Livros de mais,
leitores de menos?

Hoje, pela manhã, me deparei com dois artigos. Um informando sobre o lançamento do “Livros Demais…“, do poeta mexicano Gabriel Zaid [1]. Em seguida, sem eu pretender cruzar informações, abri meus feeds e esbarrei num outro artigo, sobre o Clube de autores, site recém lançado e que possibilita autores independentes publicarem seus livros, com tiragens a partir de… 1 exemplar! Isso mesmo. A idéia vem de modelos gringos, como o Blurb, Lulu, WeBook, Qoop [2].

Mas, a questão que eu ponho é menos a novidade dessa iniciativa versus o livro do poeta mexicano, do que a reflexão sobre a diversidade e aumento da produção versus o número e tipo de leitores. Em outras palavras, o quanto essa oferta possui procura, de fato? E, mais, que tal se a oferta criasse sua demanda boca a boca? Entenda a brincadeira:

Nós sabemos que os números do mercado editorial cresceram, nessa década. Mas também sabemos que o livro ainda é um artigo de luxo. E que, infelizmente, o número de leitores cresce bem lentamente, por aqui. E isso se deve a uma série de motivos, desde a educação até o poder aquisitivo. Não é por preguiça que nós brasileiros não nutrimos o hábito da leitura de livros, a princípio. Há boas explicações históricas, que vêm desde a colonização, passando pelo mercado editorial português dizendo-nos o que e como ler até as primeiras editoras nacionais autônomas, em 1965. Ou seja, tem uns 465 anos de fade in fade out aí [3].

Tudo bem, até aqui. Ninguém, neste texto, está reclamando disso, afinal, entende-se perfeitamente o movimento histórico. A pergunta é se essa produção, que tem surgido, possui algum impacto na vida do cidadão brasileiro que, em média, só pensa no livro como a quinta possibilidade considerável de ocupar o seu tempo livre. Antes do livro, o sujeito pensa em ver tv, ouvir música, rádio ou até descansar. A maioria reconhece o livro como algo bom e positivo, porém poucos se dedicam a lê-lo.

E aí é que está! O livro é visto como um esforço [4]. Para ler, há que se ter concentração, não se pode pensar nas contas a pagar, na fofoca que o vizinho contou, nem se já está no horário da novela ou do telejornal. Também se recomenda não comer muito, antes (ou pouco antes de começar a ler), para evitar o estado de sonolência via metabolismo. Depois, deve-se entender bem a história, não se perdendo muito entre aquelas linhas todas, marcando direito a página em que a leitura fez um intervalo, voltar a ler exatamente de onde parou e, de preferência, voltar a ler, claro. Some isso à falta de costume tornar a leitura lenta. Ao final, o que sobra é a admiração, mas não o empenho. Pois se tornou um esforço tremendo ler um livro. E o sujeito quer é relaxar, neste momento. Mal acostumado ao controle remoto, ele ali terá de mudar as páginas com a mão. E olha só quantas páginas!

De lado, portanto, ficaram o ideal de conhecimento, deleite, prazer. Aliás, sequer o ideal de lazer. Em que desvantagem se encontra a atividade (física quase, veja só) de leitura.

Porém, contra tudo isso e contra todos os prognósticos pessimistas, o número de leitores vem crescendo e o mercado editorial evoluindo. Devagar, devido à tradição história. Ainda cara, devido ao baixo poder aquisitivo do brasileiro. E difícil, porque não há costume algum envolvido. E, agora, sabendo disso tudo nós nos voltamos à brincadeira proposta, lá em cima.

Certamente, os números crescem muito mais do lado das produções e do mercado editorial (geométrica), do que do lado de cá, no número de leitores (aritmética). E aí é o caso de se perguntar para onde vão nos levar tantos livros publicados e tanta facilidade em fazê-lo. Seria o caso de cada escritor independente produzir o seu livro e distribuir para a família, os amigos, seu bairro e cidade? Seria assim que, através de pequenos nichos, a atividade de leitura se tornaria enfim uma experiência cultural compartilhada e o livro deixaria de ser artigo de luxo para representar um momento de lazer e reflexão (no mínimo)?

Os dados já foram lançados, afinal os meios vêm determinando os fins possíveis sem perguntar se há pessoas para percorrer os trajetos propostos. Possibilidades existem, faltam agora as ações que as justifiquem. Pois, sem conteúdo, bem sabemos, forma alguma sobrevive. Ou devemos inverter a equação e acreditar na forma, agora, esquecendo um pouco o conteúdo?

E, até aqui, nem sequer comecei a refletir sobre a qualidade desse conteúdo. E, sem chegar nesse mérito, eu, desde já, desejo a você e ao maior número de pessoas possíveis, uma boa leitura.




notas:
  1. leia aqui o artigo de Guilherme d’Oliveira Martins, a respeito do livro de Zaid e seu tema []
  2. neste artigo, estes diferentes serviços citados são comparados []
  3. informações estatísticas anteriores e posteriores tiradas do seguinte artigo []
  4. o texto referido na nota 1 corrobora e estende esse raciocínio []

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Um comentário

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    Postado 11/02/2009 às 18:23 | Link

    Agrada-me, por isso, a idéia de impressão sob demanda. É uma maneira de um livro chegar a um único leitor (ainda que seu público seja isso: um único leitor) sem que haja custos de impressão excessiva para isso. O mercado acaba sendo justo, por outro lado: não há produção se não há consumo. Se o mercado editorial cresce, é porque há público para ele. No entanto, como autor prefiro os formatos online, ainda mais barato para os autores e para os leitores.

    Abraços e obrigado pelo link

2 Trackbacks

  1. por bails em 22/02/2015 às 13:58

    bails

    nada pessoal » Livros de mais, leitores de menos?

  2. por Zoom teeth whitening in West Los Angeles em 29/04/2017 às 01:27

    Zoom teeth whitening in West Los Angeles

    nada pessoal » Livros de mais, leitores de menos?

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