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Perceba o calor se dissipando de seus lábios, com o sorriso mascarando a introspecção aflita. Há um toque ainda mesquinho no semblante carente, percebe?

Olhe os olhos alheios aos olhares. Aliterante: o desvio arredio em direção ao nada e a volta sorrateira que de lá fazem. O que não oculta os traços no espelho dessas retinas, não. Tortuosos esses olhos. Eles são. Sinuosos. Dentro deles, observe, há esse sentimento ruim. Reconhece?

São tristes, mas como pobres ricos preferem manter a aparência. Seus apertos de mãos são mais fortes que o usual. Suas vozes guturais ecoam no ambiente. A autonomia é só uma resistência implícita. Não os faça rir, que o rubor sobe-lhes à testa e começam a suar desmesuradamente. O esforço para conter a sudorese é extravagante, não se importe com a encenação. Basta um desvio de atenção, a sua, para que voltem a si sem os notar.

Continue mirando seus gestos, em particular. Após ninguém mais tê-los em foco, perceba os semblantes recuando e como a pele enruga. Aqueles olhos perdem a cor e a face deixa de ter contorno. Dura um lapso, você precisa estar atento. Geralmente, eles sabem muito bem se conter. O medo de serem percebidos lhes motiva a continuar atuando. Esqueça o jogo de cena, a realidade escorre pelos cantos e o espelho se espatifa em evidências.

Por isso tudo que, quando sozinhos, eles se debruçam sobre o chão e seguram com uma das mãos a dor no peito. Já sentiu isso? Muitos estão mortos quando chegam ali prostrados. Outros se aninham e preenchem o olhar com imagens do passado. A reminiscência lhes dá, ainda, mais um momento de fôlego. Só que é duro saber que não durará muito e as evidências voltarão a lhes corroer a alma. Pobre deles.

Nunca ria, nem que lhe tratem mal. Podem até ter culpa, mas essa já é sua sentença. Se não for capaz de entender isso, apenas respeite. Que esse respeito por sua dor, isso já será o remorso que sentirão ao notarem a pena dos que se compadecem por eles.

Já sentiu…

Isso?

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