O único
sentimento

Olha ela, debatendo-se ao ser açoita por ele. A paixão a jogando a tapas contra os braços do prazer alheio, enquanto a vaidade prostra-se no chão débil do desejo. Ele a tem e a machuca, não poderia ser diferente. Ela não pede nem suplica, mas está ali porque. E ele a fatiga antes dela sequer ter uma breve imagem do seu rosto.

E, agora, que orgulho ferido é esse? Te levanta. Restam apenas as marcas, vestindo no teu corpo as maldades do. O mais próximo que chegará dele serão estas manchas. Que caminho longo ainda percorrerá para descobrir que ele não existe, que não possui um rosto. E não adianta insistir em enlevar uma paixão fugaz, apenas a mate antes que te corrompa ou a satisfaça antes que ela te deixe.

Você então cedeu, enfraqueceu teu corpo à entrega de tua vontade e permitiu que ele te tomasse no mais profundo do teu sexo. A posse é esta prostituta parada na esquina, ela oferece teu corpo à loucura dele. Alguém te avisou para não andar por aquela rua? Agora toma tuas coisas e te levanta deste chão.

Há ainda uma leve inconsciência do querer. Você sangra e você gosta. É um prazer bandido este, te assaltando a consciência levando embora tua ingenuidade. Não será mais a mesma; com outro orgulho, com menos vaidade. E porque tudo passa, assim como as pessoas que passearão pelo teu corpo, então te levanta.

Por ele, você ainda se pergunta. Resta apenas o precipício das palavras jogadas, atiradas contra teu ouvido carente, sussurradas entre teus desejos secretos. “Quem irá dizê-las de verdade?”, insiste.

A verdade, que engano. O batom com a cor do sexo, espalhado pelos lábios da malícia. É assim como a vontade te beija a boca soletrando palavras vulgares. São os instantes de prazer que o teu vício promete, numa tentativa de saciar um desejo que, antes disso, sorrateiramente te alicia e te consome.

Ele nutre-se da fraqueza do teu corpo, da fácil assunção do mistério que a tua disposição não alcança. De teu medo em relação àquilo que desconhece, como se fosse legítimo um sentimento qualquer, que sequer atravessou a ante-sala do consentimento e cresce à medida que você o perde.

É por isso que você cede, e cai.

Então vê se te levanta e limpa esta tua cara, pois o dia logo clareia e outras pessoas irão notar as semelhanças da doença de mais uma vítima do, que é o nome que dão para ele, sem sequer dele terem visto ao menos suas costas o levando mais uma vez embora.

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