O macaco ornamental,
Luís Henrique Pellanda

O nenê para de chorar. Dorme. E eu olho pela janela. Estufa de gente. Lugar feio, sem árvores, sem um rio que mereça o nome de rio. Minha cidade sem horizonte, feita somente de objetos de uso, tua lei é a utilidade, a economia das coisas. Aqui dentro, ali fora, lá embaixo, quase tudo um utensílio. Carro, prédio, sinaleiro, outdoor. Placa de trânsito, antena de celular. Sei que é a ladainha da moda, o choro da mídia, mas hoje sou um homem do meu tempo. Sabedor de gírias, amante dos clichês. Integrado e objetivo. Com meu primogênito no colo, três vezes maior que um charuto grande, o moinho do meu sossego, frágil gerador da energia que me resta.

Converso com ele.

Quando tudo for utensílio, digo, o próprio homem será apenas um enfeite no mundo. Seu último adorno desnecessário. Uma espécie ornamental de macaco.

Ele reage mal, acorda.

Duvida, meu filho? Ontem mesmo, na internet, vi a foto de uma múmia de bugio asteca. E ela era a tua cara. Péssimo, não? A múmia me lembrou você. Paramentada para a morte.

*

|

2 Trackbacks

  1. por nada pessoal » O macaco ornamental em 19/03/2010 às 14:11

    […] nada pessoal eu penso e o Denis escreve Skip to content Sobre o N.P. « O macaco ornamental, Luís Henrique Pellanda […]

  2. […] macaco ornamental – Luís Henrique Pellanda (Bertrand Brasil) […]

Quer comentar?

Campos necessários *

*
*