O sopro quente lambe o suor da nuca dele. O rastro sinuoso do esforço escorrendo seu dorso nu. Nas mãos, a história da própria estirpe é contada pelos calos que se agarram à enxada. Um olho espreita o horizonte e outro atenta à plantação. O espanto dos pássaros sinaliza o inevitável e o latido da fera prenuncia o embate. O objeto da labuta não servirá de proteção e o corpo de Irineu da Cunha será atirado ao solo. A alguns dias de sua morte, ele escrevera a carta com o punho ainda trêmulo. Endereçada ao filho restante, que meses antes se refugiara no centro do Brasil, só foi aberta quando o jovem desconfiou da própria sombra. Com o diabo no encalço, não se brinca com o destino. Seu paradeiro descoberto não era novidade, o velho farejava o filho nos álbuns de família. A notícia da morte do pai havia sido antecipada, mas a covardia do filho selou o que segredavam aquelas palavras. Agora, era tarde e a carta trazia junto o algoz daquela linhagem.
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