O Gordinho,
Etgar Keret

Surpreso? Claro que eu fiquei surpreso. Você sai com uma garota. Primeiro encontro, segundo encontro, um restaurante aqui, um filme ali, sempre só matinês. Vocês começam a fazer sexo, as transas são explosivas, depois vêm também os sentimentos. E, então, um dia, ela chega toda chorosa, e você a abraça e lhe diz para se acalmar, que está tudo bem, e ela diz que não aguenta mais, ela tem um segredo, não simplesmente um segredo, algo horrível, uma maldição, algo que ela estava querendo lhe dizer o tempo todo, mas não teve coragem. E essa coisa vinha pesando nela como duas toneladas de tijolos. E ela é obrigada a dizer, ela simplesmente tem que, mas também sabe que, no momento em que o revelar, você vai deixá-la, e com razão. E logo depois disso, ela começa a chorar mais uma vez.

“Eu não vou deixar você”, você diz, “eu não vou. Eu te amo”. Você talvez pareça estar um pouco chateado, mas não está, e mesmo se estiver, é por causa do choro dela, e não pelo segredo. A experiência já lhe ensinou que esses segredos que fazem com que uma mulher desmorone geralmente pertencem à categoria de transar com um animal, ou com um parente, ou com alguém que lhe pagou por isso. “Sou uma prostituta”, elas sempre acabam dizendo, e você a abraça e diz: “Não, você não é, você não é”, ou “shhh…”, se elas continuam a chorar.

“É algo realmente terrível”, ela insiste, como se captasse essa sua tranquilidade que você tanto tentou esconder. “Na boca do seu estômago isto talvez soe terrível”, você diz a ela, “mas isso é por causa da acústica. Você verá que, no momento que você deixá-lo sair, de repente vai parecer muito menos terrível”. E ela quase acredita. Ela hesita um instante e, em seguida, pergunta: “Se eu lhe dissesse que à noite me transformo em um homem atarracado, peludo, sem pescoço, com um anel de ouro no dedo mindinho, você ainda continuaria a me amar?”. E você diz a ela “claro”, você diria que não? Ela só está tentando testá-lo para ver se você a ama incondicionalmente, e você sempre se saiu muito bem em testes. Realmente, assim que você lhe diz isso, ela se derrete, e vocês transam, ali mesmo na sala. E depois vocês continuam abraçados, e ela chora porque ficou aliviada, e você chora também. Vá entender. E, destoando de todas as outras vezes, desta vez ela não se levanta e vai embora. Ela fica com você e adormece. E você fica acordado na cama, olhando para o belo corpo dela, para o pôr do sol lá fora, a lua aparecendo de repente como se do nada, a luz prateada que toca o corpo dela, acariciando o cabelo em suas costas. E, em menos de cinco minutos, você se pega deitado na cama ao lado de um baixinho gorducho. E o cara se levanta, sorri para você e se veste sem jeito. Ele sai do quarto e você o segue, hipnotizado. Agora ele já está na sala, com os dedos gordinhos aperta as teclas do controle remoto, assiste esporte na televisão. Futebol da Liga dos Campeões. Quando perdem um passe, ele xinga, quando marcam um gol, ele se levanta e faz uma ola.

Após o jogo, ele lhe diz que tem a boca seca e o estômago, vazio. Está a fim de um espetinho, de frango, se possível, mas de carne também serve para ele. Você entra com ele no carro e dirige para um restaurante da região que ele conhece. Essa nova situação te incomoda muito, mas você não tem ideia do que fazer, os seus centros de decisão estão paralisados. A mão muda as marchas quando vocês descem para a Ayalon, como um robô, e ele, no assento ao seu lado, tamborila com o anel de ouro do mindinho, e, no entroncamento Bet Dagon, abaixa o vidro elétrico, pisca para você e grita para uma soldada que está tentando arrumar carona: “Ei, gata, está a fim de uma brincadeirinha no banco de trás?”. Mais tarde, em Azor, você come carne com ele até a barriga explodir, enquanto ele desfruta de cada bocado e ri como um bebê. E durante todo esse tempo você diz para si mesmo que é só um sonho, um sonho bizarro, sim, mas do qual você logo despertará.

No caminho de volta, você pergunta onde ele quer saltar, e ele finge não ouvir, com uma cara de coitado. No fim, você acaba levando-o de volta para casa com você. São quase três horas. “Vou dormir agora”, você diz; ele lhe acena do pufe e continua assistindo ao canal de moda. Você acorda na manhã seguinte, exausto, com uma ligeira dor de estômago. E lá está ela, na sala, ainda cochilando. Mas até você acabar sua chuveirada ela já está de pé. Ela te abraça, culpada, e você está confuso demais para dizer qualquer coisa. O tempo passa e vocês ainda estão juntos. As transas só vão ficando cada vez melhores. Ela não é mais tão jovem, e nem você, e de repente você se vê falando de bebês. E à noite você e o gordinho se divertem como você jamais se divertiu. Ele leva você a restaurantes e bares que você nem sabia que existiam, vocês dançam juntos em cima da mesa e quebram pratos como se não houvesse amanhã. Ele é muito agradável, o gordinho, um pouco grosseiro, especialmente com as mulheres. Às vezes ele se sai com umas observações que você não sabe onde enfiar a cara. Mas, apesar disso, é realmente muito divertido estar com ele. Quando vocês se conheceram, você nem se interessava por futebol, mas agora você conhece todos os times. E sempre que um de seus favoritos ganha, você se sente como se tivesse feito um desejo e ele tivesse se tornado realidade. Que é um sentimento bastante excepcional, sobretudo para alguém como você, que, na maioria do tempo, mal sabe o que quer. E, assim, toda noite você adormece com ele, cansado, diante dos jogos do campeonato argentino, e de manhã acorda novamente junto a uma mulher linda e indulgente que você ama, também, a ponto de doer.

 
Traduzido por Nancy Rozenchan. Originalmente publicado, na Ilustríssima, da Folha de S. Paulo.

|

Quer comentar?

Campos necessários *

*
*