironia como defesa contra o cinismo alheio (algo que agora é moeda de troca, no cotidiano televisivo e virtual), isto se tornou ineficaz e também sem graça. O que era escudo virou arma e, de repente, está apontada para a própria cabeça do escritor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em seu <em>Teoria da Literatura: Uma Introdução</em> (1983), o crítico britânico Terry Eagleton afirma que a literatura do período tido como pós-moderno “é uma arte de prazeres, superfícies e intensidades fugazes. [...] Por saber que suas próprias ficções são infundadas e gratuitas, pode atingir uma espécie de autenticidade negativa apenas ao alardear sua irônica consciência desse fato, pervertidamente chamando atenção para seu próprio status de artifício construído”. Pois bem, não há mais autenticidade nisso, e o status desse recurso é menor que o de um artifício desgastado. Haja vista isso tudo, o que o autor do catatau <em>Infinite Jest</em> (1996) teria a dizer?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em <em>E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction</em> (1993), um de seus belíssimos ensaios, Wallace apontou o dedo para a televisão, mas não a culpou. Afinal (estendo a conclusão), após a televisão vem a internet arrebatando os fiéis e assim será por diante. Não está aí o problema. E não seria o caso de reclamar o esgotamento da literatura, nem receitar sua plenitude, como fez John Barth, uma geração antes. Wallace questionou o papel estético do escritor e apontou o mau uso da ironia, propondo justamente ironizar tal condição. Em discursos de formatura, entrevistas para Charlies Roses, leituras no Lannan Foundation e seus textos ensaísticos, o que noto e me encanta é um autor em busca do diálogo mais sincero com seu leitor, propondo-lhe uma espécie de reconciliação, pois o elo desgastou-se enquanto as palavras reclamadas por Chklovsky perdiam o efeito. Ele não parecia preocupado apenas com a sua literatura ou em demonstrar genialidade, mas sim com a expressão de seu pensamento aliado à estética literária, comprometidos ambos com a essência de uma obra de arte. A ficção como caminho não apenas para o conhecimento das faces ocultas da realidade, mas também o reconhecimento da essência humana tangendo fatos pueris do cotidiano. Isto, arquitetado por uma percepção sempre crítica e provocando não raro reflexões profundas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">As lamúrias bem conhecidas sobre os índices baixos de leitura, que afligem (há que se dizer) não apenas o Brasil, elas não podem ser justificadas com o dedo em riste na cara do leitor, devido a um suposto défice de sensibilidade ou a má educação geral. Em nosso país, a literatura parece (se você me permite generalizar) correr para o lado <em>pop</em> e <em>cool</em> ou para o hermetismo acadêmico, ambos servindo de abrigo ou prisão para um escritor emergente. Ora, não encarar a formação do leitor brasileiro, as transformações que a nossa cultura atravessa mesclando o lado europeu com o norteamericano, à procura de um resultado que lhe dê ares de contemporaneidade e autenticidade, a meu ver parece ser sintomático. Na esteira disso, como leitor não procuro o equivalente a Wallace, aqui no Brasil, e sim um escritor que possua posicionamento estético e fale à minha geração, não à história da literatura, nem sobre suas pretensões autorais ou referências contemporâneas. De lado ponho, portanto, a generalização entre o acadêmico e o <em>pop</em>, pois entre eles deve haver sim uma via possível a ser (ou já sendo) buscada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">O escritor, a meu ver, não tem de escrever obras menos profundas (ou usar da seguinte desculpa), culpando a sensibilidade humana, supostamente destruída pela indústria do entretenimento. Se o novo, o original, o rebelde e inquieto é aquele que irá dar um passo atrás, como propõe Wallace, e pensar a literatura com sinceridade, isso não representa perda de qualidade estética. Quem sabe, represente menos chance de exibicionismo. Talvez caiba aos <em>poetae novi</em> pós-pós-modernos se rebelarem contra a pretensão de fazer alta literatura, pois é possível que o desejo por este referencial esteja superestimado. O caminho talvez seja ir pela via supostamente mais fácil, que é o escrever boas e belas histórias que dialoguem com o leitor comum. É correr o risco de não ser reconhecido como brilhante, difícil ou original. Mas o que parece é que esses juízos estéticos fazem parte da raiz do problema, não dos critérios do leitor atual. Este anda sim enfeitiçado pelas belas imagens do Cinema e da Televisão, principalmente porque o riso vem frouxo e fácil, sem demandar muito esforço, mas não porque suas necessidades estéticas estejam sendo supridas ou esses meios referidos sejam infalivelmente atraentes. Talvez isso aconteça porque a Literatura se distanciou de seu leitor e perdeu o referencial, usando fórmulas já ineficazes ou recursos de outras linguagens, aliados a uma pretensão maior que o próprio esforço em superá-la. Daí uma reconciliação necessária, mediante a expressão sincera e sem artifícios e a busca pelo leitor perdido entre tantos veículos possíveis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Wallace propõe um caminho à literatura, que já não é o mesmo traçado pelos pós-modernos da geração que o precedeu. Resta saber, agora, para que lado seus contemporâneos a estão conduzindo, já que ele se despediu dessa busca.</span></p>
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		<title>O poeta pede ao seu amor que lhe escreva</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Aug 2009 19:44:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[federico garcia lorca]]></category>
		<category><![CDATA[fra guittone]]></category>
		<category><![CDATA[jacopo notaro]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[shakespeare]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/08/01/o-poeta-pede-ao-seu-amor-que-lhe-escreva/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/08/lorca-b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><span style="font-size: x-small;">Aqui, falo um pouco de  soneto, a respeito principalmente de Federico Garcia Lorca<br />
e faço a leitura (didática e de superfície) de uma de suas poesias.<br />
O intuito é dialogar com qualquer leitor, seja ou não apreciador de poesia.<br />
(Texto bruto sem edição, ainda. Não hesite em recomendar-me alterações)</span></em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Declamemos a angústia em apenas 14 versos, servindo-nos cada linha de degrau ao céu ou ao abismo de um sentimento. Tais versos, iremos dividi-los em dois quartetos e tercetos, como fez Petrarca (1304-74) sobre os modelos de <em>sonetto</em> de Jacopo Notaro e Fra Guittone, estes um século antes. E nestes versos limitemo-nos entre dez e doze sílabas poéticas. Não nos esqueçamos das rimas, enriquecidas entre o primeiro verso de cada quarteto com seu respectivo último, bem como os dois intermediários de cada um entre si, resultando na combinação: ABBA. Já em relação às rimas dos tercetos, podemos representá-las seguindo, respectivamente, à combinação: CDC e DCD.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Bom, cada poeta escolhe a seu gosto, seja conforme o português Sá de Miranda levou a Portugal ou então dividindo o soneto em três quartetos e um dístico, como o fez Shakespeare num tom de desfecho pungente. Os poetas compõem seus sonetos adicionando pequenos detalhes consonantes à tradição de seus países e sua literatura. Pois, claro, alguma variação é permitida, afinal o poeta desenha seu modelo também conforme melhor este exprima a figura poética intencionada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A forma do soneto é, portanto – e entre aspas –, fixa. Ele permite essas pequenas variações de estilo, desde que elas não se sobreponham às qualidades que definem sua essência.  Sendo que a magia que o alimenta nunca estará contida pelos muros da definição que o cerca. O importante, e é isso que temos de ter bem claro entre nós, é que a essência referida esteja presente, seja respeitada na estrofe, mantida em cada verso, esculpida através do sobressalto de suas rimas. Pois se não conseguirmos encerrar a expressão de uma idéia inexprimível, que sobrevive desse paradoxo e vai além das palavras que a contêm, em 14 fixos versos e sua tendência ao decassílabo, então não seremos dignos desse tipo de poema, sobrevivente audaz do assédio e dos protestos de tantas e diferentes escolas literárias com as quais travou batalhas estéticas. Não à toa ele permanece até hoje como um grande exemplar da resistência da poesia como forma de expressão mais cara ao ser humano.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Mas qual seria a magia de encerrar em forma tão regrada a dor ácida da espera, do tempo riscando com sua ponta de lança o coração interior do poeta? E, ainda, atravessando os séculos, os diferentes modos de pensamento e expressão da arte literária e suas escolas. Tudo isso, como vimos, sem sofrer alteração em sua forma essencial, tornando-se “o poema de forma fixa encontrado com mais frequência”, completaria a professora Norma Goldstein.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A pergunta anteriormente feita nós não nos atreveremos a responder, aqui. Através do poema que leremos, adiante, o soneto lhe responderá sem intérprete. E se buscamos interpretá-lo por algum viés, nos equivocaremos se acharmos que se trata da sua – e não da do próprio poeta que se utiliza de tal magia – essência.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Uns podem atribuir essa magia justamente ao paradoxo presente em seu princípio: aprisionar com garras de dragão o que não se pode limitar a prisão alguma. Outros poderiam dizer que um poeta não é capaz de esbravejar à pessoa amada, em laudas e mais laudas, que esta lhe escreva uma mísera carta e o livre da angústia da espera.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Para nós, o poeta transforma, utilizando-se do soneto e de suas garras de dragão, o sentimento que este ser agarrará e levará consigo à terra da magia, protegendo-o. Lá onde o irreal, o impalpável e o inexprimível habitam. Lá onde os sentimentos dos homens lhes dão existência e cada lampejo poético alimenta tal fábula. Pois a poesia liberta o autor, arranca-lhe a angústia e a reveste com o manto poético, o qual em nós repousa como a voz sussurrante do poeta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E se este usa do expediente da economia, não o faz por alguma espécie de precaução, e sim devido à precisão. Sabemos bem que é mais indelével um tiro certo à tinta nas linhas da história, que um fuzilamento à beira de uma guerra civil. O poeta é eterno e a magia que o soneto contém, que a poesia o permite levar além das horas da história tornando-se eterno, essa magia nenhum exército é capaz de assassinar, mesmo que em sua terra só de homens, sem dragões.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E Federico Garcia Lorca sabia disso, quando dobrou seus joelhos sobre a terra dos homens, deu as costas a esses seres mundanos e foi levado embora preso às garras de seu dragão. Mal sabiam seus algozes que o poeta nascera fadado a ser eterno. E esta batalha histórica ele já havia iniciado décadas antes, desde sua primeira publicação. A essência do ser humano que eles mataram sobrevive, até hoje, no poeta que não se elevou ao céu junto aos anjos, nem se sentou ao lado das belas musas, mas retornou à terra do duende que lhe subia da planta dos pés e com o qual travava batalha silenciosa enquanto vivo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Estamos na Espanha do começo do século XX, terra não de musas, como a Alemanha, nem de anjos, como a Itália, mas do “poder misterioso que todos sentem e que nenhum filósofo explica”, diria Lorca: terra de duendes. O ano é o de 1936, porque foi o ano da morte de nosso poeta – um mês depois que os rebeldes iniciam a derrubada da Segunda República Espanhola erigindo o regime ditatorial e fascista sob o comando do general Francisco Franco – e também porque é o período em que Lorca compôs o poema que iremos ler, mais a frente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A respeito da obra que reúne os sonetos de Lorca, nós sabemos pouco. Quem nos informa é o biógrafo do poeta, Ian Gibson, pois “no se ha encontrado documento alguno em que Lorca se refiera a sus sonetos amorosos bajo el título genérico de <em>Sonetos del amor obscuro</em>”. Portanto, cremos que a dificuldade em se encontrar material a respeito do contexto dessa publicação, inclusive a própria obra comentada no Brasil, não será empecilho à proposta do presente texto. Afinal, a principal intenção aqui é dialogarmos com Lorca, ouvir sua voz interior reprimida pela sociedade, dar de encontro com seu sentimento oculto pela época em que viveu e a angústia de um ser humano buscando algum amparo nas palavras de seu amor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Se partirmos do fato de que sabemos onde nosso poeta nasceu, como se educou e qual foi o desenvolvimento de seu trabalho até a data que aqui privilegiamos, claro que isso nos ajuda a compreender muitas coisas a seu respeito e a respeito de sua obra poética. O contexto é bastante importante na leitura de uma poesia, pois a amplia e a fortalece sob o amparo da história que a mantém viva. Mas digamos que não sabemos nada sobre o nosso poeta, que demos de encontro com um livro seu, em alguma prateleira da Biblioteca Pública e resolvemos ler um dos 11 sonetos que compõem essa obra de título genérico.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E não levemos em consideração o fato de que tal obra sequer foi lançada aqui no Brasil. Dela temos apenas alguns sonetos, eleitos pelo tradutor Wiliam Agel de Melo como os mais representativos, contidos todos na <em>Antologia Poética</em> de Lorca, lançada pela editora Martins Fontes, em 2001.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> A polêmica em relação ao título dos sonetos, se “escuro” ou “obscuro”, posta por Félix de Souza em sua tradução, também nos é irrelevante. Como o poema se faz entender, em espanhol, então o apresentaremos no original, mesmo porque até a tradução fiel de Agel de Melo perde riqueza devido à falta de equivalência em alguns termos e também na rima da primeira estrofe:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><strong><span lang="ES-TRAD">El poeta pide que su amor le escriba</span></strong><span lang="ES-TRAD"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">Amor de mis entrañas, viva muerte,</span><span lang="ES-TRAD"><br />
en vano espero tu palabra escrita </span><span lang="ES-TRAD"><br />
y pienso, con la flor que se marchita,</span><span lang="ES-TRAD"><br />
que si vivo sin mí quiero perderte. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">El aire es inmortal, la piedra inerte </span><span lang="ES-TRAD"><br />
ni conoce la sombra ni la evita.<br />
</span><span lang="ES-TRAD">Corazón interior no necesita</span><span lang="ES-TRAD"><br />
la miel helada que la luna vierte. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">Pero yo te sufrí, rasgué mis venas,<br />
tigre y paloma, sobre tu cintura</span><span lang="ES-TRAD"><br />
en duelo de mordiscos y azucenas.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">Llena, pues, de palabras mi locura<br />
o déjame vivir en mi serena noche<br />
del alma para siempre oscura.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Na primeira leitura, buscamos reconhecer a cadência do poema e nos familiarizar com a linguagem que o perpassa. O ritmo, nesse momento, depende de nossa habilidade de leitura, obedecendo sempre aos sinais deixados pelo caminho. Algumas palavras são novas e algumas associações entre elas também. Se não as compreendemos de todo, seguimos, pois há um fio condutor que nos permite continuar estabelecendo as relações necessárias para uma primeira compreensão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Ao final dessa primeira leitura, rapidamente nos surge uma imagem. São as linhas mais reconhecíveis do poema formando em nós uma figura interpretativa de seu todo. Essa imagem, que podemos chamar de resumo ou daquilo que trata o poema, traz consigo o que mais nos chama a atenção, seguido do que é mais simples de compreender por fazer parte de uma linguagem comum.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Sendo assim, podemos agora sintetizar o tema do poema, o qual se resume em alguém escrevendo uma carta à pessoa que ama, solicitando desta que lhe responda, pois tem sido difícil aguardar uma resposta sem saber quando esta virá.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Esta é a nossa primeira impressão. E, felizmente, em poesia não é a primeira a que fica. Mas, antes de seguirmos aprofundando a leitura e reconhecendo outras camadas interpretativas, novas imagens com as quais o poema nos ilumina seu caminho, façamos um exercício de leitura. Apesar de parecer evidente, tentemos entender como essa primeira compreensão do poema surge.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Durante a leitura, percebemos que a personagem, que é um poeta, invoca a pessoa amada através de uma carta. O primeiro indício deveria ser seu título “El poeta pide que su amor le escriba”, mas como geralmente, e de modo apressado, damos mais atenção ao que vem depois do título, acabamos passando levianamente por ele e achamos que se trata de uma carta porque no segundo verso ele informa que “en vano espero su palavra escrita”. Portanto, aqui já temos um segundo indício de que se trata de uma correspondência, o que se comprova mais ao final, quando no 12º verso temos “Llena, pues, de palabras mi locura”. Sim, obviamente trata-se de uma carta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">E, sim, claramente a personagem pede que seu amor lhe escreva. Eis o que o título já nos informava e repetir isso parece ser uma obviedade desnecessária. Então podemos concluir, de modo redundante, que a personagem do poema ama alguém que tem demorado em lhe escrever uma carta. Sabemos ainda que essa espera não só já não lhe faz bem, como também ele não a suporta mais.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Claramente se utilizando das metáforas para expressar e demonstrar sua angústia na espera, a personagem revela à pessoa amada o quão penoso é a dor que esta a impingi com a falta de uma correspondência. Depois, lembra que a amou com vigor e se entregou com ardor quando lhe foi permitido. E que agora se encontra angustiada à espera dessa carta que não chega trazendo algum alento para seu coração interior, nem que seja a certeza de que não será correspondida. Essa compreensão inicial está posta na superfície do poema. É como o autor, e agora nos referimos aqui a Lorca, o cobre a fim de ser facilmente reconhecido.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Em um segundo momento, partimos para uma melhor compreensão. As palavras que, num primeiro instante, desconhecíamos, ou aquelas relações entre elas que nos pareciam estranhas, isso tudo agora é relido com mais atenção. Além disso, passamos a reconhecer a forma e a estrutura do poema.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Já sabíamos que se tratava de um soneto, pois na capa do livro onde ele está publicado esta informação era evidente: “<em>Sonetos del amor oscuro</em>”. Outra informação que nos chama atenção é o adjetivo empregado para qualificar este amor: “escuro”. O que isso quer dizer? Notamos também que este adjetivo é a última palavra de nosso poema e ali qualifica a alma da personagem. Antes de concluirmos algo a respeito, já avisando que o faremos na última frase anterior à conclusão desse texto, deixamos em suspenso essa percepção e procuramos olhar com maior atenção a estrutura toda.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Além de suas formas tradicionais, e descartando as informações técnicas tendo suposto que já as conhecemos ou que elas não são relevantes para o nosso objetivo aqui, temos que os dois primeiros quartetos são descritivos. Neles, a personagem da carta informa a quem ama o que está sentindo. As metáforas utilizadas servem-lhe de apoio à descrição, já revestindo de tons dramáticos seu estado emocional.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> No primeiro terceto, a personagem relembra o passado e o quanto seu amor foi dedicado quando estiveram juntos. E, no último, implora por uma correspondência ou clama pelo fim dessa espera que angustia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Nada mais o poeta quer dizer com suas palavras. Em resumo, tudo o que plaina na superfície do poema encerra-se nessa descrição. Já podemos dizer a outra pessoa do que trata esse poema lorquiano e apresentar-lhe um resumo sucinto, não é verdade?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Mas como as descrições são desprovidas da vida que existe nas coisas que pretende encerrar, temos então a possibilidade de investigar a linguagem poética utilizada e a profundidade de sentido e significado que esta linguagem suscita. E simplesmente queremos dizer com isso que buscamos, agora, enxergar o modo como o poeta da missiva a escreveu, quais informações ele privilegiou, que sentidos ele elegeu como os mais condizentes com o que ele sente. Também nesse caminho procuramos reconhecer a beleza contida no modo como Lorca se expressa, pois já não nos interessa tanto o que ele quis dizer, mas sim como o fez.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Procuraremos, portanto, ler o interior do poema sem nos remeter às referências que Lorca faz ao conceptismo, a San Juan de La Cruz, a Santa Teresa, à poesia cortesã, aos diálogos travados com a tradição literária. Isso tudo é importante, claro, informações extralinguísticas fazem parte da leitura de qualquer poema, mas aqui só queremos seguir o mapa construído pelo poeta, sofrer com a personagem da carta, também um poeta, dialogar com sua alma escura e entendê-la, para ouvir sua voz que clama a da pessoa amada. Não passaremos dessa camada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> E, para tanto, não faz sentido entendermos as razões e os porquês sem compreendermos suas dimensões na alma daquele que nos inspira através de sua poesia. Aqui, chegamos num ponto em que já se deve ter bem separados o poeta autor do poema, Lorca, e a sua personagem, o poeta autor da carta e que sofre de amor por alguém. Ainda que tal diferença possa ser questionada, discutida, investigada, ela não será nosso foco aqui e nos referiremos a Lorca como o poeta e seu poeta como, simplesmente, a personagem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Nossa personagem ama visceralmente. Ela convive entre a beleza e a dor, contidas na esperança ansiosa ou na demora angustiante de uma carta. Mas esta não chega. Aquele que ama vai do céu ao inferno através da linha tênue do instante, morre a cada segundo de espera por um ruído que seja da pessoa amada, respira aliviado a cada lampejo de esperança em consegui-lo. Mas, neste caso, o amor é uma metáfora entristecida, descolorida de vida como a flor que murcha, como o poeta esperando em vão com o silêncio corroendo seu interior. Resta-lhe escrever.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Como para a flor só resta arrefecer o que há de vida em si, nossa personagem prefere morrer a ter de viver sem uma resposta de seu amor. Que beleza haveria numa flor murcha? Um símbolo da desolação e da ação do tempo levando dela a beleza de quando a temos viva. Eis nossa personagem numa confissão do mais caro sentimento humano, aquele através do qual abdicamos de nós mesmos por outra pessoa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> O ar é sim imortal como o tempo que se estende ininterrupto, soberano sobre qualquer anseio em contê-lo. A ação silenciosa e corrosiva do tempo não atinge a pedra, pois esta nada sente. Ela sofre a ação do tempo, mas não a diferencia, pois não está viva. E estar vivo é sentir. Como sente o coração interior de nossa personagem, que se imensa por seu amor, que não aguenta mais sofrer os danos da noite, revestida pela manta gelada da solidão. Há um gosto amargo nessa espera e o silêncio é cortante.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Mas que fim triste àquele que para o outro se entregou por inteiro. Pois amar é sair de si mesmo, se consumar enquanto ser que sente e se completa no outro. Nossa personagem se desespera. O descontrole é seu, resta-lhe apenas escrever essa carta na tentativa de cativar o ser amado. Seja através da recordação dos momentos de entrega e de amor, seja procurando tocar sua benevolência ao mostrar que ao menos algumas palavras de alento são necessárias para que não definhe nessa espera.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Um último clamor, em tom imperativo! Que receba o alimento de sua alma invadida por sentimentos que turvam a razão. Pois, se não, que seja a certeza da noite, então, a qual simplesmente dorme os homens e confidencia em silêncio seus dias.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Por fim, trazemos aqui um testemunho de um amigo de Lorca, em um trecho retirado de sua biografia escrita por Gibson e à qual já nos referimos, mais acima. <span lang="ES-TRAD">Antes do biógrafo </span>transcrevê-la em seu livro, ele a apresenta do seguinte<span lang="ES-TRAD"> modo: “&#8230; tal vez la más bella y más profunda evocación de cuantas se dedicasen al poeta asesinado. Evocación que&#8230; pone el énfasis sobre el Lorca mítico, nocturno” (GIBSON, p. 621): </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 56.65pt 10pt 49.65pt; text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="color: #000000;"><span lang="ES-TRAD">“Su corazón no era ciertamente alegre. Era capaz de toda la alegría del Universo; pero su sima profunda, como la de todo gran poeta, no era la de la alegría. Quienes lo vieron pasar por la vida como un ave llena de colorido, no le conocieron. Su corazón era como pocos apasionado, y una capacidad de amor y sufrimiento ennoblecía cada día más aquella noble frente. Amó mucho, cualidad que algunos superficiales le negaron. Y sufrió por amor, lo que probablemente nadie supo. Recordaré siempre la lectura que me hizo, tiempo antes de partir para Granada, de su última obra lírica, que no habíamos de ver terminada. Me leía sus <em>Sonetos del amor oscuro</em>, prodigio de pasión, de entusiasmo, de felicidad, de tormento, puro y ardiente monumento al amor, en que la primera materia es ya la carne, el corazón, el alma del poeta en trance de destrucción. </span>(&#8230;)” (GIBSON, p. 622)</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Isto foi dito pelo amigo íntimo de Lorca, Vicente Aleixandre, o qual não apenas conviveu com nosso poeta, como também foi quem o ouviu declamar os 11 sonetos. O título da obra, que foi publicada 45 anos depois, tem como referência o trecho, acima descrito, uma vez que Lorca escreveu os sonetos e não os reuniu sob um nome.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Para Aleixandre, não importa se Lorca escrevera tendo em mente algum amante. Para ele, o poeta refere-se ao amor “escuro” por este ser atormentado, difícil, não correspondido. A conotação homossexual, por “escuro” referir-se ao amor em sigilo, escondido dos olhos preconceituosos e punitivos da sociedade da época, essa interpretação restringe os sonetos ao amor entre dois homens. O que, para Aleixandre, e para nós, seria um equívoco. Pois, seguindo a interpretação que propomos, no interior do poema há um amor que atinge qualquer ser humano que, como nosso poeta, ama a ponto de só encontrar sentido se através da outra pessoa. Um amor que doa a própria existência, que passa a significar vida ao coincidir com a existência do ser amado. E quem nunca viveu essa espécie de amor, capaz de aniquilar a própria racionalidade?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Certamente, quem não o viveu é porque ainda o viverá. Pois, do contrário, Lorca diria que não há vida naquele que não sente, quando o coração interior não bate como a alma escura do poeta.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A candura de Polifemo e o drama de Coridão</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Jul 2009 22:05:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/07/07/a-candura-de-polifemo-e-o-drama-de-coridao"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/07/polifemo-e-galateia-b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right; padding-left: 210px;"><span style="font-size: x-small;"><em><span style="color: #333333;">N</span><span style="color: #333333;">este texto, eu somo as leituras do <a href="http://issuu.com/denispedroso/docs/idilio_xi_teocrito_trad_jose_cardoso?mode=a_p" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;"><strong>idílio XI</strong></span></a> &#8211; do poeta grego <strong>Teócrito</strong> (III a.C.) &#8211; e da <a href="http://issuu.com/denispedroso/docs/bucolica_ii_virgilio_trad._raimundo_carvalho?mode=a_p" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;"><strong>bucólica II</strong></span></a> &#8211; do romano <strong>Virgílio</strong> (I a.C.) &#8211;  tematizando suas personagens principais: Polifemo e Coridão.</span></em><span style="color: #333333;"><em> Ambos sofrem de um famoso sentimento humano, mas interessa-me aqui seus caráteres (ou caracteres, como preferir).  Os poemas, na íntegra e traduzidos, encontram-se  ali nos links.<br />
Ao final, exponho algumas referências mais.<br />
Agradeço ao Guilherme Gontijo pela leitura, correções e sugestões.</em></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center; line-height: normal;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: left; line-height: normal;"><span style="color: #000000;"><span style="font-size: medium;"><strong>A candura de Polifemo&#8230;</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Polifemo era um gigante feio, que vivia na terra dos ciclopes, em uma caverna próxima à Sicília, terra natal do poeta grego Teócrito (estamos no século III a. C.). Essa falta de beleza do ciclope não passava despercebida nem por ele mesmo, que a tinha bem claro. Mas antes dele nos confessar a má aparência, já o descrito sem qualquer beleza física havia feito o lendário Ulisses, no canto IX da Odisséia de Homero (isso, cinco séculos antes: VIII a.C.): “um homem descomunal, um brutamontes, portento de maus bofes, sem rei nem lei” (Odisséia, Canto IX, vs. 213-215. Tradução de Donaldo Schüler). E, não só isso, os termos com os quais a personagem daquela jornada se refere a Polifemo são ainda piores se os elencamos: “globolho” (v. 295), “canibal” (v. 336), “glutão” (v. 394). Aliás, esse é o nosso referencial mais evidente sobre o gigante, uma vez que o conhecemos muito mais através desse grande cânone literário e seu legado histórico, do que pelo idílio teocritiano, não é certo? Porém, podemos dizer que Polifemo, apesar da falta de inteligência evidenciada por Ulisses através do episódio da caverna – na Odisséia, este ludibriou astutamente o ciclope –, não se iludia quanto a sua aparência não, pois ele mesmo a confessa, nesse décimo primeiro idílio de Teócrito: “de uma orelha a outra, em todo o meu rosto se estende uma só e grande hirsuta sobrancelha&#8230; tenho um só olho e&#8230; sobre meus lábios tenho um grande nariz” (Teócrito, Idílio XI, vs. 30-33. Tradução de José Cardoso). Haja vista isso, bem antes de Ulisses aportar em sua terra – uma vez que, apesar de ter sido escrito cinco séculos depois, o idílio de Teócrito trata do Polifemo jovem – ele já sabia que de uma boa imagem não nutria. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Só que nós aqui não trataremos do Polifemo já mais velho, o da obra de Homero – que enfrentou Ulisses e seus homens quando estes retornavam de Tróia –, e sim de quando o ciclope estava justo “naquela idade em que, à volta dos lábios e das têmporas, lhe começava a despontar a barba” (v. 11,12), dedicado a uma vida pastoril cuidando de ovelhas. É durante essa fase de sua vida e em ambiente tão agradável, em meio à natureza aprazível da vida no campo, que nosso gigante foi acometido por um grande sentimento. Sendo assim, peço que deixemos de lado essa má imagem que temos dele e nos perguntemos se mesmo um brutamonte desse não seria capaz de (ainda que vá soar muito estranho essa possibilidade) se apaixonar à primeira vista&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> No décimo primeiro idílio de Teócrito, nosso Polifemo é protagonista de um pequeno poema pastoril, não mais aquela personagem secundária de uma grande odisséia. O que não o torna belo, mas ao menos lhe permite apresentar-nos suas qualidades (conhecê-lo um pouco melhor, digamos). Já sabemos que ele é um jovem pastor vivendo em uma terra regada por Zeus e em que, portanto, tudo germina. É nesse belo cenário que o ciclope foi acometido por uma arrebatadora paixão à primeira vista, quando se deparou, através de seu único olho, com uma ninfa de nome Galateia: “Depois que te vi, ó Galateia, não posso de modo algum, nem agora nem mais tarde fugir de seguir teus passos” (v. 27-28). Neste primeiro encontro entre ambos, a deusa Afrodite cravou-lhe no peito o dardo certeiro do amor. Nosso gigante está tão arrebatado por essa paixão, que inclusive cede completamente ao ócio e dedica-se apenas a expurgar de seu coração apequenado esse grandioso sentimento que o consome. As ovelhas são deixadas completamente ao léu, ele senta-se ali onde as ondas perdem o fôlego e olhando para o mar dedica-se a cantar a amada sua declaração de amor. Não é por acaso que ele se senta ali para entoar sua paixão em belas canções, pois sua amada é uma divindade marinha, filha de Nereu, o “velho do mar”. Mas será que ela o ouve? Não há indício nenhum, no poema, mas ainda assim ele a ela se dirige sem se questionar. Aqui, é bom que se diga que uma das características da poesia amorosa dessa época é o sujeito apaixonado cantar à porta da casa de sua pretendida. A despeito dessa dúvida, se ela o ouve ou não (que é mais nossa que dele), como então provocar nela um sentimento mútuo? Consciente de sua falta de beleza, como vimos, o que ele irá fazer é, claro, elevar o que há de bom a seu favor, para, quem sabe, cativar desse modo o coração de sua amada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Assim é como sabemos que Polifemo possui muitos bens, que além de várias ovelhas com rico leite, também queijo nunca lhe falta. Sua caverna é arborizada e nela bate um vento agradável. E ao invés da água salgada do mar, dentro dela há água fresca, quem preferiria aquela a esta? “&#8230; aproxima-te de mim, ó Galateia, e partilharás, igualmente de tudo” (v. 43, 44). Nosso<strong> </strong>grandalhão também sabe tocar flauta melhor que qualquer outro ciclope: “eu sei tocar flauta, cantando, a um tempo, para ti, ó minha doce maçã, e para mim mesmo, quantas vezes de noite a desoras!” (vs. 37-41). A música, para os camponeses daquela época, os ajudava a fluir seus sentimentos, além de também servir de estímulo ao trabalho.  E é dessa maneira que Polifemo procura convidar Galateia para viver com ele, em ambiente tão agradável, rico e melodiosamente tenro. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;">Mas, como se não bastassem suas declarações e oferendas, ele demonstra que não pouparia esforços para estar com sua amada, faria de tudo para ir ao encontro dela, até nas águas profundas do oceano, se necessário fosse: “Agora, sim, ó donzelinha, agora mesmo aprenderei a nadar, se acaso algum estrangeiro, em sua navegação, com seu barco, aqui arribar&#8230;” (v. 60-62). Ele tanto não pouparia esforços quanto inclusive se deixaria cegar por ela, numa demonstração de quão submisso seria ou quão refém estava daquele sentimento: “Eu suportaria que com tua própria mão me queimasses a alma e o meu próprio olho, que é o que tenho de mais útil” (v. 51-53). Neste trecho, arrisco interpretar alusões a Homero, postas por Teócrito de modo velado, afinal sabemos que um barco ali irá arribar, futuramente. E, também, que o que ele possui de mais útil lhe será ardilosamente tirado. Porém, sem ainda fazer a menor idéia sobre isso, nosso Polifemo revela que em nada teme se expor, fala inclusive muito abertamente de seus sonhos mais íntimos, quando, inebriado também pelo sono, sua amada vem lhe assediar a consciência. Mas esta última não se engana, e tão logo seu ciclope desperta, só encontra-se envolta à solidão da caverna e mergulhada nos desejos do coração de seu gigante. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Penso, através do que até então pudemos notar, que Polifemo não é tão bobo quanto suporíamos, caso nos prendêssemos apenas à figura desajustada descrita por Ulisses. Ao menos não enquanto jovem, uma vez que ele demonstra poder de persuasão, recorrendo a bons artifícios para tentar encantar sua amada e trazê-la para seu lado. Um tanto exagerado, talvez, e, como já apontamos, submisso demais, também. Talvez essa paixão juvenil arrebatadora o torne vulnerável, um gigante de coração mole, ao contrário do que Ulisses irá dizer sobre ele – quem diria, este então exclamaria! E, aqui, novamente uma informação de contexto do poema talvez nos seja útil, a qual diz respeito às paixões arrebatadoras da poesia dessa época, fatos estes bem comuns. Portanto, não se trata de um caso isolado, o de Polifemo, ainda que isso não diminua em nada a dimensão do sentimento de nossa personagem. Ainda sobre sua inteligência, podemos dizer que ele demonstra não a ter tão limitada não, uma vez que possui consciência da própria feiúra, ponto para o qual já chamamos a atenção antes. Também talvez não seja tão ingênuo, consequentemente bobo, já que ele é consciente inclusive de que por amor se pode fazer de tudo, menos o impossível, como ofertar à sua amada, numa mesma época, lírios e papoulas, quando sabemos por ele que “uns nascem no verão, outros, no inverno” (v. 57-59). De algum modo, ainda que arrebatado, ele pensa sobre as possibilidades e não ilude Galateia prometendo-lhe coisas irrealizáveis. Se fosse bobo, ele nem se questionaria sobre possibilidades e, com isso, ela poderia concluir que ele não passa de um jovem apaixonado sem muita consciência das coisas. E claro que esta conclusão não contaria a seu favor. Prevendo isso, ele faz a ressalva para assegurar-lhe mais uma boa impressão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"> Desse modo, eu faço questão de ressaltar o lado doce de nosso gigante, através dessa sua sinceridade com Galateia, além de seu desmedido esforço por ela, como ficará ainda mais claro, a seguir. Ao mesmo tempo, ressalto seu lado consciente da situação em que se encontra, tanto por saber que não é belo, como também por não prometer o impossível. Ainda que, disso tudo, não possamos concluir que ele não deixa de ser ingênuo, uma vez que algumas de suas palavras não são das mais bem eleitas, revelando até falta de trato quando as escolhe: “Tu que és mais branca de ver que o leite coalhado&#8230; mais reluzente do que a amarga uva verde” (vs. 20-22). Aqui, preciso trazer mais um dado de contexto, para completar essa leitura: o pastor, na poesia daquela época, é sempre tido como uma figura tipicamente ingênua. Porém, a despeito de sua ingenuidade, da falta de trato, ainda assim creio ter exposto as qualidades admiráveis do gigante, as quais sequer imaginávamos ele podendo nutrir, certo? E as ressalto, aqui, pois estas tais não são as mesmas de outra personagem, de alguns séculos mais tarde, da qual falaremos agora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"></p>
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		<title>O único  sentimento</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Apr 2009 12:09:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/04/22/o-unico-sentimento/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/04/11b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">Olha ela, debatendo-se ao ser açoita por ele. A paixão a jogando a tapas contra os braços do prazer alheio, enquanto a vaidade prostra-se no chão débil do desejo. Ele a tem e a machuca, não poderia ser diferente. Ela não pede nem suplica, mas está ali porque. E ele a fatiga antes dela sequer ter uma breve imagem do seu rosto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">E, agora, que orgulho ferido é esse? Te levanta. Restam apenas as marcas, vestindo no teu corpo as maldades do. O mais próximo que chegará dele serão estas manchas. Que caminho longo ainda percorrerá para descobrir que ele não existe, que não possui um rosto. E não adianta insistir em enlevar uma paixão fugaz, apenas a mate antes que te corrompa ou a satisfaça antes que ela te deixe. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">Você então cedeu, enfraqueceu teu corpo à entrega de tua vontade e permitiu que ele te tomasse no mais profundo do teu sexo. A posse é esta prostituta parada na esquina, ela oferece teu corpo à loucura dele. Alguém te avisou para não andar por aquela rua? Agora toma tuas coisas e te levanta deste chão. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">Há ainda uma leve inconsciência do querer. Você sangra e você gosta. É um prazer bandido este, te assaltando a consciência levando embora tua ingenuidade. Não será mais a mesma; com outro orgulho, com menos vaidade. E porque tudo passa, assim como as pessoas que passearão pelo teu corpo, então te levanta. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">Por ele, você ainda se pergunta. Resta apenas o precipício das palavras jogadas, atiradas contra teu ouvido carente, sussurradas entre teus desejos secretos. “Quem irá dizê-las de verdade?”, insiste. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">A verdade, que engano. O batom com a cor do sexo, espalhado pelos lábios da malícia. É assim como a vontade te beija a boca soletrando palavras vulgares. São os instantes de prazer que o teu vício promete, numa tentativa de saciar um desejo que, antes disso, sorrateiramente te alicia e te consome. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">Ele nutre-se da fraqueza do teu corpo, da fácil assunção do mistério que a tua disposição não alcança. De teu medo em relação àquilo que desconhece, como se fosse legítimo um sentimento qualquer, que sequer atravessou a ante-sala do consentimento e cresce à medida que você o perde. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">É por isso que você cede, e cai. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="color: #333333;">Então vê se te levanta e limpa esta tua cara, pois o dia logo clareia e outras pessoas irão notar as semelhanças da doença de mais uma vítima do, que é o nome que dão para ele, sem sequer dele terem visto ao menos suas costas o levando mais uma vez embora.</span></p>
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		<title>Os usos da literatura: ou, o que é que eu estou fazendo aqui?</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Apr 2009 19:14:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
		<category><![CDATA[David Foster Wallace]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/04/13/os-usos-da-literatura/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/04/10b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: right; line-height: normal;"><span style="font-size: x-small;">Ensaio escrito para a disciplina sobre David Foster Wallace</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Antes de me propor a qualquer outra coisa, li este título e tentei imaginá-lo como tema. Quem formulasse essa pergunta-chave estaria querendo acessar qual porta? Já lhe adianto que desisti de tentar simplesmente responder, pois seria difícil conciliar a minha compreensão com o entendimento do autor do tema. Mas foi aí que eu encontrei algo que, de repente, seria interessante partir em direção. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Vamos até uma das entrevistas do escritor <strong>David Foster Wallace</strong>, na qual ele disse desejar que sua literatura afetasse de verdade as pessoas. “No fim das contas o que você quer é ter algum tipo de efeito”, ele conclui, acrescentando que levou anos para entender isso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Em uma resenha recente, quando me propuseram escrever sobre o último livro que eu havia lido, peguei o “<strong>Breve Entrevistas&#8230;</strong>” da cabeceira e o segurei assim, pelos lados, mostrando a capa para meus leitores. “Estão vendo?”, dizia eu, isto não é só um livro. <span style="color: black;">E sem intenção de fazer algum tipo de referência a Magritte. Aliás, sem jogo de cena, eu tinha em mente apenas o escritor DFW e tentar demonstrar a relação que este estabelece com o seu leitor.</span><span style="color: #595959;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Na verdade, esta relação qualquer escritor estabelecerá, eu ouviria dias depois, em uma aula sobre este autor. E importou-me, naquele momento, esta intimidade, específica da literatura, que esses dois extremos possuem entre si, tendo como único veículo o livro que era mostrado ao leitor da resenha. Nesta, reconhecia-se que a solidão com a qual uma pessoa inicia a leitura de uma história, ao final, continua sim com o leitor, pois ao fechar o livro ele deixou seu autor preso ali dentro, com a história terminada. Ponto final. Porém, a conclusão que pretendia salvar o raciocínio e fechar bem a resenha era: aquela pessoa já não era a mesma que iniciou a leitura da obra. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Tem-se o efeito. Seja através do chamado ao leitor da resenha, seja através das pistas deixadas pelo autor do livro de contos. Mantém-se, de certo, ao menos um mero diálogo. A medida dessa conversa, entre um e outro, é onde eu penso residir o poder (latente) transformador da literatura. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Estou dizendo mais, que a representação da realidade acaba sendo absorvida pela linguagem literária. E o leitor, nesse âmbito, é capaz de abrir o mar ao meio e caminhar por entre a correnteza do oceano. O autor propôs a travessia, concedeu-lhe poder, cabe ao leitor fazer bom uso dele e imergir naquele universo. Sim, atravessar é função do leitor. Se ambos fossem ideais, as pistas deixadas por um levariam o outro à liberdade. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">E, agora, eu poderia completar o raciocínio com Sartre ou concluí-lo citando Eco. Mas, apesar de tê-los lido e, em alguma medida intuitiva ter-lhes absorvido a teoria, estou pensando aqui é na Bíblia. Ou melhor, em Deus todo poderoso. Esse seria o engajamento que Sartre pedia? Nem a pau. O Eco, então, estaria puto com meu comentário. Mas eu os deixo de lado, não vamos pôr nota de rodapé nesta conversa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Trazer o todo poderoso aqui se deve ao fato de que, dias atrás, li Sandra Contreras tentando mostrar o realismo presente na obra do escritor argentino César Aira. Sem entrar em detalhes, a minha leitura das explicações dela remeteu-me à figura de Deus. Pois que todo poderoso seria Balzac e sua representação da realidade da época. Assim como ele, que todo poderoso seria Aira, que cria um realismo na linha do que Balzac fez, porém diferente porque novo e verdadeiro, porque um realismo de sua própria época. Que todos poderosos os escritores, pois li que eles anseiam ao realismo. Ora, se o escritor é esse ser que põe a realidade através de suas obras, então se assemelha a Deus, não é certo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Quando eu abro um livro, tateio os caminhos possíveis que me são oferecidos, passo a familiarizar-me com aquelas personagens, a reconhecer alguns padrões de comportamento semelhantes ao meu mundo real até o ponto em que eu já me encontro lá dentro, não apenas preocupando-me ou torcendo por uma pessoa, também a perseguindo pelos becos, imaginando para onde teria ido, o que aconteceria se, de repente, e etc. Até que eu fecho o livro e estou do lado de fora. Mas ao voltar daquele mundo eu trago a experiência de ter participado da história. Eu me incomodo, eu tenho saudade, eu lamento, eu choro. Eu até sonho. Ora, que poder é esse que o escritor tem?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Ao realizar a experiência de compartilhar uma leitura com meus pais, ofereci-lhes um livro, a partir do qual me dissessem o que achavam da história. Não preciso me estender nisso, eles não passaram da superfície dos fatos, seguindo o mesmo padrão de raciocínio que qualquer telenovela exige. Eles não entraram na história, não desfrutaram daquela experiência, eles a viram de fora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Há muito implicado aí, mas quero chamar atenção para a incapacidade, traduzida assim: se o escritor é um deus fundador de mundos, quem seriam seus leitores, hoje, uma vez que se pretende tanto representar o realismo de uma época, porém sem atingir a experiência real dos seus leitores? Como César Aira atingiria meus pais, por exemplo, através de suas novelas? Ou ele só estava preocupado em representar e oferecer documentos sobre a realidade da época? O que resgataria, supondo que esteja perdido, aquele vínculo entre o leitor e o autor? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Acreditar que a linguagem trataria de restabelecer esse vínculo, através do poder do escritor e sua capacidade de, sub-repticiamente, conduzir o leitor através de sua história, é o que eu sempre fiz e continuarei fazendo, ainda que a resposta pareça estar distante de onde eu a tenho buscado, que são os textos teóricos sobre o realismo, velho ou novo, qual seja. Tendo claro que o escritor não é um deus, quem dirá se se assemelha. Ele não cria mundos nem diz como eles funcionam. O escritor propõe-nos algo e entrega em mãos, para que façamos a trajetória. São dados sobre uma investigação, que cabe a quem entra em contato com eles concluir algo a respeito. É como eu vejo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Voltando à pergunta do título deste texto e o tema proposto nela, penso que o diálogo, o vínculo, a compreensão podem estar indicados, sim, na linguagem, nos termos utilizados e seu papel no sistema linguístico. É por aí que o escritor tem o poder de conduzir, ou melhor, oferecer suas pistas e criar caminhos possíveis. Porém, quem irá ampliar as aberturas que o sentido desse enunciado, ou das histórias, permite, será eu. E não tenha dúvida você de que o autor de tal questão pretendeu justamente isso. Aqui, nós dialogamos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">E como se a confissão de uma trajetória fosse dado suficiente para atestar a satisfação com o percurso proposto, eu revelo que se houve alguma transformação na minha leitura de mundo, após o contato com o universo de DFW, seja através de seus livros, entrevistas, crônicas, seja através de outras pessoas com as quais conversei ou ouvi falarem desse autor, essa transformação se deu nesse resgate do vínculo entre mim e ele, como se o autor fosse apenas um porta voz da realidade. E ela me envia, através dele, um recado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Nada de “espelho, espelho meu”, nem de Mestre dos magos, apenas a boa e velha consciência debruçando-se sobre si mesma e procurando reavaliar a própria forma, ao ter claro, em seu íntimo, que é através da voz dos outros, da consciência dessas pessoas aí fora que ela poderá reunir os dados soltos pelo mundo, pretendendo sintetizar quem é. E eis o que o escritor me oferece, não apenas vários dados, mas o despertar dessa velha sábia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: normal;"><span style="font-size: small;">Sempre tive receio de acabar me importando mais pela personagem de um livro, que por um homem estirado na calçada. Esse papo é tão chato, quanto é absurdo acreditar que a literatura vale mais que a realidade. E, isso, quem me diz é ela. Um dos seus conselhos. Pois quando eu leio uma história, estou em contato também com a minha própria. Dessa interseção eu depreendo o real que a literatura propõe discutirmos e encontro a voz do autor dialogando comigo e dependendo de mim para continuar esse papo. E, depois de entrar, não há como sair ileso dessa história. </span></p>
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		<title>A minha rua&#8230; Curitiba</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Apr 2009 13:51:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/04/07/a-minha-rua-curitiba/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/04/09b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">Texto <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.ruadebaixo.com/a-minha-ruacuritiba.html" target="_blank">publicado</a></span> no site português <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://www.ruadebaixo.com" target="_blank"><strong>Rua de baixo</strong></a></span>.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Que o Brasil é um país continente, eu sei e você também. Basta olharmos no mapa aquele país imenso ocupando quase metade da América do Sul. Falar de alguma cidade daqui é, portanto, fazer um pequenino recorte cultural neste gigante latino. Dentro deste recorte feito, escolher aspectos que descrevam a cidade em questão é estreitar ainda mais o ponto de vista.</p>
<p style="text-align: justify;">Ótimo! Afinal, a visão geral de qualquer cidade está um clique no Google de distância, não é mesmo? Leva um minuto para você saber que Curitiba foi colonizada mais por germânicos, possui uns 2 milhões de habitantes e 47% destes vieram de outras regiões do país. Também que tem belos parques e é uma das cidades mais arborizadas do planeta. Que há aqui um sistema de transporte urbano reconhecido internacionalmente e etc. Se você for em “imagens”, encontrará tudo muito verde, pessoas alegres, ruas limpas e céu azul.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, não falaremos disso que está a um clique de distância, tudo bem? Deixe o Google de lado e venha conhecer, agora, a minha (só minha) rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu moro em um prédio do centro da cidade. Desde a saída do elevador, você já pode ver o chafariz da Praça Santos Andrade [foto]. De um lado da praça, à sua direita, está a Universidade Federal mais antiga do país, que tem apenas um século de vida e é onde eu estudo. Do outro lado, você vê o tradicional Teatro Guaíra, onde eu costumava assistir às belas apresentações da Orquestra Sinfônica, aos domingos pela manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">Falando em manhã, vista um casaco e um cachecol, pois o clima logo cedo é cinza, aparece depois um solzinho fraco até hora do almoço, que é quando começa o calor de verdade, pois 24º graus aqui já é verão. O meio da tarde é um pouco abafado, no final do dia consequentemente chove e assim que começa a noite vem aquele ventinho gelado prenunciando a madrugada fria. Já conheceu alguma cidade em que há as quatro estações num mesmo dia?</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não sou de cumprimentar as pessoas, mas isso não é antipatia. Trago a sisudez alemã na minha cara indígena, oras, culpa da colonização. Eu podia estampar o lado italiano da minha família por parte de mãe, mas não. Apenas aceno com a cabeça e basta para que o porteiro, que é paulista, compreenda o meu desejo de bom-dia a ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Ali na praça há alguns pontos de ônibus. O transporte público é muito bom, você já sabe, então encare sem receio. Mas o que o Google não diz é que, dentro do ônibus, você terá de se familiarizar com as caras sisudas como a minha, cada pessoa imersa em sua própria bolha, tentando se mexer o mínimo para não perder calor nessa manhãzinha gelada. Bem que dizem que os curitibanos são frios. Achou que estava no Rio de Janeiro ou lá na Bahia?</p>
<p style="text-align: justify;">Tem um café bem em frente ao meu prédio, do outro lado da praça. Mas na minha rua há uns três dos vários que a cidade abriga e que servem de ponto de encontro, geralmente. Todos os estabelecimentos lhe receberão bem (não somos frios, somos reservados), apesar de estarem localizados em regiões distintas e representarem camadas sociais diferentes. A cidade é bem desenvolvida, mas as grandes diferenças sociais brasileiras são uma identidade nacional, logo você se acostuma. Agora, prove do nosso café bem quente e sem açúcar, por favor. Na hora de pagar, o atendente do caixa é chinês e mal fala o português. Mesmo assim, até logo, você diz.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta tarde não, mas é comum iniciarem, aqui na praça, manifestações políticas. Montam tudo ali na frente da escadaria da Universidade. Depois, ou eles fazem passeata até a Prefeitura ou se dirigem até a Boca Maldita, que é um lugar da rua XV (o calçadão da cidade) que ficou conhecido justamente por abrigar tais manifestações, na época da ditadura (anos 70). Lá, onde já é a Praça Osório (temos várias delas, aproveite), não é mais a minha rua, mas a manifestação começou bem em frente ao meu prédio, você percebeu?</p>
<p style="text-align: justify;">Tem vezes, mais raras, que as passeatas começam ali na Reitoria, que é um dos câmpus da Universidade Federal, duas quadras acima. Mas, geralmente os universitários acabam saindo do pátio da Reitoria até um dos bares que ladeiam o câmpus. Pronto, começa outra manifestação, agora social. Se for mais à noitinha, alguns estendem para o Bar do Português e seu incomparável bolinho de bacalhau, ou então ao restaurante Mafalda, que abriga a galerinha mais alternativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Se estiver a fim de pegar uma balada, bem perto daqui fica o Largo da Ordem, região boêmia da cidade, na qual você pode desde beber a céu aberto até terminar em alguma das casas noturnas dali. Tem pra todos os gostos, de música brega, em boteco fuleiro, a show de rock ruim, em barzinho tradicional. As baladas mais pesadas ficam longe da minha rua. Só cuidado ao sair à noite, pois há vampiros em Curitiba (pesquise no Google).</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final, nem vimos as horas passarem e já se foi um dia inteiro. Para completar a semana, ainda restam seis. E eu digo que são suficientes para que você conheça bem a cidade toda, não só a minha rua. Curitiba não é grande e tudo fica a um ônibus de distância. Mais do que uma semana resultará em duas opções:</p>
<p style="text-align: justify;">Ou você se entediará devido a certo marasmo, passados os dias de curiosidade, ou então amará tanto a vida tranquila daqui, que planejará firmar residência (como a maioria dos visitantes).</p>
<p style="text-align: justify;">Faça sua escolha e seja bem-vindo.</p>
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		<title>O que é isso, companheiro?</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 20:58:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Denis</dc:creator>
				<category><![CDATA[escritos]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
		<category><![CDATA[garcía marquez]]></category>
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		<description><![CDATA[<a href="http://www.nadapessoal.com.br/2009/04/01/o-que-e-isso-companheiro/"><img src="http://www.nadapessoal.com.br/wp-content/uploads/2009/04/08b.jpg"/></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, reclamei <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://twitter.com/denispedroso" target="_blank">via twitter</a></span> da galerinha universitária que tem vindo falar comigo sobre o fato (segundo a própria editora, <strong>Carmen Balcells</strong>. Leia <a href="http://www.latercera.com/contenido/727_114837_9.shtml" target="_blank"><span style="text-decoration: underline;">aqui</span></a>) de que <strong>García Márquez</strong> não escreverá mais. Bom, o assunto não é essa notícia (e que rende um papo sério e fértil, a respeito).</p>
<p>Fiz uma breve enquete. A todos que vieram comentar essa informação, eu perguntei &#8220;Quais livros dele você já leu?&#8221;. <span class="status-body"><span class="entry-content">O resultado: 90% ouviu falar em <strong>Cem Anos de Solidão</strong>; menos da metade disse ter lido; nenhum leu mais que isso. </span></span></p>
<p><span class="status-body"><span class="entry-content">Ninguém precisa ter lido mais do que um livro desse autor. Não leu nada? Ok, tudo bem. O assunto aqui não é quem leu mais, e sim a repercussão que a notícia gera entre as pessoas. Todo mundo comenta, espalha via twitter, acha triste, lamenta, etc. O ruim é notar que a notícia chama mais atenção do que a própria obra (por exemplo, se ele lançasse um novo romance. Poucos interessados falariam disso, certo?). </span></span></p>
<p><span class="status-body"><span class="entry-content">Eu lhe pergunto: como pode os 60%, que não leram nada, lamentarem a notícia? (Lamentar a sério. Não estou falando daqueles que choram por qualquer defunto). A única conclusão é a de que eles não lamentam nada, sequer têm a dimensão da coisa toda ou pensaram um pouco a respeito do que a notícia representa. O lance, o bacana da coisa, o que gera comoção é a novidade, é o impacto do fato e o blá blá blá que ele rende.</span></span></p>
<p><span class="status-body"><span class="entry-content">Sei bem que todos somos contaminados pelo vírus da informação, sofremos com a doença do sensacionalismo e que entre os sintomas e as sequelas há um universo inteiro. Mas ainda me surpreende que isso apareça tão visível entre aqueles que deveriam ter um senso um pouco mais apurado a esse respeito.<br />
</span></span></p>
<p><span class="status-body"><span class="entry-content">Por exemplo você, você lamentou a notícia? E, mais, quando soube, você procurou saber o porquê dele ter parado de escrever ou o que isso significa na extensa trajetória do escritor (ou de um escritor como ele)? </span></span></p>
<p><span class="status-body"><span class="entry-content">Bom, não precisa ir a tanto, mas seria legal sair um pouquinho que seja do lugar comum, não é verdade?<br />
</span></span></p>
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